quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

o rei está morto, vida longa ao rei

não tenho muitas questões, por ora, já as acumulei numa grande caixa, pedacinhos de papel, minúsculos, a água borrou boa parte, mas ainda é resquício de lembrança, e resquício de lembrança também é lembrança. gostaria de dizer que estou sempre com o forno pronto, colocando novos tijolos, e depois com eles feitos, montando os pequenos muros, e talvez seja verdade mesmo. pequenos a ponto de que vejo o que tem fora, mas se subir em cima não vejo muito longe. pequenos a ponto de que, pequenos, mas ainda muros, geralmente alguém fica do lado de fora. pequenos a ponto de que muitas vezes eu tropeço neles ao tentar sair, por esquecer, por não ver. igual quando estourei meu mindinho esse ano. meu cabelo, grandinho, de um tamanho que não esteve há muitos anos. as vontades. cabelo azul, tatuagem, nada disso. as dúvidas. eu tenho sim algumas questões, por ora, é só investigar um pouquinho, lupa na mão e olhar reentrâncias, olaaaar. estava tudo mais ou menos bem. no geral, acho que foi tudo mais ou menos bem. não posso negar os belos momentos. eu não queria reclamar de novo. tudo bem. tanta gente linda, tantos momentos. viva o que acaba, viva o que se inicia.

barbra jean disse

oh, como eu queria meu ben, e moraríamos no kentucky, e eu teria josh, nosso filho louro e estúpido

soirée

louise bourgeois se coloca a frente para batalha

domingo, 27 de dezembro de 2015

domingo, 20 de dezembro de 2015

me te digo

se me te quero
aos pedaços
se me te moldo
em descompasso
se me te fito
com fingida ternura
e nostalgia-tortura, as mãos grandes enormes tentam
se fechar em torno de minhas gargantas

quantas faces tenho tomo se te me dou?
se te me vejo reflexo refletido no rio
e sem refletir muito, bem pouco, quase nada,
me arremesso e tenho pedras nos bolsos?

afundo

a fundo pode-se dizer, pode me dizer, pode
me te dizer que não são as cores do arco
íris, não são cores algumas que
farão dias melhores, são

fragmentos

se me te prendo em balões de gás
poderei dançar, tento na verdade, nas nuvens?
tanta a verdade que o copo, pequeno, deixa
deixa
deixa
deixa transbord
ar

ar, artigo de luxo, lembro me te das mãos enormes grandes
que apertam animalescas, mas me te digo
que de animal temos o melhor de nós, os

cheiros que podemos devassar, uns dos outros e
os ventos,
rastros que sigamos, caminhos ocultos, lagartixa
vazada pelas frestas

ametista brilhando toda a explosão do início dos tempos
seja minha amigairmãmãedeusa
me te digo

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

a hidra

é um mecanismo simples
que, preso à mão, faz com que ela
suba e desça
suba e desça
suba e desça
com fins alheios à própria
mão

é o terror dos manequins
que vestidos com tantos tecidos
sem sentir frio algum, algum, algum

é uma caixa metálica lotada
que de vez em quando para e segue
para e segue
para e segue
contornando obstáculos
e deixa no chão os binóculos
de qualquer garota que ousa sonhar
e ainda a faz pagar

é a lama, é a lama, é a lama

é um carro metralhado
e jovens pretos mortos
que só queriam lanchar
e celebrar
celebrar
celebrar, mortos, mortos,
irremediavelmente mortos

é um animal que pensa
que as filhas são suas
para delas dispor, e as
devora, devora,
devora

é o índio, sua marca na rua,
e não marca as almas,
queimado, queimado, queimado

quantas são as faces
do derradeiro, do limite
e dos suspiros
(que sufocam gritos)?

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

negativo de "a praia"

quando em redes
deitados em naus
solavancos são esperados, só que
ninguém nunca disse
do incêndio

sinos ressoam sinais

a maioria, a minoria,
a mesma laia

vô fazê um'oferta
que suncê, negá
num vai podê

é patente que o acidente
vem ad hoc
e esse reboque é só estoque
de um fox truque sem cabimento

a praia

coloque uma grande obra de arte
em posição fetal, coloque-a então
deitada em posição sensual, coloque-a
então deitada no momento final,

e se na terra reina o caos,
o je ne se quoi dos "maus",
no paraíso, o tédio,
a conta-gotas, sem remédio.

com algumas tintas nas digitais
faço carimbos e sonho
que deviro, sapateio, brotar fractais
porque das palavras não tiro ganho.

todo mundo já foi à praia.
isto é, das pessoas daqui. isto é,
dos leitores da veja, isto é,
de uma lista com um monte de artista,
isto é, nem todo mundo já foi à praia.

ei,
você,
vamos a la playa?

sábado, 21 de novembro de 2015

prazeres(?) iluminados

(feita de vento, de ar, feita de mar,
ausente qualquer
amor,
não, sua mão, sua barba, sua pretensa
ternura, não me consola de meu pavor, não te ponhas
acima de mim assim, coloca-te
ao meu nível e
doa comigo)

(furos-rasgos,
ausências-frestas,)
frutos-bagos,
(         -arestas)

festas, festas, festas,
festivais, na manhã estival
essa meia-luz confusa

(o
totem
descabe penas)

(uma mão
tenta segurar a outra
com a faca suja
de
sangue)

(seria/é
um abraço ou
se empurram?
,)
são/seriam
dois homens?
o que são os homens?
(suas sombras se fundem)
não se fundem todas as sombras?

(ele)
o que é um ele?
(esconde seu rosto ou
se afunda na sombra? e na sombra ele
encontra um buraco? uma
possibilidade?)
não há possibilidades, somente há

(risos confusos,
juba, laranja e azul,
nuvens perto no céu)

(um navio navega pela parede
que é outro céu)
quantos são os céus, céus!

lá no fundo azul, no fundo do azul,
no azul,
pode haver, e pela fresta, até se vê a rocha

no meio do caminho tinha

(é um pobre fantasma
e o homem cruel
quer botá-lo no canto
quer lhe mostrar onde fique)
ninguém sabe o que fazer dos mortos,
quanto mais dos vivos

(e em suas bicicletas os homens)
só podem ser homens... só podem!
(seguem prontos pra se chocar de frente
e com delicados ovos em suas cabeças
e suas barbas tão sérias)

os homens.
eles acreditam mesmo em seus ovos em suas cabeças

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

imagens

coleciono imagens
em uma pasta única que se chama, veja só!,
"imagens",
e tem uma caralhada de gigas

até me pego, não que me
encoste com a mão, ou que me agarre, mas sim,
seguindo, me pego
 - com a mão no queixo -
pensando
- ao menos metaforicamente com a mão no queixo -
pensando

imagens, imagina, se fosse
há uma caralhada de anos lá pros ontens?
ou anteontens,
numa gaveta, guardadas, uma
colando na outra, imagina, eu ia

precisar de envelopes, mais papéis,
árvores morrendo, etcetera etcetera,
mas se ontens, imagina, imagens,
ninguém tava nem aí pras árvores, no geral,
só os indígenas,

imagina!, quantas gavetas não precisaria?,
uma caralhada de gavetas, capaz
que nem ia ter espaço, não é mesmo
meu bom rapaz?, minha cara donzela,
minha querida pessoa não-binária,
que agora me escutam, vocês

fizeram também as suas imagens?

imaginem
a caralhada de dinheiros que eu teria que ter
pra ter
tantas imagens, pra ver tantas,

capaz, pessoa não-binária, donzela,
rapaz, que eu teria só uma, duas ou
três imagens, e não seriam

elas
tão ridiculamente
preciosas
aos meus olhos? eu formaria imagens com elas.
mais do que faço com as minhas
na grande pasta
com mais de um mil e oitocentas,

quantos detalhes eu não notaria?
traçaria histórias, temeria as traças,

au contraire, estou aqui,
e faço troças?, são?,
gozo, certamente gozo,
isso basta

dedo

se eles pudessem eles
entrariam
dentro de nós
e nos explodiriam por dentro, - e

eles não podem?
parece que os segredos
esparramam-se violentamente por
cada um de nossos dedos, seus

meus de todos de cada um
de ninguém, - seu dedo

te pertence, ele é só teu, - não

é não, minha mãe me disse
que meu dedo
é dela, que ela que fez, o que
faço eu disso? de mim? - de

si, para ti, não sei responder, de mim
nego, com ênfase, com fome, - parece

bonito, mas não mata
a fome
de ninguém, essas terras, elas são de quem? - deveriam

ser de todos, cada um, é
isso? - segredos, as

respostas são segredos, - fome,

a fome é eterna, sim, de quem - é

- seu

- dedo

- meu

- dedo

sábado, 14 de novembro de 2015

versinhos

diga-me uma palavra bonita,
de si,
sem que eu peça, mas se eu pergunte,
diga assim mesmo
um colorido seu
pra fazer do meu dia meu

