quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

o rei está morto, vida longa ao rei

não tenho muitas questões, por ora, já as acumulei numa grande caixa, pedacinhos de papel, minúsculos, a água borrou boa parte, mas ainda é resquício de lembrança, e resquício de lembrança também é lembrança. gostaria de dizer que estou sempre com o forno pronto, colocando novos tijolos, e depois com eles feitos, montando os pequenos muros, e talvez seja verdade mesmo. pequenos a ponto de que vejo o que tem fora, mas se subir em cima não vejo muito longe. pequenos a ponto de que, pequenos, mas ainda muros, geralmente alguém fica do lado de fora. pequenos a ponto de que muitas vezes eu tropeço neles ao tentar sair, por esquecer, por não ver. igual quando estourei meu mindinho esse ano. meu cabelo, grandinho, de um tamanho que não esteve há muitos anos. as vontades. cabelo azul, tatuagem, nada disso. as dúvidas. eu tenho sim algumas questões, por ora, é só investigar um pouquinho, lupa na mão e olhar reentrâncias, olaaaar. estava tudo mais ou menos bem. no geral, acho que foi tudo mais ou menos bem. não posso negar os belos momentos. eu não queria reclamar de novo. tudo bem. tanta gente linda, tantos momentos. viva o que acaba, viva o que se inicia.

barbra jean disse

oh, como eu queria meu ben, e moraríamos no kentucky, e eu teria josh, nosso filho louro e estúpido

soirée

louise bourgeois se coloca a frente para batalha

domingo, 27 de dezembro de 2015

domingo, 20 de dezembro de 2015

me te digo

se me te quero
aos pedaços
se me te moldo
em descompasso
se me te fito
com fingida ternura
e nostalgia-tortura, as mãos grandes enormes tentam
se fechar em torno de minhas gargantas

quantas faces tenho tomo se te me dou?
se te me vejo reflexo refletido no rio
e sem refletir muito, bem pouco, quase nada,
me arremesso e tenho pedras nos bolsos?

afundo

a fundo pode-se dizer, pode me dizer, pode
me te dizer que não são as cores do arco
íris, não são cores algumas que
farão dias melhores, são

fragmentos

se me te prendo em balões de gás
poderei dançar, tento na verdade, nas nuvens?
tanta a verdade que o copo, pequeno, deixa
deixa
deixa
deixa transbord
ar

ar, artigo de luxo, lembro me te das mãos enormes grandes
que apertam animalescas, mas me te digo
que de animal temos o melhor de nós, os

cheiros que podemos devassar, uns dos outros e
os ventos,
rastros que sigamos, caminhos ocultos, lagartixa
vazada pelas frestas

ametista brilhando toda a explosão do início dos tempos
seja minha amigairmãmãedeusa
me te digo

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

a hidra

é um mecanismo simples
que, preso à mão, faz com que ela
suba e desça
suba e desça
suba e desça
com fins alheios à própria
mão

é o terror dos manequins
que vestidos com tantos tecidos
sem sentir frio algum, algum, algum

é uma caixa metálica lotada
que de vez em quando para e segue
para e segue
para e segue
contornando obstáculos
e deixa no chão os binóculos
de qualquer garota que ousa sonhar
e ainda a faz pagar

é a lama, é a lama, é a lama

é um carro metralhado
e jovens pretos mortos
que só queriam lanchar
e celebrar
celebrar
celebrar, mortos, mortos,
irremediavelmente mortos

é um animal que pensa
que as filhas são suas
para delas dispor, e as
devora, devora,
devora

é o índio, sua marca na rua,
e não marca as almas,
queimado, queimado, queimado

quantas são as faces
do derradeiro, do limite
e dos suspiros
(que sufocam gritos)?