terça-feira, 16 de junho de 2015

sem título, sem título

bon iver tocando
peças à vontade
vontade de peças
óleo vazando
sinapses ruidosas
ritmo dissoluto
sístole e diástole
revoada de gafanhotos
bandeira fincada no topo
solitária e tola
eu assisto.
grey's anatomy.
e me desidrato.

sábado, 13 de junho de 2015

não

coração bomba
coração belo
coração bigorna
coração santo antônio

tentações tentativas
laceradas
descem o escorregador

com deus não se brinca,
e ele ficava sozinho no canto

elliot smith morreu
nick drake morreu
jeff buckley morreu
e eu não poderia jamais estar me sentindo bem

eu prefiro não
eu definitivamente prefiro não

quando um idioma se intromete
não há muito o que fazer
exceto deixar ele abrir caminho

nesse caso, sim
nesse caso, definitivamente sim

não fale do computador
não mencione os dedos
esqueça a cabeça
coração bomba tic tac

eu não sei nada,
pessoa não sabia,
plath não sabia,
hilst também não sabia,
e ginsberg não sabia

eu não vou escalar a montanha
a boa vista não compensa
esse não é meu monte roraima
essa não é uma novela das nove da globo
os abutres sequer vão encontrar meu corpo
serei tão anônimo que jamais voarei
nem na barriga de outros

abra sua boca
e tente me digerir meu corpo
parte de mim será de você
parte de mim vai pelo esgoto

quando os canos tiverem entupido
tudo vai vazar e inundar a cozinha
e os livros também ficarão molhados
porque foram deixados no chão
alguém esqueceu os livros no chão
o lugar dos livros é no chão

coração bigorna
fale alguma coisa
coração não tem boca
bigorna não tem boca
não fale nada então

consulte os registros
veja de onde você pode retomar
qual a ligação que pode ser feita

telefone não toca
motor não pega
impulso não flui

luz acesa/luz apagada
todos os corpos que já entraram em mim
e também os que jamais entraram
mas que de alguma forma entraram
são muitas as formas
poucos os encaixes

um toque na face
um pouco de simpatia
uma palavra doce
uma explosão
uma garrafa quebrada

a guerra foi tão grande
ceifou tantas vidas

banalidade é uma palavra banal aqui
quando se passa tanto tempo
dizendo a mesma coisa
ou quando não se diz mais
com o peso do que se deveria ter
ou seja, com o peso da bigorna,
o coração flutua, o vento leva,
o coração já é só fina poeira

alguém falou alguma coisa
e não fez diferença

não fale disso
não fale daquilo
não mencione os pés gelados
não mencione a escalada que você começou
e nunca terminou
ninguém está interessado em seus fracassos
ninguém está interessado em você

e se você procura
com força o suficiente
você encontra

não.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

not making much sense
Or
too tired to think
Or
comendo um sandu vencido
Or
viciado em grey's anatomy
Or
too much caffeine in your blood stream

quarta-feira, 10 de junho de 2015

você sol

persigo-te pelas vias
labirinto
não-você
teu avesso
casca oca

a carne tem fome
seu véu escorre

derretendo-se
bem aos poucos
caudalosa, mas delicada
desforme e etérea

desforra!
sessenta segundos
de brindes tontejantes

tanajuras
voam enquanto teu não-amor
me surra, escrevente

dos caminhos, um jardim:
em seu centro
prêmio recôndito
exceto que,

fita de moebius, voilá:
fora, estou novamente aqui.

