segunda-feira, 31 de agosto de 2015

um aviso

um aviso
de quatro minutos
que explicasse minuciosamente
& convulsivamente
o motivo da existência de tudo tal qual é,
a existência e etc., esse aviso
explicativo, e só você ouvisse.

e consequentemente, todos depois
não achando que você fazia
o menor cabível ou aceitável
sentido

e logo te trancariam numa jaula,
sim, te trancariam numa jaula,
pois a incompreensão teria chegado
ao intolerável, veja só

e
tudo culpa
do estúpido aviso
pelo qual nem sequer pediste

opalas

7 -
é completamente errado
impróprio
ou ousado
uma garota querer ter seu próprio pau?

12 -
dos sussurros de noites
que amanhecem
mas que já foram noites, e portanto sabem

13 -
a borboleta sempre inventa
um jeito novo, mas parecido,
de pousar na flor mirada

9 -
a chama consome cigarro,
consome paixão, consome lenha,
também vai consumir você

XVI -
uma maldita letra "cê"
que não é sua, não é você,
se intromete no meio das coisas

16 -
fica voltando, insidiosa,
feito erva daninha

99 -
chapeuzinho caminhou
longo caminho sem saber
que encontraria um lobo

97-
os desacontecimentos, as desatenções,
o incêndio que se começou foi sem
saber por onde, por quem, porquanto

12 -
sigamos enquanto as canções ainda
ressoam e fazem as carreatas e cortejos
irem como uma explosiva pimenta vermelha
na frigideira, dinamites e diamantes

37 -
a matéria
deste ensopado é das
densas, a matéria deste
ensopado é
das que nutrem, a
matéria
deste ensopado é
das verdadeiras.

8 -
tudo borbulhou.
big bang:
o primeiro fogo de artifício.

90 -
_ Seu sucesso não será minha queda,
Juliette!, e te prometo isto! Jamais
de teu nome farei parêntese tão
somente seiva das mais verdes.

88 -
Os espaços vazios entre
cada uma das coisas e elas também
ultimamente no fundo vazias
eram o componente fundamental
do dizer
o que era eu, o que era você,
a nunca conjunção,
sempre, a, vírgula, no, meio,

41 -
sonetos dos mais repletos
dos olhareis mais solares e
das quedas homéricas e
cicatrizes desenhando o
torso

55 - 
eu desenhei no seu dedo
com tinta invisível
um anel de casal.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

fogos de artifício

só uma amêndoa:
tudo e todos,
tu e eu

à medida que
os fogos de artifício
explodiam sua

luz você me desenhava
a mim em corpo
nu e desgovernado

todas as imagens também,
 e sons, e sensações,
 não como negativos mas

pulsante você entra em mim
eu de costas
não sei mais meu

espaço tempo bobagens
essas, entupidx de ti, e tudo
a me rodear eternx

portanto, circular, você
em mim faz tudo
acontecer e desacontecer ao mesmo tempo

e fogos de artifício
à medida que
e sempre
é uma coisa um tanto quanto curiosa as conexões que estabelecemos. entre pessoas, entre coisas. essa algo magia que faz com que possamos sentir, de alguma forma, empatia. e compaixão. e compartilhar então a dor, ou a alegria, de outra pessoa, de uma pessoa com a qual nos conectamos. ou como quando alguém ao nosso lado está com raiva isso pode nos afetar. não, não somos bolhas. e assistir sense 8 dá essa sensação de uma forma aguçada. faz pensar também nos mundos das possibilidades e das criatividades, e das histórias e personagens que envolvem nossas vidas. e, relaciono coisas, vi recentemente uma tirinha que tratava das distopias mais famosas de orwell e huxley, ou alguns diriam "previsões". e em huxley tem o soma, né? que atordoa, é isso? não lembro tão bem. e é essa dualidade da arte, ou do entretenimento. quer dizer, não sei se o entretenimento tem essa capacidade de mobilizar mudanças na vida. mudanças profundas, superficiais. mas me fez pensar no quanto acabamos sendo egocentrados, e acomodados, e viciados em prazer, né? como diz a tirinha. e que ficamos nessa, e não mudamos o mundo. opa, tá, que eu fico nessa. a mania de que minhas reflexões mais gerais caiam no âmbito pessoal... o que eu queria dizer, uma das coisas que queria dizer, é que essas conexões são lindas, e também é o amor, mas que sinto tudo menos. não sei se é pelos medicamentos que tomo para tratar do transtorno bipolar, não sei se é pelo trauma do surto psicótico que já vivi e que isso me fez de alguma forma me colocar na minha bolha. já foi tudo diferente. talvez seja só envelhecer. minha intenção aqui é de alguma forma me relembrar, e fazer uma ode a essas conexões, especialmente às conexões entre pessoas. mas também me sentir grato por estabelecer conexões entre coisas. e por sentir sede, e viver experiências. e sentir fome. e sono. e vontade de trepar. e raiva também. e os percursos pra se lidar com cada uma dessas situações. e por sentir amor. novas conexões são revolucionárias, mas são humanas, e algo no humano é sempre revolucionário: o mundo das possibilidades.

