quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

as peças descabidas

sem cantiga de ninar,
sem boa noite,

a máscara da máscara,
uma, pintada em laca,
outra, com lantejoulas,
muito gelo seco no palco
com água, que não acabe
o show.

o estado islâmico,
a pm brasileira,
os pedidos de impeachment,
o boko haram,
os estados unidos,
mais um aumento da tarifa
do transporte coletivo.

o baile está tomado
querem ver você dançar,

do outro lado do mundo, você mora,
e sua casa tem baratas, e você estava de vestido,
você pegou
outro rapaz a noite inteirinha
e eu também me ocupei um pouco, que não sou tonta,

eu moro tão longe da praia,
é longe demais da praia,
nem posso catar conchinhas, mas

posso catar coquinho
em casa, queria lírios, queria
ser alguém, mas
não é não, repetem,
você não.

não sei se repetem dentro,
não sei se repetem fora,
não sei que voz é essa
que a cada noite
antes de dormir
se repete
me faz contar fracassos
e não ovelhas.

eu ainda como carne,
hoje está chovendo,
aqui estou falhando,
amanhã, às dez da manhã,
falho de novo.

me tomo pelo que sou com
o entortar da boca,
e nove em dez filmes me fazem chorar.

só que não estou vivo,
quem está vivo?, marchinha,

marcharão sobre nós.
nós,
as peças descabidas, as rebeldias vívidas,

escarradas, desencontradas das mães,
perdidas nos corredores
do grande supermercado-mundo, e de repente,
te colocam na prateleira
- inevitável, dizem -
e não dá pra respirar.

transborda!
faz bordados,
novos arranjos, quiçá rudes,
quiçá delicados,

novos arcanjos
no pálido céu,

e suas asas coloridas são faróis,
e são tantas as cores quanto de diverso se intui,
e são estandartes, bandeiras, fantasias, sonhos,
mais reais, e seremos nós a redesenhar esses versos.
esses outros versos dos outros tão sérios.

Nenhum comentário: