segunda-feira, 17 de junho de 2013

sunset boulevard

gosto
não gosto tanto assim, de morar em sunset boulevard
aqui todos
todo mundo sem exceção
quer ser uma estrela

o padeiro quer ser uma estrela,
também o pipoqueiro,
a puta, o açougueiro, a policial,
todo mundo quer ser uma estrela

às vezes penso
se me jogo de uma janela
viro uma estrela?

e nem dá pra ver as estrelas direito,
o céu tão escuro sempre
cinzento e escuro,

dizem que tem outros cantos por aí
onde poderia se ver uma estrela
se

não sei se acredito,
aqui, em sunset boulevard,
queremos ver estrelas,
não sei se acredito

vejo imagens de outros cantos
dizem
dizem que há outros cantos no mundo além de sunset boulevard
eu não acredito que haja nada além de sunset boulevard

lembro que eu tinha uma família
de vez em quando
numa cidadezinha aí,
perdida,
que não era sunset boulevard

me confundo um pouco, mas acho que era num filme,
na tv mostram muitas coisas,
guerra, vulcões, passeatas, muita coisa,
mas eu não acho que nada haja além de sunset boulevard
e acho que quem diz isso é meio doido

acho que todos fingem muito bem,
eu não sei porque fazem isso, mas acho
acho que todos fingem muito bem

existe sunset boulevard
existe minha rua, o padeiro,
e todo mundo louco para ser uma estrela
para ver uma estrela

todo mundo louco
em sunset boulevard

sábado, 15 de junho de 2013

meu país tomado de revolta em meu corpo

o brasil tá tomado de revolta
até vaiaram a presidenta
em seu terninho vermelho

e eu só sei estourar meus neurônicos
estabelecer as ligações mais trincadas
também revoltas dentro

eu sou meu país tomado de revolta em meu corpo
e estou contido, com um plano de paz maior
acertado entre duas famílias rivais,

tem uma flor branca bonita pela janela,
quer comer cachorro quente?,
se eu fizesse comida doidão, ia sempre
ficar na dúvida se botei ou não o sal na panela,

o sol cobre menos da metade
do prediozinho do lado da janela de meu quarto
prediozinho de três andares

escuto uma poesia sendo declamada
num club alemão
e bateria toca ao fundo

na tv, o jogo do brasil,
foi lá que rolou um quebra-pau
e pelo brasil eles quebram as ruas e urram

entrementes me escondo em meu edredom
azul, tempo demais na cama, um pouco fedido,
e sonho com os mundos lá fora,

eu fico olhando de longe
com preguiça de tomá-lo pela mão
e de vez em quando

eu até choro, tenho alguma crise,
bato na cama, digo que precisa mudar,
taco fogo numa lixeira e canto alto,

acendo incensos pela casa toda
coloco macarrão pra fazer no fogão
e uma pedra voa pela minha janela

vejo todos os carros pegando fogo
multidões na rua batendo em panelas
e gritando incompreensíveis

pelas janelas
famílias
jogam suas televisões

eu fico olhando de longe
com preguiça de tomá-lo pela mão
de vez em quando
porque...
nem parece que compensa,

mas meu país
está tomado de revolta
em meu corpo

e se vejo gota de sangue
que corto na faca, sem ver,
penso violências

e se abro minha gaveta, não vejo cartas velhas,
mas carabinas e setas,

a presidenta, com seu vestido vermelho,
foi vaiada por toda a multidão

será que a presidenta, em seu carro presidencial,
depois,
ou no banheiro,
chorou?

será que a presidenta, com seu vestido vermelho,
em seu carro, depois, ou no banheiro,
teve que se maquiar de novo?

será que ela, num gesto dramático,
quebrou seus espelhos todos?

meu país, eu, a presidenta,
meus neurônios, um club alemão,
uma flor branca, o sol,
tomados de revolta em meu corpo

segunda-feira, 10 de junho de 2013

elefante

um ritmo de ir e vir, uma cadência quase descontrole,
um elefante pisa forte e sua tromba vai de um lado a outro,
um movimento de para frente, ou para trás,
e onde a gente chega andando assim diz aí, por favor,

tem um carro andando bem rápido pela rua eu sou ele 
ele reflete nos vitrais da cidade louca, 
e eu sou o carro rápido e 
louco, tão rápidos são meus reflexos nos vitrais loucos, reflexos loucos,

e entra o momento som, 

e vem fazendo derreter, 

como um sol, como um jorro, como um ápice, 
jarro quebrado, leite escorrendo a mesa, frutas começam a flutuar, só não toque o chão, se segure, mais um pouco,

hastes sobem do solo querendo tocar o céu, alguma coisa que vem de longe e por isso já cansada, por isso respira forte, e segue perfurando as camadas que tiver que perfurar para fazer chegar, 

à busca de, 
queremos, 
combustível, 

que venha uma onda e derrube tudo, 

e escada abaixo, 
eu vou te olhar com meu olho louco, 
vou apertar seu rosto, 
eu vou estar louco,
e você saberá, 

balance a cabeça para um sim,
balance a cabeça e tudo balança, com ir e vir, não balança, 
o olho fixa pra se manter, vontade de montanhas russas explica bem, pois então, agora vem a queda, sim, derramado,

eu só preciso do meu sangue, do meu corpo sólido, e de minha alma firme, e como ficando tímido, aos poucos desapareço ao som de ameaças. escadas 
e cadillac:
uma casa para minhas palavras,
garotas,
serem.