quinta-feira, 21 de novembro de 2013

no fim

i
judite

a puta sem sono, memória, 
con-artiste seduzindo com gestos inacabados,
e sem rumo,
persiste em ser cisco no olho

quando um flashe de luz da discoteca
alucinado estudou minha pupila
perdi toda a realeza

eu choque elétrico no castelo da beira do mundo
na cama onde a serpente encontra a aranha
e o lago se faz moça e deita entre ambas

ela me dizendo rápido e correndo nós
entre varais de roupas de retalhos
eu fui o amanhecer 

ii
com a boca cheia de areia

exceto que tropeço, e com a boca cheia de areia
com a boca cheio de areia tento recitar
a ária, com a boca cheio de areia tento reconformar o script

com a boca cheia de areia,
e com a mão machucada, busco consertar o projeto
do castelo pra ver se ele sobe e farei também uma torre
bem alta que tocará o céu, e com a boca cheia de areia

recolherei as folhas secas espalhadas pelo chão,
todo dia, recolherei as folhas secas, quem mais
poderia fazê-lo? e vou amassá-las para o chá

que tomarei com a boca cheia de areia

iii
judite

peguei-a de jeito com minhas canetas roxas
e fui traçando em sua pele letras
e palavras que eu não conseguia entender
e não arrebentavam carne
e não falavam verdade
e diziam sapo, se era na verdade rã,
e diziam belo, se era na verdade feio,
e diziam c'est tout, quando na verdade
nunca acabava
nunca acabaria

sete mil fotos foi o que restou
daquele final de semana e daquele
ensaio fotográfico, pouco material válido,

fica o pesar por tanto disperdício
fica o registro do pesar

quanta tinta que gastamos

iv
dises

teve uma chuva de poeira
era fim de tarde
fui correndo tomar banho, nu,
ficar lavado de terra

não é que luz em excesso cega. 
é que a própria luz é mentira.

eu e você loucos andando pela praia. 
eu estou vestido com uma fantasia de coelho, 
mas com a cabeça de um pássaro.

v
eu vi

daqui não vai dar pra ver nem 
o sol, nem a chuva, mas não faz mal,
a gente vai ficar contando
quantas flores tem

não tem nenhuma, mas a gente vai
inventar que tem, problema não,

não sabia quando o botão
que explodia a bomba de repente
poderia ter apertado seu dedo,
fazer tudo acabar queimando era bonito

as paredes estão todas no chão
e a hera que as tomava em pedaços
e os manequins também, e os lençóis,

estão no chão os ídolos, ruídos, 
o vento os leva para outro lado do
chão, estão no chão as torres e cavalos

e também reis, rainhas e bispos,
e até mesmo peões, no chão, como se fossem reféns,

no fim
o sol vai nascer violeta
eu vi

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