quinta-feira, 6 de julho de 2017

arte é corte

estendo linhas por onde ando
conecto lá com ré, eu não entendo,
eu não me emendo,
corto cada fita cada laço cada nó
até que fique apenas eu e só
apenas eu e só
ouço
será que ouço?
pássaros cantando bem distantes
imagino
seriam agouros?
minha imagem levada por inimigos
flechada numa clareira, sangue meu,
como vai voltar pro corpo?
e o que seria então um corpo?
pele sangue ossos, segredos e cigarros,
eu não canto eu não conto eu só janto
com minhas expectativas à mesa
numa mesa de marfim, eu e mim,
você não vai chegar porque nunca chega,
chove tão forte ali lá fora
além de lá a ré, lilás, leão,
pássaros batem contra o vidro
ouço um grito
tampo minha boca
até que fique apenas eu e só, veja, eu vejo
um lago d'água escura areia branca não sei
se é tão profundo se é tão raso se tem
sereias se são piranhas se há areia
movediça, sumidouro, eu fico
a olhar
eu olho durante um tempo, eu penso
durante um tempo, para onde
vai meu corpo? estendia linhas
lençóis
leste a oeste, vice-versa,
eu minha própria aranha
em simultâneo própria mosca
logo eu fiz prisão de mim
braços grudados na mesa de marfim,
enfim preparo
minhas runas, minhas próprias armadilhas
larguei armaduras num dia quente
dentes entram na minha carne e é
arte, é corte, faz parte,
tecidos aos pedaços
sangue meu, sangue meu,
como vai voltar ao corpo?

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