"ninguém vai me dizer o que sentir"

"todo mundo cantando baixinho
strawberry fields forever"

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

passo, passo

passo, passo, passo,
agruras, nervuras, medidas,
a saia que cai, ao dançar pisa na barra
e a nudez é um quase, passo
por isso, por cada qual, um dia inteiro sem
um sorriso,
um estender de mão,
passo, passo, tropeço,
caio de joelhos, cadafalso, guilhotina,
a revolução certamente me deixaria sem cabeça, o mundo
de tudo que é torto e trato desfeito, passo,
sigo,
sing, I sing,
chi que se esvai pelo sumidouro, chuva transbordando bueiro,
um passo, dois passos, três passos, mais alguns passos,
há de alcançar, eles dizem,
eles dizem, eu me digo, digo, não nego, quando digo
diogo não digo diego, não chamo nada pelo nome
certo, é elaine ou eliane?
tento,
não passo,
e passo:
não é minha vez,
passo rápido e chuto
o mindinho no portal e ele fica roxo por dias e
verde também e não sei prever quanto tempo vai
durar a dor que não passa sou
o mindinho
do pé
direito
agora torto

domingo, 1 de novembro de 2015

true love will find you in the end

tudo começou no escuro
e palavras que seriam encontro não se
completam
[pombos-correios que enviados, dominando os céus,
de repente, transformam-se em chuva de penas
e ninguém
sabe explicar bem o porquê], mas

buscamos luzes em uma loja de velas,
buscamos
luzes ao abrir buracos para abrir
janelas

eu quero nadar, eu quero
sentir que minha pele está úmida, eu
quero espantar a secura que
os dias teimam em oferecer, escapar,
eu quero

você,

você, estou com plásticos bolhas,
estourando, a mim, às bolhas, fazer barulho
é um jeito de ser menos só, a
música passa
mais rápido do que gostaríamos e sonho
que você
a ouve também,

[você, te procuro nas ruas,
em livros,
sem jamais saber se

descaminhos os nossos se tornam
tangentes
as gentes
são tantas ao redor que tenho medo e
de elevadores, e de viver, e meu melhor amigo se chama
rivotril]

a vela não precisou ir até o fim de seu
pavio

[ninguém me viu]

do buraco que abri, te vi e segui

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

dizendo nunca

apenax
dirlizano
no óleo que esparramaram pelo
chão da sala
buscando equilíbrio de luxo, montando
esquemetes de sucata, lataria, espuma,
desviando das flechas que vão lançando os
pobres haters, com suas certezas em queda,
e indo eu indo eu indo
dizendo sim, dizendo não, dizendo talvez,
dizendo nunca

terça-feira, 27 de outubro de 2015

o rapaz

o rapaz
sempre a dois passos
ou trezentos

o rapaz e seus dois
milhões de impasses e
pinotes

pata presa, pata quebrada,
alguém doe com amor
um tiro de misericórdia
ou prepare uma corda firme

o rapaz não ri com relinchos
e não sabe fazer curvas
o rapaz

ele não sabe fazer uso das rugas
e a rasgos se prende demasiado,
extasiado, confunde

o muito, o pouco, a coisa alguma
e as todas as coisas,
os começos e os finais, o rapaz


sábado, 10 de outubro de 2015

benditos

povo de alba, povo de roma,
dois heróis designados

quão breve saberemos
qual poderá ser seu fado, enlace?
suspense

o herói vencedor torna-se
vilão proscrito
como já vimos acontecer tanto
com presidentes, pais, autores

podemos perguntar ao mármore
o que ele desejaria ser?

a carne vai ser despedaçada
por cães famintos, e veremos
o espetáculo comendo pipoca

os muitos, os poucos, os vários,
entregam o louro, preparam o machado

o sangue que manchou a espada duas vezes
o sangue que vai manchar o solo
todos os sangues se parecem e
nenhum bendito sangue é exatamente o mesmo

benditos
benditos sejam os heróis que são vilões
que são heróis que são vilões
que são heróis

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

a dobra

na peruana 
na foto roubada 
na doação de cerveja 
no beijo anunciado 
pros não acontecidos! e pros nunca repletos, nunca 
serenos, alguns já passaram por 
pavores nesse mar e pavões 
guardam os portões mas jamais 
deixaremos que a concretização tome forma

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

do nada, cai a luz

leopardo, lontra, dromedário,
onça

eram irmãos, eram
amantes, eram sombras,
eram
crianças, gêmeos, o
que eram?

belo inverno que se fez
aqui dentro dessa garrafa, como
que olhando tudo pelo oitro lado

laças o animal de ti que rosna
para que o ateies contra a multidão
e se torne por fim
senhor de si, e mais ninguém
que diga o que disser e o que quiser
que nada há de mudar

sintomas, sistemas, de volta
à casa, saturno, ametista, brocal
dourado, algo como amarelo
prateado, areia do tempo, peixe
fatiado, me
dê um rio que respire

é do laço
que surgem as
coisas
e as oitras

ostras fundo del mar bem
lá embaixo, abissais, guardam
teu nome, engano,
segredo

tom sobre som não é
o que se quer dizer, mas
se diz
e não é

andrômedas, anêmonas,
cinema no escuro porque
assim, quase sempre
do nada, cai a luz

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

sagatiba, jaguatirica

sagatiba, jaguatirica, sistema 

o presente se faz presente como
uma potente dor de cabeça repleta
de memoriar o louco ontem, um
brinde a mais um porre homérico

repleta esparramada viva na selva
com meu nicho, bando & poder, sou
uma fêmea voltáica

tudo remete ao que se repete
e há uma lógica analógica
e nenhum segredo qualquer

é só mais uma forma de se de si fugir

ouvindo sempre

animal collective no som
e um tanto de bon iver

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

semanas, meses

no teto
um lustre que será sempre o mesmo
a cada quadro

no teto ilustre
e nunca o mesmo mesmo
enquadrado

um dia o sol
vai rir com a lua
e peixes cantam no fundo do mar
eu vi! eu vi! eu vi!

domingo, 27 de setembro de 2015

fotografia de exposição múltipla de alicia alonso dançando balé

e cada fragmento de movimento
gera um contínuo pelo ar e pelos
impulsos elétricos dentro da sua
e da minha cabeça, enquanto miram

a fotografia e se deixam quietos
calados a pensar sobre o infinito e a
suspensão dos estados:

o mistério do dizer que diz que a bola
de bilhar ao bater na outra bola de bilhar
vai fazer com que a outra role e possa
se chocar contra a parede da mesa

mas quantas, eu me pergunto, quantas
são as paredes erguidas por esses cacos
para que deixem de fora os intrusos e vadios

da fome e do amar, que são irmãs, e dançam
fazendo rodopios eternos e coloridos
com suas faixas enroladas ao braço
e os segredos das sete cores do infinito

sábado, 26 de setembro de 2015

projeto da súmula f5

de frente ao espelho.
faz o diálogo de ele e o outro, do término.
um, tentando permanecer impassível, enquanto o outro chora.
alternar rapidamente entre um e outro.
um, xinga num determinado momento, xinga muito e raivosamente. o outro, mantem a calma e o controle, rígido.
[a continuar]

De porcelana branquíssima

calois, nike shox, cacos
deixados pra trás, memória
dama incerta da estrada deserta

adonai supremo das torrentas turvas
singra as passadas das enseadas
com seus sistemas piruetas
e órbitas tardias e cometas

as luzes que confundem vem
de muito longe e por isto
semper dizem passado

terremotos são os tremores
do terreno chamado pele
a que habitaste a ti e a mim
e que no toque fizeram

escaletas compõe, lunetas observam,
escalam os tons, lumes perseguem,
os climas e tensões, caverna funda,
os momentos e mistérios

os ecos de antes tubulam
e sonoram e catapulam
e glosam e matam e comem

reflete com suas penas o pintor
frente à tela tão branca tão tela
e hesita e respira fundo por um instante
e se joga ao fazer

o vaso
De porcelana branquíssima
se quebra

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

paredes sala 2010

_não sei.
_etc

nine out of ten movie stars make me cry

és barro,
és pó

ferro e fogo é para golens

bleed love, die love

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

colônia penal

instâncias julgadoras,
nada de muito sublime:
muito pelo contrário
um tanto quanto torpes

estações de ano
e de trem vão e vem
pelo ausente me sustenho
faço prelos e preliminares

olhares, paroles
do grande nada, balbúrdia
chamuscos salpicam a calçada

saltimbancos embotados
num cinzento triste e cansado
volteio pelo palco

um tanto quanto morna
essa minha
colônia penal

domingo, 6 de setembro de 2015

semanas passadas

tirésias, velha sábia, conhecia os jeitos do amor.
sinais nas plantações, sinais nas calçadas,
sinais em todos os cantos e redes de amor tecidas
pigmentos no céu de dias cinzentos e frios

nas minas de mim de minas
cavar sem parar, sem diamante pra achar

tudo que você toca
que te toca
até aquilo que nem provoca
vira espelho

ninguém pode te chamar de midas

minas minas minas
midas

vira, vira mesmo,
ou sempre foi?
à esquerda, á direita,
deixe um pouco pra depois.

semanas passadas nos chalés das montanhas
e se toupeiras fôssemos, abaixo das terras
também, ou ainda se anões, se isso fosse
fantasia medieval numa mesa de erre pê gê

gaivotas
também
voam ao contrário
de cabeça para baixo
será?

