sexta-feira, 31 de julho de 2015

e anda

não-sei-quem
retira uma e outra carta de um velho
baralho de tarô já surrado
e as espalha pela mesa cinzenta

sistematicamente, as farsas
em desalinho meticuloso e

o velho é cego.

um jogo de pega-varetas,
espalhadas as cores, claro,
e ao tocar uma outra se move e tudo
explode, fios de bomba.

as varetas são imaginárias.
as bombas são imaginárias.
as dores são imaginárias.

caminhos de rotas fechadas por muros,
por tantos percorridos, ainda assim
labirintos são.
e poucos o sabem.

coleções de letras se juntam
em palavras e conjugadas formam
sentenças como células esqueleto corpo
etc e tal
e matam e morrem.

é simples, não é,
nada.

agradeçamos aos ídolos pela oportunidade ímpar
de render homenagens e oferendas:
todas essas coisas que mantenham os pés a andar.
e anda, anda, anda, anda muito, anda pra sempre,
anda.

Trafalgar

abriu não um, mas dois,
arcos de íris no céu, que estava azul,
e um pouco nublado, mas pouco, e era
um dia qualquer, no qual eu dirigia
e isso também se conecta:

os elos de colares de calêndulas
feitas de papel,
é frágil, inteiramente, também doce,
me faz pensar em diabetes,

façamos esquetes!
meios para fins, preencher os espaços
vazios dessa manta velha e cheia de furos,
manta de vinte e sete anos.

trágico vai ser a manta descorada
aos setenta e sete anos, alguém
faz questão de dizer, e fazer
questão de dizer é também uma piada,
graças!, não faz ninguém nem esboçar
um sorriso.

seu diastema é um charme.
seu ceceio, um delírio.
seu toque, um dilúvio.

água preenchendo todos
os espaços
vazios, cavalos marinhos falam tanto
(pelos cotovelos que não têm)
de poesia

e escutamos atentos, os elos,
os links, a cola de sapateiro,
fiquei descalço no meio da rua,
solado de mim em carne viva,
solando, notas altas, notas baixas,

um muro feito de caixas
vazias, furadas,
não me protege, fica
essa longa coleção de desencontros entregue

à sorte, consorte, de encontrar,
aliás, tentar,
e perder.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

que bom

o sentimento que me sente
e o sentido é um teste.

o objetivo: engodo-farsa,
pantomima, fantasia de plumas,

quantos pavões
precisaríamos matar
para um bom show?

o ator no palco
grita, sem modos, com a platéia:
"vocês já estão se divertindo?"

não, que é tudo muito boring,
and the music is boring me to death,
sem cores, sem crianças, ando

pela casa

arrasto
grilhões.

pela janela
árvores que crescem, alto e avante,
riem:

que bom que elas estão se divertindo

terça-feira, 14 de julho de 2015

minha, meu, meus

deixe
sua mão longe
de minha barba,
que eu não quero

que eu não posso
ter
vontade

de tocar sua barba, desvie
seu olhar de meu
olhar, que eu não
quero
posso ter
vontade

de olhar o seu olhar, sua voz
distante de meu
ouvido
que é em par
então vou ficar calado,

mas dentro assim calado estarei
pedindo
implorando
que sua voz fique bem distante
dos meus
ouvidos

que não
quero posso ter vontade
de sua voz dos meus ouvidos
de que seja sua voz
secreta
no fundo de meus ouvidos
que fure meus tímpanos
sua voz
em
meus
ouvidos

segunda-feira, 13 de julho de 2015