oca casca
não-eu
osso osso osseva torso
larva larva ojesed lava
algo houve, voou

asas de cera as minhas, e você sol
(atenta-te, luís catorze)
(você rainha, luíz catorze nadinha)

você sol
você sol
você sol
você tão quente e sol

testemunha

mão suja de barro
do fazer das horas
amareladas

e sopro
o vidro
pra dar forma
com fome

enfio minhas mãos
num foguete com
fogos de artifício
depois de cortá-las fora

não,
não,
não não não,
não me pergunte como o fiz

só lhe conto que o fiz
pois você sabe guardar segredos

bitches

carência is a bitch
inconstância is a bitch
desejo is a bitch
suspense is a bitch
e suspenso suspiro sustenido
singro sibilante
socorro silente

cigarro is a bitch
café is a bitch
cerveja is a bitch
maconha is a fucking bitch
e tudo que se pode contar
se escapa por entre
um longo percurso descaminho
de ossadas e travessuras

sucesso is a bitch
fracasso is a bitch
plantio is a bitch
colheita is a bitch

all in all
afterall
gotta
fuck and
love ur bitches

sábado, 6 de junho de 2015

sucessão

caranguejos me rodeiam
estou centralizado
borrões de tinta vermelha

cai uma chuva
de vagalumes
e fito o móbile floral

certamente há o desencontro
de cada palavra
que sulca a terra
e mente ao chão

metade de um rosto
se combina com a de outro
encaixes são mágicos
são tônicos
são simétricos

suspensos por cordas
em seus vestidos
flutuam

pintar a pele
com novos bordados

quarta-feira, 3 de junho de 2015

mas você

luz acende/luz apaga
faço com o dedo o contorno da sua tatuagem
cores na tua pele
mordisco com a unha para te corar

e tu sobe e desce em mim
derretendo

sinto os pelos de sua barriga
perto de meu queixo

sinto todo o entardecer
que vejo da janela
que não me faz arder, mas você

metade de meu corpo

metade de meu corpo
enterrado
na areia da praia
enquanto olho placidamente a linha do horizonte

o sol incomoda
que não me digam agora que ele é vida
que não me digam coisa alguma

quando vem a onda
eu quase afogo
eu prendo o ar
eu grito dentro de mim

meu cabelo, algas
algas nos meus

quem foi que decidiu
que era uma cena bonita
que eu ficasse ali
com metade do corpo
enterrado na areia
da praia?

o que se faz pela beleza...
o que não se faz.

terça-feira, 2 de junho de 2015

rimbaud

"je est un autre"

territórios

olhe para mim
fixamente
enquanto movo meu braço

se posso
te hipnotizar tal qual
mexer de flauta,
você serpente

de repente
eu então recolho-me
semente
virá o tempo e floro

seu olhar em mim
fótons que jorro

como
um grão pipoca:
tronco, galhos, raízes.

a fronteira
linha imaginária que ninguém toca
separa meu corpo do teu

escavaremos, deixaremos correr água,
inventaremos um rio.

e longe saberão onde
o teu tu começa e
o meu eu finda

minha voz o suor

você está mais
perto do que eu gostaria que estivesse, e quer
estar ainda mais,

e eu me perco,
olho minhas pegadas,
sigo rastros de outras pessoas,

você parece estar
ou de fato está
sempre com a mão estendida, e eu
desviando
corpo e olhar, você

cabelo, barba, fala,
máquina-pessoa, verbo-anseio,
e eu

prefiro que
por ora, agora, seja
minha voz o suor

segunda-feira, 1 de junho de 2015

fazer sumir


uma formiga caminha e carrega
folha seca em suas costas, eu não vou

te perguntar sobre ela, te
dirigir mais o olhar, e se aos poucos
você sumir como as letras
daqueles papéis
que saem dos caixas eletrônicos
eu vou enfim sorrir, ela escreveu


exatamente pela metade,
só que ninguém percebeu
ela escrevendo na terra,
graveto na mão,
encurvada ela parecia uma moita, estava

escuro

e ela passou a mão
na terra depois que deixou suas marcas
que ainda fossem no código
da língua da língua aquela
que só sabem os querentes, ainda que,
ela preferiu
fazer
sumir, espalhando terra, pensou,

quão fácil é fazer sumir assim.
se fazer sumir fosse tão sempre fácil assim.