é a tensão que mantém as linhas presas, e a
torção que você aplicou nos lençóis enrolados
com certeza pode nos tirar daqui, isto é,
se guardas não nos pegarem pelo caminho afora

essa tempestade
parece
uma explosão constante

súmula a17

a ordem dos fatores
não altera o produto,
não diz verdade,
não desfaz feitiço,
não entrega maldade.

_dear mr. mackenzie?
_quem é?
_sou você.
_olá.
_olá.

cravo minhas garras tão fundo na pele. vou cavando como se fosse terra e encontro tanta coisa. mundos. raízes. formigas. pedrinhas. esse segredo qualquer de mim é como a fruta madura. ou o caralho que pulsa. de qualquer forma, digo assim, de final: filho da puta.

sinônimos não vão te bastar aqui, nunca devem te bastar, mas tenha-os a mão. use as relações como socorros de rumos. prefira o desconhecido. desfolhe as flores delicadamente, e mire bem nos ângulos e nas texturas. construa edifícios. sempre chute o balde.

se estivéssemos agora
uma com a outra
eu estaria dentro de você.


súmula b12

_sete mil e quatro, trezentos e quarenta e sete. pronto, está dividida, a parte minha e sua.

os inícios já foram tantos, de tantos modos, e eu percebo que algo no fundo pode significar um pedaço de uma ultra coisa, que remete a uma outra, e uma outra, e uma outra, sem fazer loop, mas querendo fazer loop,

_o espetáculo é um conto triste. duas russas, ruivas, que se odeiam desde a infância. mas fingem serem amigas.

_pfff! que falta de sororidade.

_pelo contrário, mulheres poderosíssimas que só calham de ser rivais.

as imagens nunca são a exata representação do acaso, e as que pedem ser certamente bêbadas estão. tombando pelas ruas de bogotá.

bodas que são enlaces que são torçuras que são prometos
sempre é algum início.

o que não se passa na frente da praia de um longo dia e de um longo amanhã, jangada ali ancorada, pele tostada, e alma por vezes vazia?

_ infelizmente todos acabamos com sangue nas mãos.
_ é catchup.
_ escolher uma fada de asa violeta ao invés de outra cor diz muitas coisas sobre você.
_ diz?
_ diz, a primeira é que se você tiver que escolher a cor de asas de uma fada, você escolhe violeta. provavelmente você gosta dessa cor,
nas asas
de uma fada.

rios de nada,
rios de gemada.

_ o retorno ao útero é uma teoria muito verdadeira.
_ concordo.

escreveram-se longas cartas com muitas palavras. devaneios. desvarios. sintomas. delírios, tremores e todo o cha cha cha. sim, compuseram boleros, sim. sim, certamente, falaram da lua. está bela a lua hoje também como sempre estava para eles, ainda que por vezes ignota. diziam que a lua era o sinal.

_quantos zeros cabem numa página?
_cada zero de um tamanho, muitos zeros, certamente.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

que o ódio devore em prazer

o animal
preso
no chão da cozinha
no pé da mesa
se prepara

sua cauda se contorce
seu veneno, pronto
ele está amarrado com corda de pano

nosso plano não sustenta um piano
e essa
é a nota
mais alta que alcanço

sucessos são como arremessos
modos, arremedos
e todos estão trêmulos de iminente perigo e mortal

devorá-los, é o que quero
fazer
deles que não eles mesmos

suas vestes, retalhos de pano
coloridos voando ao alto e
depois espalhados pelo chão

seus corpos com hematomas
de mordidas de pancadas
tomados inteiros pela tempestade e nus

a mercê da dama e do cavaleiro
a se confundir, todos canibais

eis

eis o que pensa o animal
que faz e que fará, quando de fato
ele se enrola e tenta dormir

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

um aviso

um aviso
de quatro minutos
que explicasse minuciosamente
& convulsivamente
o motivo da existência de tudo tal qual é,
a existência e etc., esse aviso
explicativo, e só você ouvisse.

e consequentemente, todos depois
não achando que você fazia
o menor cabível ou aceitável
sentido

e logo te trancariam numa jaula,
sim, te trancariam numa jaula,
pois a incompreensão teria chegado
ao intolerável, veja só

e
tudo culpa
do estúpido aviso
pelo qual nem sequer pediste

opalas

7 -
é completamente errado
impróprio
ou ousado
uma garota querer ter seu próprio pau?

12 -
dos sussurros de noites
que amanhecem
mas que já foram noites, e portanto sabem

13 -
a borboleta sempre inventa
um jeito novo, mas parecido,
de pousar na flor mirada

9 -
a chama consome cigarro,
consome paixão, consome lenha,
também vai consumir você

XVI -
uma maldita letra "cê"
que não é sua, não é você,
se intromete no meio das coisas

16 -
fica voltando, insidiosa,
feito erva daninha

99 -
chapeuzinho caminhou
longo caminho sem saber
que encontraria um lobo

97-
os desacontecimentos, as desatenções,
o incêndio que se começou foi sem
saber por onde, por quem, porquanto

12 -
sigamos enquanto as canções ainda
ressoam e fazem as carreatas e cortejos
irem como uma explosiva pimenta vermelha
na frigideira, dinamites e diamantes

37 -
a matéria
deste ensopado é das
densas, a matéria deste
ensopado é
das que nutrem, a
matéria
deste ensopado é
das verdadeiras.

8 -
tudo borbulhou.
big bang:
o primeiro fogo de artifício.

90 -
_ Seu sucesso não será minha queda,
Juliette!, e te prometo isto! Jamais
de teu nome farei parêntese tão
somente seiva das mais verdes.

88 -
Os espaços vazios entre
cada uma das coisas e elas também
ultimamente no fundo vazias
eram o componente fundamental
do dizer
o que era eu, o que era você,
a nunca conjunção,
sempre, a, vírgula, no, meio,

41 -
sonetos dos mais repletos
dos olhareis mais solares e
das quedas homéricas e
cicatrizes desenhando o
torso

55 - 
eu desenhei no seu dedo
com tinta invisível
um anel de casal.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

fogos de artifício

só uma amêndoa:
tudo e todos,
tu e eu

à medida que
os fogos de artifício
explodiam sua

luz você me desenhava
a mim em corpo
nu e desgovernado

todas as imagens também,
 e sons, e sensações,
 não como negativos mas

pulsante você entra em mim
eu de costas
não sei mais meu

espaço tempo bobagens
essas, entupidx de ti, e tudo
a me rodear eternx

portanto, circular, você
em mim faz tudo
acontecer e desacontecer ao mesmo tempo

e fogos de artifício
à medida que
e sempre
é uma coisa um tanto quanto curiosa as conexões que estabelecemos. entre pessoas, entre coisas. essa algo magia que faz com que possamos sentir, de alguma forma, empatia. e compaixão. e compartilhar então a dor, ou a alegria, de outra pessoa, de uma pessoa com a qual nos conectamos. ou como quando alguém ao nosso lado está com raiva isso pode nos afetar. não, não somos bolhas. e assistir sense 8 dá essa sensação de uma forma aguçada. faz pensar também nos mundos das possibilidades e das criatividades, e das histórias e personagens que envolvem nossas vidas. e, relaciono coisas, vi recentemente uma tirinha que tratava das distopias mais famosas de orwell e huxley, ou alguns diriam "previsões". e em huxley tem o soma, né? que atordoa, é isso? não lembro tão bem. e é essa dualidade da arte, ou do entretenimento. quer dizer, não sei se o entretenimento tem essa capacidade de mobilizar mudanças na vida. mudanças profundas, superficiais. mas me fez pensar no quanto acabamos sendo egocentrados, e acomodados, e viciados em prazer, né? como diz a tirinha. e que ficamos nessa, e não mudamos o mundo. opa, tá, que eu fico nessa. a mania de que minhas reflexões mais gerais caiam no âmbito pessoal... o que eu queria dizer, uma das coisas que queria dizer, é que essas conexões são lindas, e também é o amor, mas que sinto tudo menos. não sei se é pelos medicamentos que tomo para tratar do transtorno bipolar, não sei se é pelo trauma do surto psicótico que já vivi e que isso me fez de alguma forma me colocar na minha bolha. já foi tudo diferente. talvez seja só envelhecer. minha intenção aqui é de alguma forma me relembrar, e fazer uma ode a essas conexões, especialmente às conexões entre pessoas. mas também me sentir grato por estabelecer conexões entre coisas. e por sentir sede, e viver experiências. e sentir fome. e sono. e vontade de trepar. e raiva também. e os percursos pra se lidar com cada uma dessas situações. e por sentir amor. novas conexões são revolucionárias, mas são humanas, e algo no humano é sempre revolucionário: o mundo das possibilidades.

