segunda-feira, 23 de novembro de 2015

negativo de "a praia"

quando em redes
deitados em naus
solavancos são esperados, só que
ninguém nunca disse
do incêndio

sinos ressoam sinais

a maioria, a minoria,
a mesma laia

vô fazê um'oferta
que suncê, negá
num vai podê

é patente que o acidente
vem ad hoc
e esse reboque é só estoque
de um fox truque sem cabimento

a praia

coloque uma grande obra de arte
em posição fetal, coloque-a então
deitada em posição sensual, coloque-a
então deitada no momento final,

e se na terra reina o caos,
o je ne se quoi dos "maus",
no paraíso, o tédio,
a conta-gotas, sem remédio.

com algumas tintas nas digitais
faço carimbos e sonho
que deviro, sapateio, brotar fractais
porque das palavras não tiro ganho.

todo mundo já foi à praia.
isto é, das pessoas daqui. isto é,
dos leitores da veja, isto é,
de uma lista com um monte de artista,
isto é, nem todo mundo já foi à praia.

ei,
você,
vamos a la playa?

sábado, 21 de novembro de 2015

prazeres(?) iluminados

(feita de vento, de ar, feita de mar,
ausente qualquer
amor,
não, sua mão, sua barba, sua pretensa
ternura, não me consola de meu pavor, não te ponhas
acima de mim assim, coloca-te
ao meu nível e
doa comigo)

(furos-rasgos,
ausências-frestas,)
frutos-bagos,
(         -arestas)

festas, festas, festas,
festivais, na manhã estival
essa meia-luz confusa

(o
totem
descabe penas)

(uma mão
tenta segurar a outra
com a faca suja
de
sangue)

(seria/é
um abraço ou
se empurram?
,)
são/seriam
dois homens?
o que são os homens?
(suas sombras se fundem)
não se fundem todas as sombras?

(ele)
o que é um ele?
(esconde seu rosto ou
se afunda na sombra? e na sombra ele
encontra um buraco? uma
possibilidade?)
não há possibilidades, somente há

(risos confusos,
juba, laranja e azul,
nuvens perto no céu)

(um navio navega pela parede
que é outro céu)
quantos são os céus, céus!

lá no fundo azul, no fundo do azul,
no azul,
pode haver, e pela fresta, até se vê a rocha

no meio do caminho tinha

(é um pobre fantasma
e o homem cruel
quer botá-lo no canto
quer lhe mostrar onde fique)
ninguém sabe o que fazer dos mortos,
quanto mais dos vivos

(e em suas bicicletas os homens)
só podem ser homens... só podem!
(seguem prontos pra se chocar de frente
e com delicados ovos em suas cabeças
e suas barbas tão sérias)

os homens.
eles acreditam mesmo em seus ovos em suas cabeças

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

imagens

coleciono imagens
em uma pasta única que se chama, veja só!,
"imagens",
e tem uma caralhada de gigas

até me pego, não que me
encoste com a mão, ou que me agarre, mas sim,
seguindo, me pego
 - com a mão no queixo -
pensando
- ao menos metaforicamente com a mão no queixo -
pensando

imagens, imagina, se fosse
há uma caralhada de anos lá pros ontens?
ou anteontens,
numa gaveta, guardadas, uma
colando na outra, imagina, eu ia

precisar de envelopes, mais papéis,
árvores morrendo, etcetera etcetera,
mas se ontens, imagina, imagens,
ninguém tava nem aí pras árvores, no geral,
só os indígenas,

imagina!, quantas gavetas não precisaria?,
uma caralhada de gavetas, capaz
que nem ia ter espaço, não é mesmo
meu bom rapaz?, minha cara donzela,
minha querida pessoa não-binária,
que agora me escutam, vocês

fizeram também as suas imagens?

imaginem
a caralhada de dinheiros que eu teria que ter
pra ter
tantas imagens, pra ver tantas,

capaz, pessoa não-binária, donzela,
rapaz, que eu teria só uma, duas ou
três imagens, e não seriam

elas
tão ridiculamente
preciosas
aos meus olhos? eu formaria imagens com elas.
mais do que faço com as minhas
na grande pasta
com mais de um mil e oitocentas,

quantos detalhes eu não notaria?
traçaria histórias, temeria as traças,

au contraire, estou aqui,
e faço troças?, são?,
gozo, certamente gozo,
isso basta

dedo

se eles pudessem eles
entrariam
dentro de nós
e nos explodiriam por dentro, - e

eles não podem?
parece que os segredos
esparramam-se violentamente por
cada um de nossos dedos, seus

meus de todos de cada um
de ninguém, - seu dedo

te pertence, ele é só teu, - não

é não, minha mãe me disse
que meu dedo
é dela, que ela que fez, o que
faço eu disso? de mim? - de

si, para ti, não sei responder, de mim
nego, com ênfase, com fome, - parece

bonito, mas não mata
a fome
de ninguém, essas terras, elas são de quem? - deveriam

ser de todos, cada um, é
isso? - segredos, as

respostas são segredos, - fome,

a fome é eterna, sim, de quem - é

- seu

- dedo

- meu

- dedo

sábado, 14 de novembro de 2015

versinhos

diga-me uma palavra bonita,
de si,
sem que eu peça, mas se eu pergunte,
diga assim mesmo
um colorido seu
pra fazer do meu dia meu

"ninguém vai me dizer o que sentir"

"todo mundo cantando baixinho
strawberry fields forever"

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

passo, passo

passo, passo, passo,
agruras, nervuras, medidas,
a saia que cai, ao dançar pisa na barra
e a nudez é um quase, passo
por isso, por cada qual, um dia inteiro sem
um sorriso,
um estender de mão,
passo, passo, tropeço,
caio de joelhos, cadafalso, guilhotina,
a revolução certamente me deixaria sem cabeça, o mundo
de tudo que é torto e trato desfeito, passo,
sigo,
sing, I sing,
chi que se esvai pelo sumidouro, chuva transbordando bueiro,
um passo, dois passos, três passos, mais alguns passos,
há de alcançar, eles dizem,
eles dizem, eu me digo, digo, não nego, quando digo
diogo não digo diego, não chamo nada pelo nome
certo, é elaine ou eliane?
tento,
não passo,
e passo:
não é minha vez,
passo rápido e chuto
o mindinho no portal e ele fica roxo por dias e
verde também e não sei prever quanto tempo vai
durar a dor que não passa sou
o mindinho
do pé
direito
agora torto

domingo, 1 de novembro de 2015

true love will find you in the end

tudo começou no escuro
e palavras que seriam encontro não se
completam
[pombos-correios que enviados, dominando os céus,
de repente, transformam-se em chuva de penas
e ninguém
sabe explicar bem o porquê], mas

buscamos luzes em uma loja de velas,
buscamos
luzes ao abrir buracos para abrir
janelas

eu quero nadar, eu quero
sentir que minha pele está úmida, eu
quero espantar a secura que
os dias teimam em oferecer, escapar,
eu quero

você,

você, estou com plásticos bolhas,
estourando, a mim, às bolhas, fazer barulho
é um jeito de ser menos só, a
música passa
mais rápido do que gostaríamos e sonho
que você
a ouve também,

[você, te procuro nas ruas,
em livros,
sem jamais saber se

descaminhos os nossos se tornam
tangentes
as gentes
são tantas ao redor que tenho medo e
de elevadores, e de viver, e meu melhor amigo se chama
rivotril]

a vela não precisou ir até o fim de seu
pavio

[ninguém me viu]

do buraco que abri, te vi e segui