quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

bilhete na mesa da cozinha

fique aí até a primavera, te peço, que você precisa mesmo ver as violetas. saía pela casa, pinte os azulejos, deixe raios e montões de pegadas por aí. quando estiver sentindo tédio, pegue um guardanapo e comece a escrever, ou a desenhar, ou tente ler as ranhuras. cada objeto possui uma própria linguagem secreta, e você como objeto de meu afeto também deve passar a entender esses acidentes. não fomos mais que noções apagadas numa rua escura de um domingo chuvoso e tudo isso bastou o suficiente. tem um novelo por aí, segunda ou terceira gaveta, da cômoda, não da bancada, do quarto de visitas. brinque com o gato. nomeie-o, faça como quiser, finja bem mesmo que ele é seu. mas se quiser tecer uma blusa, fique à vontade. fique. fique para o inverno e aproveite com sua nova blusa. a cozinha tem temperos. dá pra fazer uns feitiços batutas.

domingo, 14 de dezembro de 2014

tardes e madrugadas

procurando elefantes nos ladrilhos
vendo centauros em motocicletas
imaginando tintas numa tela

vendo pássaros nas plantas
procurando o ladrilho mais rosado
imaginando cores num papel


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Uma mulher se matou às 6 da tarde no viaduto do Chá.

"Uma mulher se matou às 6 da tarde no viaduto do Chá.
Eu cruzei por ela segundos antes, ela tava com umas sacolas do extra, e eu não teria olhado pra trás se não tivesse ouvido esse grito: "eu só sei trabalhar há 38 anos, nunca fiz uma loucura na vida. me deixa fazer uma loucura só"
Vieram as pessoas, a policia, todo mundo queria olhar lá pra baixo, eu cheguei a copiar as pessoas mas não tinha nada ali que eu queria olhar de verdade, 38 anos trabalhando sem fazer uma loucura, que frase doída pra se morrer, mas quem não tá morrendo um pouco às 6 da tarde no viaduto do Chá? Pensei se eu tinha alguma função ali, não que eu servisse pra alguma coisa naquele momento, mas é que a gente tinha se olhado nos olhos há minutos atrás, provavelmente ela deve ter olhado pros meus primeiro num instante que eu não estava distraído no celular, alguém olha outros olhos às 6 da tarde no viaduto do Chá? Fiz qualquer coisa sem refletir, arrumei as sacolas dela, tinha dois litros de leite e umas verduras, pus do lado da bolsa dela até ouvir a bronca de um policial, "não mexe em nada que a perícia ainda não chegou!", e pronto, 38 anos trabalhando sem fazer uma loucura e quando ela resolve fazer uma, a derradeira, eles transformam em laudo. Pus um óculos de sol no meio da garoa e tentei disfarçar o choro até em casa."


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