sentir isso, pensar isso, viver isso que aqui tá escrito é algo angustiante, e algo dá vontade de gritar. talvez também porque a tevê na sala fala do jogo do flamengo com o vasco e minha mãe acabou de me perguntar se não quero almoçar.

essas coisas difusas, esses sentimentos, esses momentos, essas coisas. não dá vontade de largar delas. e são cada vez mais raras na minha vida, e isso é triste.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

o jogo

veja emília brincar
e o jogo muda
a cada
dezessete
segundos

agora era um vestido
agora era uma flor
agora era uma rã

agora era uma faca
agora era um cravo
agora era uma febre terçã

a tua presença
é branca verde vermelha azul e amarela
é negra

motocicletas
que se chocam no cruzamento na esquina
e a todo dia

brindes!, brindes!,
um brinco o casamento
na honra de descer até o chão

o escape do desengate
(que evita desgaste,
evita desgaste)

o fim de dias
jogados
tomando sol

sistemas, que eclipse,
que quasar, que meteoro,
que planeta, que nada

de encontro ao meu
o seu, o meu, nada
de encontro ao meu,

suspiros, equalizadores,
bem altos sins!,
desabalados senões,

o jogo há um tempo exige
que seja
a três

e o jogo diz que
sim e que não e que talvez
e que nada, tudo ao mesmo

tempo chama lava lodo
líbelulas lilases lamúrias
lentamente escorrendo pela tela

telúricos, eis tudo,
triangulando pelas beiras
e adorando as encruzilhadas

não é a quantidade de imagens,
e sim, a quantidade de cacos
esparramados pelo chão?

conluio, as coisas em segredo
com seus enredos e suas sortes,
trocam cartas ao luar

serenatas de amantes
e para o cansado mim degredo
de não caber a nada nomear

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

verde e amarelo

veja emília
a brincar pelo campo
verdejante, extenso, reluzente,
tal o olhar é profundo e longo

escapatórias e escapes
tremulam como bandeiras
em verde a tomar
ruas casas campinas

e no final longo e profundo
mas nada amargo, encontrarás
(presente) o também imenso
e também verde, mar oceano

triângulos, trapézios,
na, verde de novo, lousa,
e marcas de mão e nuvens,
o céu que também é verde

escurecidos os carvalhos
tocam uma canção cega
de deixar em pé

e amarela que tem
um gosto indefinido
e um som de oboé

domingo, 23 de agosto de 2015

a tua presença tinha que estar (aqui)

(e está, mas infelizmente não)

a tua presença tinha que estar (aqui).

espelho,
espelho teu,
que olho verá quando olha o meu.

você em marrakesh,
eu em bagdá.
não tão longe.
mas chão pelo caminho.

nosso dialeto secreto
é a areia do deserto,
a merda de camelo
e um peito aberto

pesadelo.
desdém não soa
bem vindo de ti, carinho,
shh!, shh!, shh!

teu espelho,
espelho,
meu o olha quando verá olho que

a tua presença tinha que estar (aqui).

(e está, mas infelizmente não)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

acontecimentos

pedra
que cai

que torce
buraco
que explode
savana
que desertifica
pergunta
que identifica
canção
que amortiza
dança
que exorciza
demônio
que planta
amazônia
que desertifica (também)

o movimento vai de um lado, começa, e então
para o outro, e segue, como se seguido por alguém
e por outro e por ele mesmo sendo seguido, gui-
chês de souvernis esmagados pela colisão
do automóvel

o sertão
vir a amar

a rachadura na parede
a atitude daquela guria
a bola de gude na outra
a estátua feita de tempo
e lava

declaro:
o
teu
beijo

e o desenlace só

e sempre, de volta às mesmas três músicas

david bowie, see emily play
pink floyd, see emily play
pink floyd, mother

macumênico

afrobático

dispepsia do músculo distal

trips do ego e blues

trips do ego e ausências

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

retrô doismilecatorze

os personagens morreram, alguns até mais de uma vez, a outra traiu o marido, vários deram risadas, histórias de amor existiram, no meio da sala uma semente na terra que não brotou, que já estou vencendo o ano que passou, que o menino foi empurrado da torre, e mais de uma vez, e depois voou, que conheceu um sorriso charmoso e um perfeito escrutínio de detalhes e personalidades, que viajou com dois irmãos que matavam monstros, que acompanhou ross & rachel, e penny & leonard, e viu fazerem produto de beleza dentro de uma prisão, e cantou que poderiam ser heróis, e desconfiou de cada saída, preferiu o caminho de ficar na horizontal, contudo foi à terapia religiosamente semanalmente analmente, e, unrelated, não pegou ninguém propriamente, quase não ouviu música, mas das poucas vezes rolou em várias massacre no som, fodeu o iphone, tentativa de trabalhar, momento bar rio, tentativa de brasília, abandonar tudo correndo e ficar (com trauma), algum tempo depois meu irmão se casou e foi bem bonito, as coisas vão acontecendo tudo segue tudo siga, teorias da narrativa porre que larguei, extraí uma pinta da perna, caminhei por um período curto, mas foi, e de mais de televisão, todo o mundo da publicidade e suas tretas, a história daquele que renegaria jesus se ele voltasse, umas pinturas malfadas algumas em estado alterado outras com um toque ímpar espalhadas por aí, o joguinho dos blocos de balinhas e docinhos, novas amizades tarifa e tal, praticamente todos os jogos da copa do mundo e meu pai abandonou a tv no 7x1, um pouco de momentos high especialmente no segundo semestre, o note que travou e não roda mais civ v, olhar meus pokémon de pkmn white (algm apagou wtf), um ano horrível e merda com vivências que também são meus justos pedaços, mas com um belo reveillon.

domingo, 16 de agosto de 2015

eu apenas

falava demais porque estava inseguro
batatas fritas sobre a mesa

grades na janela

derramou
cerveja,
carpinteiro do universo,

cada um escolhe um som

os encaixes são preciosos, são
voluntárias prisões

um braço
que encosta
em outro braço, uma perna,

um fio de cabelo que cai

desenhos desalinhos
tetris que se repete na cabeça

eu não
me recordo, eu apenas
me toco

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

(também) retirado do vídeo Ecos do Silêncio, “Roteiro da apresentação Lua Nova de Toshi Tanaka”

Ao escutar a escuridão
Pega o silêncio com a mão
Nesse momento
Olha a própria morte.

Quando a menina desperta a própria vida
E começa a andar
A velha atravessa dentro de seu corpo
Transformando os tempos em gota d’água.

A menina sopra.
A palavra falada retorna ao silêncio
E resgata a origem da força viva.
O corpo é transparente
Flutuando no ar
Como uma esfera de ressonância.


em: http://oolhodahistoria.org/n14/artigos/ana.pdf - pg 10

retirado do vídeo Ecos do Silêncio,

Cotidiano
Todo dia
Mesma hora
Mesmo tabi

O corpo varia
O clima varia
Ouvir o tempo interno

Abrir espaço
Dentro
Fora
Sem fronteira

Menina
Moça
Mulher

Minha menina

A menina que habita em mim
A arte mora na coluna
Na respiração
No espaço entre as vértebras
No ar entre os corpos

Estado de criação
Cortando cenoura
Medula
Limpando o tatame
Lombar

No palco
Na cena
No jardim

Mesmo que eu viva cem anos, um instante

Cotidiano. O que não é?

Criar luzes
Vagalumes
Na deslumbrante treva me alumiam

Palco de teatro nô a céu aberto
Terra batida
Carregar terra
Molhar terra

Criar os filhos
Criar história
Contar histórias
Criar corpos

in: http://oolhodahistoria.org/n14/artigos/ana.pdf pg 9

sábado, 1 de agosto de 2015

cinzas e porcelana

extremidades tremulam
calamidades lamentam
eterno sopro do não-existir

elidindo os compassos
emoldurando as medidas
adornando os cadafalsos

estela aponta pro céu
e diz ser vênus e é
por isso que andamos, serelepes

borboletas fazem volteios
como espetáculos do absurdo
e espéculos do improvável

primas, a primeira
longo cabelo, abandonada,
o segundo, cabelo curto impávido

somos o cinzeiro de porcelana caído ao chão e quebrado,
cinzas, e tudo, e porcelana

exatos os pedaços de um mundo

sexta-feira, 31 de julho de 2015

e anda

não-sei-quem
retira uma e outra carta de um velho
baralho de tarô já surrado
e as espalha pela mesa cinzenta

sistematicamente, as farsas
em desalinho meticuloso e

o velho é cego.

um jogo de pega-varetas,
espalhadas as cores, claro,
e ao tocar uma outra se move e tudo
explode, fios de bomba.

as varetas são imaginárias.
as bombas são imaginárias.
as dores são imaginárias.

caminhos de rotas fechadas por muros,
por tantos percorridos, ainda assim
labirintos são.
e poucos o sabem.

coleções de letras se juntam
em palavras e conjugadas formam
sentenças como células esqueleto corpo
etc e tal
e matam e morrem.

