domingo, 31 de maio de 2015

e que queimemos sempre como tu

tronco de madeira (um)
no meio de clareira
começou

e sem dar explicação
a pegar fogo

a chama iluminou nossas faces,
estávamos em volta, fizemos caretas
e teatro de sombras

objeto opaco frente à luz:
magia

tronco de madeira (um)
no meio de clareira
pegando fogo
começa a se mover, serpente

boitatá
abençoa nosso temor
e que queimemos sempre
e sempre serpente chamas como tu

quinta-feira, 28 de maio de 2015

língua presa

i
enrodeio-me,
dou voltas em torno do
mesmo-mim,

que sequer mesmo,
que sequer mim,

que por vezes se quer,
que mais vezes qual quer,

ii
em roda
meus requerimentos por escrito,
e códigos de lei
que não as compreendo

iii
e me comprimo para caber
e, ainda assim, devasso,
esparramo espasmos
circularmente expoente

iv
cálculo preso
que sai rasgando

um uivo

tão somente tu é real,
dama eterna.

e teu toque tão somente
dores causa.

cousas que se dizem
pela televisão

& dizem as pessoas
por aí afora

não fazem diferença,
nem a menor,

quando estás aqui:
estou só

terça-feira, 26 de maio de 2015

as gentes que

i
as gentes
que correm pra achar os ecos
e tropeçam nas cordas estendidas
feitas das roupas velhas que teimamos
em não queimar, fazer

fogueira, bem, seria,
bem, melhor, bem,

se olha nas chamas
busca ver o próprio reflexo
busca ver o reflexo do outro e o seu reflexo
mas não vê nada

se olha nas chamas e vê
passado, futuro, irmãs, mães,
ou inventa que vê, que dá no mesmo.


ii
tentando
descobrir
o que beber
pra ajudar,

as vestes
de antes de antes de bem antes de ontem
não cabem mais, não adianta


iii
as gentes que
correm pra achar os toques
e derrapam no chão molhado
de sangue de lutas dos tempos todos, as lanças
não são de brinquedo, os laços prendem forte:

e fica no fundo da boca
o velho gosto de morte,


iv
as
gentes que só
querem carinho e sorte,
só, que querem nem que seja rebote,

caminham ao altar com porte,
encontram, um dia, um malote:
desvio nos caminhos, pinote:
é sempre perder de capote


v
...
vem, me dê a mão,
não, eu não dou não

domingo, 24 de maio de 2015

sister, sister

si
nceridades, a menina, idades,
amenidades,
percursos, recursos, e o escuro de tudo

na noite preta
em que a lua, só on
tem mais nada

escapada
& perseguições, multi
plicidades, dões,
que não cantam tons nenh
uns mesmos, cada um

tem um,
nenh
um, mal qualquer, mal nenhum,

não sou tida
não me cante
esparrame sua mão em cor
po, pos, pós
sibilidades

(a serpente
no jardim?
amiga-irmã)

Te-ato

"Te ato" - "nome com múltiplas significações que vão desde 'te uno a mim' até 'te obrigo a unir-se a mim.'"

fonte: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/90609/248788.pdf?sequence=1&isAllowed=y
pg 107-108

referência:
pg 203 SILVA, Armando Sérgio. "A Viagem em Busca do 'Te-ato'". In: Oficina: do teatro ao te-ato. São Paulo: Perspectiva, 1981

prova da dor

"Faço a prova da dor como um médico que pinça o músculo para saber se está anestesiado. Eu pinço a minha memória. Talvez a dor morra antes da nossa própria morte. Faço a prova da dor e recordo as despedidas, uma diferente da outra. Às vezes, erguíamos a mão. Às vezes, nos abraçávamos."

trecho da peça Kassandra in process do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz
in: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/90609/248788.pdf?sequence=1&isAllowed=y
pg 72

quarta-feira, 20 de maio de 2015

meus pulmões não gostam de água

meus pulmões não gostam de água
meus pulmões
não gostam
de água
e ainda assim
empurro minha cabeça lago adentro

des languages latins

polissemia insuportável
me treme a mente
como poder ser peixe
se tenho mama?

lago adentro, lagoa,
quero lavar meus pulmões
tirar deles seu cheiro
e o resto de pó

não só, quero

entranhar novos meios, mundos,
veios,
e, perdida no afogar,
recantos, canções novas

que eu mesma farei para mim
para nadar profundamente
abissalmente
tocar o fundo de areia
e o fundo de carne viva, mente

a, sem afago, afogar

segunda-feira, 18 de maio de 2015

afinal, temos a arte porque

"Afinal, temos a arte porque o ser humano sempre busca novas formas para sua existência. E, por isso, com frequência, a defesa da arte em si já é um ato político. Pois o ser humano tem que ter o direito de expressar as suas experiências."

in: http://www.revistas.ufg.br/index.php/artce/article/view/34765/18311
pág 13

quinta-feira, 7 de maio de 2015

mas...

aí eu falei pra ela de esfinges
de maremotos
de cortes e reis encantados
de discos voadores
de valentino quijano
de robson correa de camargo
da praça cívica
da torre eiffel
da grande muralha da china
da grande montanha misteriosa
de gnomos
de feijoada
de allan d'arcangelo
de giacomo carmagnola
de judy chicago
de yeats
de smiths
de yvone jacquette
de there's a light that never goes out
do céu do céu
mas
a lucy nada

sábado, 2 de maio de 2015

como os dados

não
caia
jamais jamais
no truísmo

evite, por terra, por ar,
por sempre,
as estátuas

as gregas
as assírias
prefira o que vier
de yorubá

o substante
torne-se adverbante
ou adjetive, que seja,

contanto que tensione.


ciclos

se eu estiver
deitado na cama
e estiveres comigo
saberei

que não estarei
em parte alguma
senão parte minha que ontem,
ida,

o caminho é só de ida,

ida, o corpo
antes instrumento
antes calabouço
fulgurante gema secreta
gemente barcarola sem vela

procede

e cinzas serei, e tomarei
a superfície do rio, de lagos,
e, por fim, comungada à maré:
espuma