sentir isso, pensar isso, viver isso que aqui tá escrito é algo angustiante, e algo dá vontade de gritar. talvez também porque a tevê na sala fala do jogo do flamengo com o vasco e minha mãe acabou de me perguntar se não quero almoçar.

essas coisas difusas, esses sentimentos, esses momentos, essas coisas. não dá vontade de largar delas. e são cada vez mais raras na minha vida, e isso é triste.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

o jogo

veja emília brincar
e o jogo muda
a cada
dezessete
segundos

agora era um vestido
agora era uma flor
agora era uma rã

agora era uma faca
agora era um cravo
agora era uma febre terçã

a tua presença
é branca verde vermelha azul e amarela
é negra

motocicletas
que se chocam no cruzamento na esquina
e a todo dia

brindes!, brindes!,
um brinco o casamento
na honra de descer até o chão

o escape do desengate
(que evita desgaste,
evita desgaste)

o fim de dias
jogados
tomando sol

sistemas, que eclipse,
que quasar, que meteoro,
que planeta, que nada

de encontro ao meu
o seu, o meu, nada
de encontro ao meu,

suspiros, equalizadores,
bem altos sins!,
desabalados senões,

o jogo há um tempo exige
que seja
a três

e o jogo diz que
sim e que não e que talvez
e que nada, tudo ao mesmo

tempo chama lava lodo
líbelulas lilases lamúrias
lentamente escorrendo pela tela

telúricos, eis tudo,
triangulando pelas beiras
e adorando as encruzilhadas

não é a quantidade de imagens,
e sim, a quantidade de cacos
esparramados pelo chão?

conluio, as coisas em segredo
com seus enredos e suas sortes,
trocam cartas ao luar

serenatas de amantes
e para o cansado mim degredo
de não caber a nada nomear

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

verde e amarelo

veja emília
a brincar pelo campo
verdejante, extenso, reluzente,
tal o olhar é profundo e longo

escapatórias e escapes
tremulam como bandeiras
em verde a tomar
ruas casas campinas

e no final longo e profundo
mas nada amargo, encontrarás
(presente) o também imenso
e também verde, mar oceano

triângulos, trapézios,
na, verde de novo, lousa,
e marcas de mão e nuvens,
o céu que também é verde

escurecidos os carvalhos
tocam uma canção cega
de deixar em pé

e amarela que tem
um gosto indefinido
e um som de oboé

domingo, 23 de agosto de 2015

a tua presença tinha que estar (aqui)

(e está, mas infelizmente não)

a tua presença tinha que estar (aqui).

espelho,
espelho teu,
que olho verá quando olha o meu.

você em marrakesh,
eu em bagdá.
não tão longe.
mas chão pelo caminho.

nosso dialeto secreto
é a areia do deserto,
a merda de camelo
e um peito aberto

pesadelo.
desdém não soa
bem vindo de ti, carinho,
shh!, shh!, shh!

teu espelho,
espelho,
meu o olha quando verá olho que

a tua presença tinha que estar (aqui).

(e está, mas infelizmente não)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

acontecimentos

pedra
que cai

que torce
buraco
que explode
savana
que desertifica
pergunta
que identifica
canção
que amortiza
dança
que exorciza
demônio
que planta
amazônia
que desertifica (também)

o movimento vai de um lado, começa, e então
para o outro, e segue, como se seguido por alguém
e por outro e por ele mesmo sendo seguido, gui-
chês de souvernis esmagados pela colisão
do automóvel

o sertão
vir a amar

a rachadura na parede
a atitude daquela guria
a bola de gude na outra
a estátua feita de tempo
e lava