é simples, não é,
nada.

agradeçamos aos ídolos pela oportunidade ímpar
de render homenagens e oferendas:
todas essas coisas que mantenham os pés a andar.
e anda, anda, anda, anda muito, anda pra sempre,
anda.

Trafalgar

abriu não um, mas dois,
arcos de íris no céu, que estava azul,
e um pouco nublado, mas pouco, e era
um dia qualquer, no qual eu dirigia
e isso também se conecta:

os elos de colares de calêndulas
feitas de papel,
é frágil, inteiramente, também doce,
me faz pensar em diabetes,

façamos esquetes!
meios para fins, preencher os espaços
vazios dessa manta velha e cheia de furos,
manta de vinte e sete anos.

trágico vai ser a manta descorada
aos setenta e sete anos, alguém
faz questão de dizer, e fazer
questão de dizer é também uma piada,
graças!, não faz ninguém nem esboçar
um sorriso.

seu diastema é um charme.
seu ceceio, um delírio.
seu toque, um dilúvio.

água preenchendo todos
os espaços
vazios, cavalos marinhos falam tanto
(pelos cotovelos que não têm)
de poesia

e escutamos atentos, os elos,
os links, a cola de sapateiro,
fiquei descalço no meio da rua,
solado de mim em carne viva,
solando, notas altas, notas baixas,

um muro feito de caixas
vazias, furadas,
não me protege, fica
essa longa coleção de desencontros entregue

à sorte, consorte, de encontrar,
aliás, tentar,
e perder.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

que bom

o sentimento que me sente
e o sentido é um teste.

o objetivo: engodo-farsa,
pantomima, fantasia de plumas,

quantos pavões
precisaríamos matar
para um bom show?

o ator no palco
grita, sem modos, com a platéia:
"vocês já estão se divertindo?"

não, que é tudo muito boring,
and the music is boring me to death,
sem cores, sem crianças, ando

pela casa

arrasto
grilhões.

pela janela
árvores que crescem, alto e avante,
riem:

que bom que elas estão se divertindo

terça-feira, 14 de julho de 2015

minha, meu, meus

deixe
sua mão longe
de minha barba,
que eu não quero

que eu não posso
ter
vontade

de tocar sua barba, desvie
seu olhar de meu
olhar, que eu não
quero
posso ter
vontade

de olhar o seu olhar, sua voz
distante de meu
ouvido
que é em par
então vou ficar calado,

mas dentro assim calado estarei
pedindo
implorando
que sua voz fique bem distante
dos meus
ouvidos

que não
quero posso ter vontade
de sua voz dos meus ouvidos
de que seja sua voz
secreta
no fundo de meus ouvidos
que fure meus tímpanos
sua voz
em
meus
ouvidos

segunda-feira, 13 de julho de 2015

terça-feira, 16 de junho de 2015

sem título, sem título

bon iver tocando
peças à vontade
vontade de peças
óleo vazando
sinapses ruidosas
ritmo dissoluto
sístole e diástole
revoada de gafanhotos
bandeira fincada no topo
solitária e tola
eu assisto.
grey's anatomy.
e me desidrato.

sábado, 13 de junho de 2015

não

coração bomba
coração belo
coração bigorna
coração santo antônio

tentações tentativas
laceradas
descem o escorregador

com deus não se brinca,
e ele ficava sozinho no canto

elliot smith morreu
nick drake morreu
jeff buckley morreu
e eu não poderia jamais estar me sentindo bem

eu prefiro não
eu definitivamente prefiro não

quando um idioma se intromete
não há muito o que fazer
exceto deixar ele abrir caminho

nesse caso, sim
nesse caso, definitivamente sim

não fale do computador
não mencione os dedos
esqueça a cabeça
coração bomba tic tac

eu não sei nada,
pessoa não sabia,
plath não sabia,
hilst também não sabia,
e ginsberg não sabia

eu não vou escalar a montanha
a boa vista não compensa
esse não é meu monte roraima
essa não é uma novela das nove da globo
os abutres sequer vão encontrar meu corpo
serei tão anônimo que jamais voarei
nem na barriga de outros

abra sua boca
e tente me digerir meu corpo
parte de mim será de você
parte de mim vai pelo esgoto

quando os canos tiverem entupido
tudo vai vazar e inundar a cozinha
e os livros também ficarão molhados
porque foram deixados no chão
alguém esqueceu os livros no chão
o lugar dos livros é no chão

coração bigorna
fale alguma coisa
coração não tem boca
bigorna não tem boca
não fale nada então

consulte os registros
veja de onde você pode retomar
qual a ligação que pode ser feita

telefone não toca
motor não pega
impulso não flui

luz acesa/luz apagada
todos os corpos que já entraram em mim
e também os que jamais entraram
mas que de alguma forma entraram
são muitas as formas
poucos os encaixes

um toque na face
um pouco de simpatia
uma palavra doce
uma explosão
uma garrafa quebrada

a guerra foi tão grande
ceifou tantas vidas

banalidade é uma palavra banal aqui
quando se passa tanto tempo
dizendo a mesma coisa
ou quando não se diz mais
com o peso do que se deveria ter
ou seja, com o peso da bigorna,
o coração flutua, o vento leva,
o coração já é só fina poeira

alguém falou alguma coisa
e não fez diferença

não fale disso
não fale daquilo
não mencione os pés gelados
não mencione a escalada que você começou
e nunca terminou
ninguém está interessado em seus fracassos
ninguém está interessado em você

e se você procura
com força o suficiente
você encontra

não.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

not making much sense
Or
too tired to think
Or
comendo um sandu vencido
Or
viciado em grey's anatomy
Or
too much caffeine in your blood stream

quarta-feira, 10 de junho de 2015

você sol

persigo-te pelas vias
labirinto
não-você
teu avesso
casca oca

a carne tem fome
seu véu escorre

derretendo-se
bem aos poucos
caudalosa, mas delicada
desforme e etérea

desforra!
sessenta segundos
de brindes tontejantes

tanajuras
voam enquanto teu não-amor
me surra, escrevente

dos caminhos, um jardim:
em seu centro
prêmio recôndito
exceto que,

fita de moebius, voilá:
fora, estou novamente aqui.

oca casca
não-eu
osso osso osseva torso
larva larva ojesed lava
algo houve, voou

asas de cera as minhas, e você sol
(atenta-te, luís catorze)
(você rainha, luíz catorze nadinha)

você sol
você sol
você sol
você tão quente e sol

testemunha

mão suja de barro
do fazer das horas
amareladas

e sopro
o vidro
pra dar forma
com fome

enfio minhas mãos
num foguete com
fogos de artifício
depois de cortá-las fora

não,
não,
não não não,
não me pergunte como o fiz

só lhe conto que o fiz
pois você sabe guardar segredos

bitches

carência is a bitch
inconstância is a bitch
desejo is a bitch
suspense is a bitch
e suspenso suspiro sustenido
singro sibilante
socorro silente

cigarro is a bitch
café is a bitch
cerveja is a bitch
maconha is a fucking bitch
e tudo que se pode contar
se escapa por entre
um longo percurso descaminho
de ossadas e travessuras

sucesso is a bitch
fracasso is a bitch
plantio is a bitch
colheita is a bitch

all in all
afterall
gotta
fuck and
love ur bitches

sábado, 6 de junho de 2015

sucessão

caranguejos me rodeiam
estou centralizado
borrões de tinta vermelha

cai uma chuva
de vagalumes
e fito o móbile floral

certamente há o desencontro
de cada palavra
que sulca a terra
e mente ao chão

metade de um rosto
se combina com a de outro
encaixes são mágicos
são tônicos
são simétricos

suspensos por cordas
em seus vestidos
flutuam

pintar a pele
com novos bordados

quarta-feira, 3 de junho de 2015

mas você

luz acende/luz apaga
faço com o dedo o contorno da sua tatuagem
cores na tua pele
mordisco com a unha para te corar

e tu sobe e desce em mim
derretendo

sinto os pelos de sua barriga
perto de meu queixo

sinto todo o entardecer
que vejo da janela
que não me faz arder, mas você

metade de meu corpo

metade de meu corpo
enterrado
na areia da praia
enquanto olho placidamente a linha do horizonte

o sol incomoda
que não me digam agora que ele é vida
que não me digam coisa alguma

quando vem a onda
eu quase afogo
eu prendo o ar
eu grito dentro de mim

meu cabelo, algas
algas nos meus

quem foi que decidiu
que era uma cena bonita
que eu ficasse ali
com metade do corpo
enterrado na areia
da praia?

