quarta-feira, 6 de novembro de 2013

auréola

auréola desde cedo queria envolver as pessoas em seus mundos e brincadeiras, e era isso que continuou a fazer desde sempre com seus espetáculos cênicos e com suas instalações. queria passar a impressão de intrigamento ou alheamento que lhe acometia, e as associações que estabelecia e acoplamentos. mas não bastava que olhassem para tal, ou que ouvissem. aliás, precisariam mesmo se imiscuir em meio que de sua mente havia saído, dançando junto com o movimento, ou tornando-se performances todos. e, desse modo, roubaria da realidade a vida, que lhe era cara, e colocaria como contracenante privilegiado. quase coautor, e auréola gostava de dizer que nada daquilo era de fato dela mesmo, mas não, desde cedo queria envolver as pessoas em seus mundos e brincadeiras. auréola se finge de inocente, mas é tremendamente culpada. auréola se pudesse ia engolir as pessoas pra sacar o barulho que elas fariam em sua barriga.

auréola se queimou com fogo numa brincadeira estúpida de um sábado à noite lá em casa. estava enlouquecida de ácido, e berrava, e filmava copos plásticos à medida que eles queimavam e ria. foi assim. mas berrava algo antes sobre como fazer com que sentissem o calor, as pessoas, como fazer com que se queimassem também.

auréola pensou que cozinhar poderia ser um quê interessante de si na interação com os outros. o problema é que o limite do aceitável em cozinha beira o puritanismo, nossa, dizia auréola. e dizia que pra si não dava. mas gostava de fazer risotos de chuchu com cereja, para fazer o contraponto entre essência e transformação.

auréola sempre se dragava pro que houvesse de obsessivo e arbitrário. repetições, padrões hipnóticos, mantras, tudo quanto fosse combinado até, para explodir em choque de vivência o pobrezinho que entrasse em sua instalação. ela chamava aquilo de aura, mas só pra si mesma, em segredo, reservadíssima, que não falava muito das obras. uma câmera filmaria as reações que já eram, a seguir, coladas com mantras, padrões hipnóticos, hiperreproduzida quase warholyanamente, gerando a saturação como elemento de questionamento de si mesma. é que as repetições teriam o poder de envolver as coisas até que elas saturassem de sentido, escorrendo todas pelos ouvidos dos pobres passantes.

auréola fez uma performance, um dia, num domingo, em que subia nua num poste do eixão. e de lá, ficava gritando coisas incompreensíveis, dialogando sozinha, e tentou reproduzir o medúlla da bjork, assim, de cabeça e sopetão mesmo. avisou as autoridades, até conseguiu a tal da autorização. aliás, deu um jeito de ter uns amigos para fazerem parte da cena, representando policiais que iam atazaná-la. auréola riu alto dessa. acabou que não foi das mais interativas essa. dizia que queria era dizer mesmo do grito solitário, especialmente o das mães, coisa que por nunca saberia aliás, nunca seria. mas dizia-se empática.

au-réo-la, au, réo, lá.

Nenhum comentário: