domingo, 24 de novembro de 2013

humor judeu

"Q: Is one permitted to ride in an airplane on the Sabbath?
A: Yes, as long as your seat belt remains fastened. In this case, it is considered that you are not riding, you are wearing the plane."


fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Jewish_humor#Eastern_European_Jewish_humor

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

no fim

i
judite

a puta sem sono, memória, 
con-artiste seduzindo com gestos inacabados,
e sem rumo,
persiste em ser cisco no olho

quando um flashe de luz da discoteca
alucinado estudou minha pupila
perdi toda a realeza

eu choque elétrico no castelo da beira do mundo
na cama onde a serpente encontra a aranha
e o lago se faz moça e deita entre ambas

ela me dizendo rápido e correndo nós
entre varais de roupas de retalhos
eu fui o amanhecer 

ii
com a boca cheia de areia

exceto que tropeço, e com a boca cheia de areia
com a boca cheio de areia tento recitar
a ária, com a boca cheio de areia tento reconformar o script

com a boca cheia de areia,
e com a mão machucada, busco consertar o projeto
do castelo pra ver se ele sobe e farei também uma torre
bem alta que tocará o céu, e com a boca cheia de areia

recolherei as folhas secas espalhadas pelo chão,
todo dia, recolherei as folhas secas, quem mais
poderia fazê-lo? e vou amassá-las para o chá

que tomarei com a boca cheia de areia

iii
judite

peguei-a de jeito com minhas canetas roxas
e fui traçando em sua pele letras
e palavras que eu não conseguia entender
e não arrebentavam carne
e não falavam verdade
e diziam sapo, se era na verdade rã,
e diziam belo, se era na verdade feio,
e diziam c'est tout, quando na verdade
nunca acabava
nunca acabaria

sete mil fotos foi o que restou
daquele final de semana e daquele
ensaio fotográfico, pouco material válido,

fica o pesar por tanto disperdício
fica o registro do pesar

quanta tinta que gastamos

iv
dises

teve uma chuva de poeira
era fim de tarde
fui correndo tomar banho, nu,
ficar lavado de terra

não é que luz em excesso cega. 
é que a própria luz é mentira.

eu e você loucos andando pela praia. 
eu estou vestido com uma fantasia de coelho, 
mas com a cabeça de um pássaro.

v
eu vi

daqui não vai dar pra ver nem 
o sol, nem a chuva, mas não faz mal,
a gente vai ficar contando
quantas flores tem

não tem nenhuma, mas a gente vai
inventar que tem, problema não,

não sabia quando o botão
que explodia a bomba de repente
poderia ter apertado seu dedo,
fazer tudo acabar queimando era bonito

as paredes estão todas no chão
e a hera que as tomava em pedaços
e os manequins também, e os lençóis,

estão no chão os ídolos, ruídos, 
o vento os leva para outro lado do
chão, estão no chão as torres e cavalos

e também reis, rainhas e bispos,
e até mesmo peões, no chão, como se fossem reféns,

no fim
o sol vai nascer violeta
eu vi

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

auréola

auréola desde cedo queria envolver as pessoas em seus mundos e brincadeiras, e era isso que continuou a fazer desde sempre com seus espetáculos cênicos e com suas instalações. queria passar a impressão de intrigamento ou alheamento que lhe acometia, e as associações que estabelecia e acoplamentos. mas não bastava que olhassem para tal, ou que ouvissem. aliás, precisariam mesmo se imiscuir em meio que de sua mente havia saído, dançando junto com o movimento, ou tornando-se performances todos. e, desse modo, roubaria da realidade a vida, que lhe era cara, e colocaria como contracenante privilegiado. quase coautor, e auréola gostava de dizer que nada daquilo era de fato dela mesmo, mas não, desde cedo queria envolver as pessoas em seus mundos e brincadeiras. auréola se finge de inocente, mas é tremendamente culpada. auréola se pudesse ia engolir as pessoas pra sacar o barulho que elas fariam em sua barriga.

auréola se queimou com fogo numa brincadeira estúpida de um sábado à noite lá em casa. estava enlouquecida de ácido, e berrava, e filmava copos plásticos à medida que eles queimavam e ria. foi assim. mas berrava algo antes sobre como fazer com que sentissem o calor, as pessoas, como fazer com que se queimassem também.

auréola pensou que cozinhar poderia ser um quê interessante de si na interação com os outros. o problema é que o limite do aceitável em cozinha beira o puritanismo, nossa, dizia auréola. e dizia que pra si não dava. mas gostava de fazer risotos de chuchu com cereja, para fazer o contraponto entre essência e transformação.

auréola sempre se dragava pro que houvesse de obsessivo e arbitrário. repetições, padrões hipnóticos, mantras, tudo quanto fosse combinado até, para explodir em choque de vivência o pobrezinho que entrasse em sua instalação. ela chamava aquilo de aura, mas só pra si mesma, em segredo, reservadíssima, que não falava muito das obras. uma câmera filmaria as reações que já eram, a seguir, coladas com mantras, padrões hipnóticos, hiperreproduzida quase warholyanamente, gerando a saturação como elemento de questionamento de si mesma. é que as repetições teriam o poder de envolver as coisas até que elas saturassem de sentido, escorrendo todas pelos ouvidos dos pobres passantes.

auréola fez uma performance, um dia, num domingo, em que subia nua num poste do eixão. e de lá, ficava gritando coisas incompreensíveis, dialogando sozinha, e tentou reproduzir o medúlla da bjork, assim, de cabeça e sopetão mesmo. avisou as autoridades, até conseguiu a tal da autorização. aliás, deu um jeito de ter uns amigos para fazerem parte da cena, representando policiais que iam atazaná-la. auréola riu alto dessa. acabou que não foi das mais interativas essa. dizia que queria era dizer mesmo do grito solitário, especialmente o das mães, coisa que por nunca saberia aliás, nunca seria. mas dizia-se empática.

au-réo-la, au, réo, lá.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

querelante

Eu me mantive drama para que me tomasse por
dramalhão qualquer ao fim do dia e que não se
entediasse por demasia com rigor do cotidiano

Ano após ano após ano, palavra que geme
como lobo enjaulado, incerto de si, desconsciente,
cafuzo pelos cantos e desencontrado aos tropeços

Assim evitei que Eliot consumisse
por anos e anos tudo que havíamos tomado
por mais caro e precioso de nosso sangue!

Assim evitei que o abandono tomasse conta do palco
e de todo esse lugar e ele mesmo virasse tão só somente
hera e lodo, sabe? Vitrais no chão, e tudo mais, Não aguentaria!

resistência

eu sou a morsa, senhora de coisa alguma,
desprezo as terras abjetas, mas me consumo
em meio a marés que levem, marés que tragam

ao que me ofereço, passante,
minha carne, gordura, para teu deleite,
que coloque no fogo é melhor, dizem,

estão abertos os livros que revelam
os segredos dos meus jardins sem finais
vão como pestes que tanto peçonham

abutres, não tomarão harry,
esse último pedaço de que me resta!,
significo dignifico para santa josefa!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

aquele que supera o egoolho

"You were very much the product of your time, your culture, and yet you knew how to transcend your time, your culture, in ways that seem quite magical. This had something to do with the openness and generosity of your attention. You were the least egocentric, the most transparent of writers, as well as the most artful. It also had something to do with a natural purity of spirit."

Susan Sontag sobre Borges.

http://www.brainpickings.org/index.php/2013/10/28/letter-to-borges-susan-sontag-on-books/