o que se faz pela beleza...
o que não se faz.

terça-feira, 2 de junho de 2015

rimbaud

"je est un autre"

territórios

olhe para mim
fixamente
enquanto movo meu braço

se posso
te hipnotizar tal qual
mexer de flauta,
você serpente

de repente
eu então recolho-me
semente
virá o tempo e floro

seu olhar em mim
fótons que jorro

como
um grão pipoca:
tronco, galhos, raízes.

a fronteira
linha imaginária que ninguém toca
separa meu corpo do teu

escavaremos, deixaremos correr água,
inventaremos um rio.

e longe saberão onde
o teu tu começa e
o meu eu finda

minha voz o suor

você está mais
perto do que eu gostaria que estivesse, e quer
estar ainda mais,

e eu me perco,
olho minhas pegadas,
sigo rastros de outras pessoas,

você parece estar
ou de fato está
sempre com a mão estendida, e eu
desviando
corpo e olhar, você

cabelo, barba, fala,
máquina-pessoa, verbo-anseio,
e eu

prefiro que
por ora, agora, seja
minha voz o suor

segunda-feira, 1 de junho de 2015

fazer sumir


uma formiga caminha e carrega
folha seca em suas costas, eu não vou

te perguntar sobre ela, te
dirigir mais o olhar, e se aos poucos
você sumir como as letras
daqueles papéis
que saem dos caixas eletrônicos
eu vou enfim sorrir, ela escreveu


exatamente pela metade,
só que ninguém percebeu
ela escrevendo na terra,
graveto na mão,
encurvada ela parecia uma moita, estava

escuro

e ela passou a mão
na terra depois que deixou suas marcas
que ainda fossem no código
da língua da língua aquela
que só sabem os querentes, ainda que,
ela preferiu
fazer
sumir, espalhando terra, pensou,

quão fácil é fazer sumir assim.
se fazer sumir fosse tão sempre fácil assim.

domingo, 31 de maio de 2015

e que queimemos sempre como tu

tronco de madeira (um)
no meio de clareira
começou

e sem dar explicação
a pegar fogo

a chama iluminou nossas faces,
estávamos em volta, fizemos caretas
e teatro de sombras

objeto opaco frente à luz:
magia

tronco de madeira (um)
no meio de clareira
pegando fogo
começa a se mover, serpente

boitatá
abençoa nosso temor
e que queimemos sempre
e sempre serpente chamas como tu

quinta-feira, 28 de maio de 2015

língua presa

i
enrodeio-me,
dou voltas em torno do
mesmo-mim,

que sequer mesmo,
que sequer mim,

que por vezes se quer,
que mais vezes qual quer,

ii
em roda
meus requerimentos por escrito,
e códigos de lei
que não as compreendo

iii
e me comprimo para caber
e, ainda assim, devasso,
esparramo espasmos
circularmente expoente

iv
cálculo preso
que sai rasgando

um uivo

tão somente tu é real,
dama eterna.

e teu toque tão somente
dores causa.

cousas que se dizem
pela televisão

& dizem as pessoas
por aí afora

não fazem diferença,
nem a menor,

quando estás aqui:
estou só

terça-feira, 26 de maio de 2015

as gentes que

i
as gentes
que correm pra achar os ecos
e tropeçam nas cordas estendidas
feitas das roupas velhas que teimamos
em não queimar, fazer

fogueira, bem, seria,
bem, melhor, bem,

se olha nas chamas
busca ver o próprio reflexo
busca ver o reflexo do outro e o seu reflexo
mas não vê nada

se olha nas chamas e vê
passado, futuro, irmãs, mães,
ou inventa que vê, que dá no mesmo.


ii
tentando
descobrir
o que beber
pra ajudar,

as vestes
de antes de antes de bem antes de ontem
não cabem mais, não adianta


iii
as gentes que
correm pra achar os toques
e derrapam no chão molhado
de sangue de lutas dos tempos todos, as lanças
não são de brinquedo, os laços prendem forte:

e fica no fundo da boca
o velho gosto de morte,


iv
as
gentes que só
querem carinho e sorte,
só, que querem nem que seja rebote,

caminham ao altar com porte,
encontram, um dia, um malote:
desvio nos caminhos, pinote:
é sempre perder de capote


v
...
vem, me dê a mão,
não, eu não dou não

domingo, 24 de maio de 2015

sister, sister

si
nceridades, a menina, idades,
amenidades,
percursos, recursos, e o escuro de tudo

na noite preta
em que a lua, só on
tem mais nada

escapada
& perseguições, multi
plicidades, dões,
que não cantam tons nenh
uns mesmos, cada um

tem um,
nenh
um, mal qualquer, mal nenhum,

não sou tida
não me cante
esparrame sua mão em cor
po, pos, pós
sibilidades

(a serpente
no jardim?
amiga-irmã)

Te-ato

"Te ato" - "nome com múltiplas significações que vão desde 'te uno a mim' até 'te obrigo a unir-se a mim.'"

fonte: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/90609/248788.pdf?sequence=1&isAllowed=y
pg 107-108

referência:
pg 203 SILVA, Armando Sérgio. "A Viagem em Busca do 'Te-ato'". In: Oficina: do teatro ao te-ato. São Paulo: Perspectiva, 1981

prova da dor

"Faço a prova da dor como um médico que pinça o músculo para saber se está anestesiado. Eu pinço a minha memória. Talvez a dor morra antes da nossa própria morte. Faço a prova da dor e recordo as despedidas, uma diferente da outra. Às vezes, erguíamos a mão. Às vezes, nos abraçávamos."

trecho da peça Kassandra in process do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz
in: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/90609/248788.pdf?sequence=1&isAllowed=y
pg 72

quarta-feira, 20 de maio de 2015

meus pulmões não gostam de água

meus pulmões não gostam de água
meus pulmões
não gostam
de água
e ainda assim
empurro minha cabeça lago adentro

des languages latins

polissemia insuportável
me treme a mente
como poder ser peixe
se tenho mama?

lago adentro, lagoa,
quero lavar meus pulmões
tirar deles seu cheiro
e o resto de pó

não só, quero

entranhar novos meios, mundos,
veios,
e, perdida no afogar,
recantos, canções novas

que eu mesma farei para mim
para nadar profundamente
abissalmente
tocar o fundo de areia
e o fundo de carne viva, mente

a, sem afago, afogar

segunda-feira, 18 de maio de 2015

afinal, temos a arte porque

"Afinal, temos a arte porque o ser humano sempre busca novas formas para sua existência. E, por isso, com frequência, a defesa da arte em si já é um ato político. Pois o ser humano tem que ter o direito de expressar as suas experiências."

in: http://www.revistas.ufg.br/index.php/artce/article/view/34765/18311
pág 13

quinta-feira, 7 de maio de 2015

mas...

aí eu falei pra ela de esfinges
de maremotos
de cortes e reis encantados
de discos voadores
de valentino quijano
de robson correa de camargo
da praça cívica
da torre eiffel
da grande muralha da china
da grande montanha misteriosa
de gnomos
de feijoada
de allan d'arcangelo
de giacomo carmagnola
de judy chicago
de yeats
de smiths
de yvone jacquette
de there's a light that never goes out
do céu do céu
mas
a lucy nada

sábado, 2 de maio de 2015

como os dados

não
caia
jamais jamais
no truísmo

evite, por terra, por ar,
por sempre,
as estátuas

as gregas
as assírias
prefira o que vier
de yorubá

o substante
torne-se adverbante
ou adjetive, que seja,

contanto que tensione.


ciclos

se eu estiver
deitado na cama
e estiveres comigo
saberei

que não estarei
em parte alguma
senão parte minha que ontem,
ida,

o caminho é só de ida,

ida, o corpo
antes instrumento
antes calabouço
fulgurante gema secreta
gemente barcarola sem vela

procede

e cinzas serei, e tomarei
a superfície do rio, de lagos,
e, por fim, comungada à maré:
espuma

terça-feira, 28 de abril de 2015

sábado, 18 de abril de 2015

e então veio o calor

e porque estamos sozinhos
justamente por isso
você me toca de outro jeito
e seu toque me deixa...

as crianças estão com nossos pais
nada que possa ser um atrapalho

e quando você me beija
eu penso em espantalhos
furacões
vulcões

e estou com certeza que
você pensa em formigas
maremotos
gêiseres

havia um tempo
e ele era um tempo antes de você
em que tudo era congelado

e então veio o calor
para acalentar o sono e o sonho

sábado, 7 de março de 2015

nodo lunar peixes

São do “Karma da Fé (Crítico)”. São pessoas que vêm de vidas de inquisidor, pessoas muito rígidas e perfeccionistas, que criticam e se auto-criticam. São muito rígidos e têm muitos conceitos que dificultam a sua liberdade, necessitam de relaxar e deixar os seus relaxarem.