declaro:
o
teu
beijo

e o desenlace só

e sempre, de volta às mesmas três músicas

david bowie, see emily play
pink floyd, see emily play
pink floyd, mother

macumênico

afrobático

dispepsia do músculo distal

trips do ego e blues

trips do ego e ausências

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

retrô doismilecatorze

os personagens morreram, alguns até mais de uma vez, a outra traiu o marido, vários deram risadas, histórias de amor existiram, no meio da sala uma semente na terra que não brotou, que já estou vencendo o ano que passou, que o menino foi empurrado da torre, e mais de uma vez, e depois voou, que conheceu um sorriso charmoso e um perfeito escrutínio de detalhes e personalidades, que viajou com dois irmãos que matavam monstros, que acompanhou ross & rachel, e penny & leonard, e viu fazerem produto de beleza dentro de uma prisão, e cantou que poderiam ser heróis, e desconfiou de cada saída, preferiu o caminho de ficar na horizontal, contudo foi à terapia religiosamente semanalmente analmente, e, unrelated, não pegou ninguém propriamente, quase não ouviu música, mas das poucas vezes rolou em várias massacre no som, fodeu o iphone, tentativa de trabalhar, momento bar rio, tentativa de brasília, abandonar tudo correndo e ficar (com trauma), algum tempo depois meu irmão se casou e foi bem bonito, as coisas vão acontecendo tudo segue tudo siga, teorias da narrativa porre que larguei, extraí uma pinta da perna, caminhei por um período curto, mas foi, e de mais de televisão, todo o mundo da publicidade e suas tretas, a história daquele que renegaria jesus se ele voltasse, umas pinturas malfadas algumas em estado alterado outras com um toque ímpar espalhadas por aí, o joguinho dos blocos de balinhas e docinhos, novas amizades tarifa e tal, praticamente todos os jogos da copa do mundo e meu pai abandonou a tv no 7x1, um pouco de momentos high especialmente no segundo semestre, o note que travou e não roda mais civ v, olhar meus pokémon de pkmn white (algm apagou wtf), um ano horrível e merda com vivências que também são meus justos pedaços, mas com um belo reveillon.

domingo, 16 de agosto de 2015

eu apenas

falava demais porque estava inseguro
batatas fritas sobre a mesa

grades na janela

derramou
cerveja,
carpinteiro do universo,

cada um escolhe um som

os encaixes são preciosos, são
voluntárias prisões

um braço
que encosta
em outro braço, uma perna,

um fio de cabelo que cai

desenhos desalinhos
tetris que se repete na cabeça

eu não
me recordo, eu apenas
me toco

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

(também) retirado do vídeo Ecos do Silêncio, “Roteiro da apresentação Lua Nova de Toshi Tanaka”

Ao escutar a escuridão
Pega o silêncio com a mão
Nesse momento
Olha a própria morte.

Quando a menina desperta a própria vida
E começa a andar
A velha atravessa dentro de seu corpo
Transformando os tempos em gota d’água.

A menina sopra.
A palavra falada retorna ao silêncio
E resgata a origem da força viva.
O corpo é transparente
Flutuando no ar
Como uma esfera de ressonância.


em: http://oolhodahistoria.org/n14/artigos/ana.pdf - pg 10

retirado do vídeo Ecos do Silêncio,

Cotidiano
Todo dia
Mesma hora
Mesmo tabi

O corpo varia
O clima varia
Ouvir o tempo interno

Abrir espaço
Dentro
Fora
Sem fronteira

Menina
Moça
Mulher

Minha menina

A menina que habita em mim
A arte mora na coluna
Na respiração
No espaço entre as vértebras
No ar entre os corpos

Estado de criação
Cortando cenoura
Medula
Limpando o tatame
Lombar

No palco
Na cena
No jardim

Mesmo que eu viva cem anos, um instante

Cotidiano. O que não é?

Criar luzes
Vagalumes
Na deslumbrante treva me alumiam

Palco de teatro nô a céu aberto
Terra batida
Carregar terra
Molhar terra

Criar os filhos
Criar história
Contar histórias
Criar corpos

in: http://oolhodahistoria.org/n14/artigos/ana.pdf pg 9

sábado, 1 de agosto de 2015

cinzas e porcelana

extremidades tremulam
calamidades lamentam
eterno sopro do não-existir

elidindo os compassos
emoldurando as medidas
adornando os cadafalsos

estela aponta pro céu
e diz ser vênus e é
por isso que andamos, serelepes

borboletas fazem volteios
como espetáculos do absurdo
e espéculos do improvável

primas, a primeira
longo cabelo, abandonada,
o segundo, cabelo curto impávido

somos o cinzeiro de porcelana caído ao chão e quebrado,
cinzas, e tudo, e porcelana

exatos os pedaços de um mundo