http://sussucaferreira.blogspot.com.br/2013/07/karma.html
 

sexta-feira, 6 de março de 2015

todo o existir

i
estávamos os dois na cama
enquanto a passar por nós
tornados, tsunamis,
vimos tudo pela janela
e ficamos incólumes

ii
a dor tem fome
a dor quer devorar a todos
nós, a dor quer nos fazer gritar
seu nome, a dor quer dilacerar os ossos

e, macerado assim, sigo
e não seguem todos?

iii
um peixe carrega uma cidade nas costas

iv
entrementes
estátuas derretem, inclementes
arrulhos de pássaros e augúrios,
a sexta cavalaria marca o tom
de perigo e iminência
de explosões ao fim do dia,
cataclismas ao amanhecer,
assim
é meu amor por você

v
eles são tão frios
eles não servem de lenha pra uma fogueira,
é como tocar num iceberg,
montanha de gelo em português,
and it's dark in here
como será no fim dos tempos

frio como uma lâmina
solitária, nua,
encontrada no ártico

e ursos polares são belos

iv
meu iglu do fim
tem uma cesta de amoras
para tingir de vermelho
- a cor certa -
todo o existir

segunda-feira, 2 de março de 2015

ciclone

ó grande amarrota-as-roupas-quando-passa!
indigno, inválido tu!
faz tudo tremer!
e o que não sai de mim como flecha
há de sair como experiência de foguete
voando por todos os lados
urros doces urros enjaulados
urros coisasnelesmesmados
sagração de verão também é sagração
o sistema jaz em colapso
não é fácil se prender em banheiros pra viver
ou perder a chave de casa
mas a gente se vira e rola
pra quais lados?
evita pensar
dizes que um turbante
naquele guri
faz dele um guru
dizes que uma pouca coisa
falta
e tudo continua a voar



sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Sem saída e persistir

se eu visse uma revoada de patos,
assim penso,
estaria nos estados de allen,
ainda que eu não tenha lido isso, intuo,
Com o chalé de Berkeley,

mas estou
na sala do apartamento e sempre vejo a planta
crescendo selvagem e o crescimento
é um outro caminho para a morte e tropeço
Num sonho no qual tanto coço meus pés que
- ai de mim -
faço buracos

siriricas
paralelepípedos
jangadas
soluços

o doutor disse que eu não vou morrer:
basta tomar os remédios direitinho, bosta,
é tudo uma questão de controle.

que bonito seria voltar a andar,
a noite tem mais luz que o dia,
é tudo Maya, bloqueiam a via, as vistas

desses processos, dessas minutas,
Tomam o tempo rasgado por estiletes,
tesouras, escrever nas transversais e
Nas travessas
parar no meio e fazer trabalhos nobres.

a nobreza de quem diz a que veio
E por onde escoe
inclemente a enxurrada, palavras

que são nada,
Sabemos que é sem saída e persistir,
seja na Pérsia ou na Dalmácia,
pode soar como falácia,

Contudo
nas arrebentações do entrudo,
nos entre meios que se desnudam,
Um grito puro e longo se ouvirá.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

gracias, calderón

"Ah, centauro violento
que correste parelhas com o vento!"

as peças descabidas

sem cantiga de ninar,
sem boa noite,

a máscara da máscara,
uma, pintada em laca,
outra, com lantejoulas,
muito gelo seco no palco
com água, que não acabe
o show.

o estado islâmico,
a pm brasileira,
os pedidos de impeachment,
o boko haram,
os estados unidos,
mais um aumento da tarifa
do transporte coletivo.

o baile está tomado
querem ver você dançar,

do outro lado do mundo, você mora,
e sua casa tem baratas, e você estava de vestido,
você pegou
outro rapaz a noite inteirinha
e eu também me ocupei um pouco, que não sou tonta,

eu moro tão longe da praia,
é longe demais da praia,
nem posso catar conchinhas, mas

posso catar coquinho
em casa, queria lírios, queria
ser alguém, mas
não é não, repetem,
você não.

não sei se repetem dentro,
não sei se repetem fora,
não sei que voz é essa
que a cada noite
antes de dormir
se repete
me faz contar fracassos
e não ovelhas.

eu ainda como carne,
hoje está chovendo,
aqui estou falhando,
amanhã, às dez da manhã,
falho de novo.

me tomo pelo que sou com
o entortar da boca,
e nove em dez filmes me fazem chorar.

só que não estou vivo,
quem está vivo?, marchinha,

marcharão sobre nós.
nós,
as peças descabidas, as rebeldias vívidas,

escarradas, desencontradas das mães,
perdidas nos corredores
do grande supermercado-mundo, e de repente,
te colocam na prateleira
- inevitável, dizem -
e não dá pra respirar.

transborda!
faz bordados,
novos arranjos, quiçá rudes,
quiçá delicados,

novos arcanjos
no pálido céu,

e suas asas coloridas são faróis,
e são tantas as cores quanto de diverso se intui,
e são estandartes, bandeiras, fantasias, sonhos,
mais reais, e seremos nós a redesenhar esses versos.
esses outros versos dos outros tão sérios.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

As maçãs jamais quedam caladas

para evitar cair eu
me jogo, e de cada (ou de tantas)
imagens, palavras, sussurros, gritos,
eu encontro, e desencontro,
o cerne do meu silenciamento é a violência dos vivos.
o avesso do meu corpo está nas telas exposto.
as margens do desejo são móveis,
As maçãs jamais quedam caladas,
os espelhos não têm cara de estrada.
somente tu, e mais ninguém, e ainda assim 
Contínua feito ladainha ao reverso,
tecido gasto de mais de vinte anos, 
mais de vinténs, ninguéns, mínguas
enquanto desenrola, não cobre os pés,
e pelos furos os percevejos, prevejo,
se esbaldarão de tu, tu e mais ninguém,
gatos comerão as faces do desejo,
com gana, tal fosse sardinha, talvez
fiquem saciados. Que consolo!
Que glória!


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

que só

qualé seu requebrado,?
qualé seu remelexo,?
que cor faz seu gingado,
que sorte o patuá terá,?

numa noite todxs a nanarem:
- não serão estas,.
e não passarão xs militares,!
e não passarão xs caretas,!
e não passarão xs quadradxs,!

e rodopios descendentes
até o chão, que é chão de momo,!
que é chão de fúria,
que é chão de estrondos.

só espero que não
toque a ventania
que não se leve tudo
que não se pese tudo
que só

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

em retrowind

oi, cachorro,
tchau, cachorro,

o tempo indo e voltando em retrowind
abeto, betume, e tudo a ficar tão ruim

olhar fundo para uma cor
pensar fundo em uma cor
soprar fundo em uma cor
tudo em uma cor

o tempo indo e voltando em retrowind
abeto, betume, e alguns vasos da dinastia ming

o pé se ergue, a ré segue,
até metade do tanto, e nem invente pranto,
isso vai ter que servir, vai ter que servir

olhar reto para uma cor
abrir reto em uma cor
calar reto em uma cor
alguma coisa em uma cor

o tempo indo e voltando em retrowind
abeto, betume, e bugiganga xingling

sábado, 31 de janeiro de 2015

e ele é mudo

quando você tá descendo a tela,
e a tela não carrega,
como entrar num aposento
e ele devirar outro,

quais limites são tênues?,
há anos não ouço vozes.
são anos? parecem anos.
se parece, é.

definitivamente meus ouvidos
ficaram moucos, meus ouvidos,
eu não ouço mais e é tudo lento
e abaixo das peles, são outros.

na tela tem um monstro
formado por tudo e todos
e ele é mudo

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

valeu, ferlinghetti

That sensual phosphorescence
my youth delighted in
now lies almost behind me
like a land of dreams
wherein an angel
of hot sleep
dances like a diva
in strange veils
thru which desire
looks and cries




quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

bestas feras

eu poderia beber uma caixa de você, meu querido, e ainda estaria de pé
nesta copacabana ruidosa de ondas bestas feras
e andas que andemos de lado pra cá nos passeios
cerva alí, cerva acolá, quando vemos já estamos cá
botando a foder
e observar os pôres-de-sóis mais rajados, cheios de tons coloridos,
e encher de cons o ar, cada um a fazer toadas, das mais tocadas,
em tom de deboche e luar
uma caixa de você, e de pé
enquanto botávamos as cores nos ruídos das bestas feras afora
a nos rumos das bestas feras adentro
caminhando desejantes sempre sedentos inclementes
em meio a equipamentos de construção e construindo
e os beijos seus com máscaras com pássaros com dragões
com caveiras com uma de bode inclusive com folhas com
sem nunca ofuscar toda a luz da cidade e talvez um pequeno incidente na barra
uma caixa, você, de pé,
e é preciso estar abaixo, agora, é preciso estar abaixo disso
pra perceber o quanto as bestas feras minhas se amarravam nas bestas feras tuas
querido, venha comigo,
e eu te levo pro lugar que eu durmo

os anéis de saturno

"Homem e terno e celular e carro caro se torna máquina alto executivo. Mulher e megafone e cartaz e tinta na cara se torna máquina feminista. Criança e espada de plástico e cavalo de brinquedo e máscara vira máquina super-herói"



fonte: https://arazaoinadequada.wordpress.com/2013/05/10/deleuze-maquinas-desejantes/

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

As Senhoras

A senhora de amarelo se senta
E comenta da elegância do jogo de pratos e talheres.
A senhora de roxo observa as flores,
E logo fala de seu jardim animadamente para todos os presentes.
A senhora de estampa floral sorri distraída:
Enquanto ouve seus convivas, pensa em sua amante secreta.
A senhora de coque dá mais uma garfada de seu coq au vin
Enquanto cantarola mentalmente uma cantiga esquecida e janta só.
A senhora de preto, a de azul, e uma outra de roxo riem animadamente
Forçando todos a perceberem seja lá o que só o riso faz perceber.
A senhora de cinza, a de laranja, e uma outra de azul derrubam uma garrafa
Forçando um garçom a deixar de atender mesas para limpar o chão.

(Seu segredo:
Uma caixinha de música.
Seu segredo:
Descobrir-se mulher aos 26 anos.
Seu segredo:
Sua cunhada.
Seu segredo:
Ama o silêncio.
Seu segredo:
Odeiam-se com todas as forças.
Seu segredo:
Nunca aprenderam de fato a beber.)

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

carta para a.p.

E como você está sentindo hoje, meu bem? - Nossa, estou saturníssima. Simplesmente saturníssima, querida. E você? - Estou ótima! Mas conte-me, o que a levou a essa nova modificação corporal? - Olha, eu quis elevar a coisa a outro nível, você tá me entendendo? Outras esferas da experiência. Por isso o terceiro seio. Minha namorada se amarrou. - É verdade também que você tem uma tattoo anal? - Sim, botei uma cor nos lábios do cu. São amarelos agora, de dois anos pra cá. Não canso de me modificar. Acho que esses são os novos processos de microempoderamentos cotidianos, tu me entende? Dizer: eu mando no meu corpo. - Incisiva como sempre.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

não sou ulisses, não sou ulisses

vem, vamos ficar altos
e aumenta o volume do som

eu não sou ulisses, eu não sou ulisses,

levanta do sofá num salto
cata o curaçau blue

sai pulando pela sala
fazendo caras e bocas

acende um cigarro, balança a cabeça,
mata o tédio, achei um jeito novo,

mary, oh mary!,
lendo burns

eu não sou ulisses, eu não sou ulisses,

vem, vamos ficar altos
e aumenta o volume do som

oito, março, doismileonze

uma narrativa de um só pode ser a narrativa de um louco ou de forma alguma hoje eu acho que não tenho nada a dizer mas é o que digo e o que você ouve que faz com que haja algo preenchendo silêncio e tudo turbilhão furacão vulcão função e estou louco

Por Isso Que

Você deitado na cama com os pés do lado da minha cara
E eu também deitado na cama
Tocando, cada um, no silêncio que havia dentro
Mas uma uma canção do lado de fora
Embalava
Fazendo, cada um, paisagens dentro da cabeça
Por assim: sós
E completamente inteiros

Nenhuma parte sua
Encostava em mim
E foi assim que procurei sua mão
Sem ver que o fazia

E a gente se propôs
Sei lá eu ou você com a idéia
De falar alto a primeira coisa que estivesse na cabeça
E na hora, os dois ficaram calados,
Ofegando

Sonhar tem mesmo dessas
     De não fugir fácil pela boca
Só se escorrendo escorregando
   Vindo de sei lá onde,
       E levando pra lá onde

Eu pensava em nuvens gordas num céu azul pra caramba
Você pensava numa grama verde de cegar os olhos,
A gente então disse

Mas nenhum de nós sabia se o outro dizia mesmo

Mas eu comentei que era um cenário bom pra um piquenique

E você disse que parecia muito uma cena de filme

E a música que tocava era Rocket Man do Elton John
E era uma tarde de agosto e fazia calor
E poderia ser que houvesse muita vida ainda pela frente
Mas nem parecia

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

as meninas mortas

há uma luz que nunca se apaga
no fundo
dos seus olhos que eram cor de mel
e já foram verdes, vermelhos, e negros como um poço fundo
de onde escala uma menina morta
pronta para tomar minha pele
e me fazer dançar minhas pegadas sem rumo
portanto, enquanto as palmas forem incessantes
pode-se dizer que viveremos
e se um dia cessarem de bater umas contra as outras
que batam então os pés no chão
que é pra fazer barulho e acordar o que jaz
e um exército de meninas mortas levantará
e marcharão elas todas flutuando com vestidos de cores pálidas
acima dos prédios acima das casas
e eu saberei que meu amor por você é morto, mas todos os outros amores serão vivos,
e eu saberei que meu amor por você é morto, e a lua um dia já foi viva
gritando no céu incompreensões de abandono e desgosto
& também incompreensões de buracos no asfalto e furos no estofado
& pratos & copos & talheres & telhados quebrados
um mundo repleto e todo, todo feito vidro
transparências quase prontas para a mostra
dessas meninas mortas que me são
tão caras
tão caras

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

de como audre lorde não podia escrever em prosa

"Em uma entrevista com Adrienne Rich [3], Lorde confessará que até a publicação de “Poetry Is Not a Luxury” (“Poesia não é um luxo”, sem tradução em português), um dos seus textos mais belos, de 1977, não havia conseguido escrever em prosa. “Não podia. Comunicar pensamentos profundos em blocos lineares, sólidos, era superior a mim. Via o pensamento como um processo misterioso, do qual desconfiava. Eu tinha visto muitos erros serem cometidos em seu nome e cheguei a decidir não respeitá-lo. Além disso, me dava medo, porque eu tinha chegado a conclusões sobre a minha vida e os meus sentimentos que desafiavam a razão. Não queria perdê-las, porque eram inquestionáveis e demasiado preciosas pra mim, eram minha vida. Porém, tampouco podia analisá-las, porque não produziam o tipo de sentido que me ensinaram a esperar dos processos de entendimento. Eram coisas que eu sabia, mas que não podia nomear”."

fonte: http://blogueirasfeministas.com/2014/08/a-irma-outsider-audre-lorde/

dancing with the moon

todo dia escrevia nomes na parede e todo dia no fim do dia pintava a parede com uma cor diferente de modo que os nomes não se registravam, eram novos nomes a cada dia que ela tirava de uma caixinha na qual tinha registrado muitos nomes, personagens principalmente, e escrever seus nomes era uma forma de negar que eles pudessem ser esquecidos, e pintar a parede depois era uma forma de fazer com que fossem esquecidos, e o poder do lembrar e do esquecer era como o acender de um holofote forte no meio do palco. e, por óbvio, apagá-lo. a vida não tem cortinas, nem holofotes, mas ninguém está pensando na vida.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

epa epa epa (2)

vou meter 2000 e coisa no emulador!

epa epa epa

volta pra mim, excomungado!

o pássaro

dança delicada essa
do que chamei um dia pés,
só posso dizer o dilacerado

voa, meia volta, volta,
inquieto, de vez em quando,
e sempre volta,
certíssimo da labuta.

e o velho,
corcunda e manco,
pergunta
como eu poderia aguentar?
e diz que vai me aliviar. só que

a ave,
que tudo ouve,
se lança minha garganta adentro
- ufa -
bico e tudo.

faz-me giros,
faz-me saltos,
ora branco, ora negro,
se sacia

até a última linha
encharcando o pó, a vida
um longo silêncio fez

foi

todas essas coisas que passam e não voltam, e as que passam e voltam também

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

o céu é vermelho

deslizo minha língua
pela sua pele inteira
gotas de suor, é meu jeito
de me alimentar de você,

apaga tocos de cigarro no meu corpo
me usa de cinzeiro,

um dia daqueles
como pão amanhecido,
a macieira velha no quintal
e o tapete de folhas secas.

existe dentro de mim
só uma pequena brasa
que já perto de apagar -

o mundo aos pedaços
e atropelos
me faz sempre querer vomitar -

e sua
presença
se impõe no fundo da retina.

joga garrafas de vinho ao chão
me faz caminhar pelos cacos
e não me deixa dar um pio -

eu esqueço meu coquetel de sempre
- meu coquetel de lamúrias -
se você não tirar a mão daí -

de quantos retalhos
isso é feito?
tem um segredo?
é pra comer?

seus braços são
mapas hidrográficos.
sigo os fluxos,
não encontro.

eu não sei se me quero
e ainda assim acho
que ainda me busco

dentro de cada fresta sua
e cada rito,

joga o isqueiro no chão,
me manda buscar rastejando,
e vou

um filme de suspense,
um filme de drama,
um filme de amor,

não é nenhuma poesia.