terça-feira, 31 de dezembro de 2013

a 2014

ainda que venha a ser
mar de rosas
espinhos sempre hão de

pintar por aí, por ali,
por algum lugar,

cuidado, atenção,
e caminhar como um gato,
vai deixar a pele mais

inteiriça,
porque inteireza é importante,

se enquanto serpente,
também lagarto,
agora vou que vou
pro teste de coagulação

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

montar o bicho que quiser

poder fazer com que seja tão somente o desejo de compartilhamento de uma experiência passível de ser vivenciada, de uma experiência idiossincrática, de um feixe ímpar e único de relações. ou seja: doar uma visão, um lampejo, ou um cataclisma, a um outrem. sabendo que ele vai pegar essa experiência coisa e montar do jeito que ele quiser. montar o bicho que quiser. exatamente como o bicho da lygia clark.

agora, aqui, 04h50

aqueles dias em que seus olhos tão tomados em reparar as coincidências, traçar relações, fazer paralelos, se divertir com eles, e brincar de criar

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

borboleta

A borboleta do Vasco resolveu ir ao STJD (Superior Tribunal de Borboleta Desportiva) para tentar ganhar borboletaos pontos da borboleta derrota por 5 a borboleta 1 para o Atlético-PR e anular borboleta o rebaixamento no Campeonato Borboleta.

O documento borboleta será protocolado na próxima borboleta. O clube borboleta vai alegar que o Borboleta Geral de Competições foi ferido borboleta em razão de a borboleta ter sido reiniciada após 75 borboletas minutos de borboleta.

O borboleta no artigo 21 do borboleta feito pela CBF (Confederação Borboleta de Futebol) fala em 30 minutos de pausa borboleta e mais borboleta 30 de acréscimo. O vice de borboleta Ercolino de Luca desabafou borboleta e mostrou borboleta na operação em borboleta com a borboleta do UOL Borboleta.

o final a ser feito

que alguém pode dizer sobre os dias? um hamburguer, um chocolate, uma marijuana, um adormecer, uns paus duros, uns copos dágua, uns papos, uns sonhos, um esquecer, dois, ou três, uma lista de numerais e elementos. a chuva caindo, a unha grande. um game, com unicórnios, com dragões, com titãs, com behemotes. um outro, com cartas, mitologias. o gato que pula no meu colo. fazer carinho no gato. brincar com ele. fazer ele dormir. essas coisas não se conectam entre si. elas só são. how i met your mother. arnaldo baptista. grindr. lula cortes e zé ramalho. game of thrones. pokémon. minomons. muito café. muito cigarro. espirrando o tempo todo. mal sabendo respirar. fotos e fotos. recompor. desesquecer. arteorizar, arterrorizar, artear, artesourar. são tantos jogos. nenhum tem vitória. o final a ser feito.

domingo, 24 de novembro de 2013

humor judeu

"Q: Is one permitted to ride in an airplane on the Sabbath?
A: Yes, as long as your seat belt remains fastened. In this case, it is considered that you are not riding, you are wearing the plane."


fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Jewish_humor#Eastern_European_Jewish_humor

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

no fim

i
judite

a puta sem sono, memória, 
con-artiste seduzindo com gestos inacabados,
e sem rumo,
persiste em ser cisco no olho

quando um flashe de luz da discoteca
alucinado estudou minha pupila
perdi toda a realeza

eu choque elétrico no castelo da beira do mundo
na cama onde a serpente encontra a aranha
e o lago se faz moça e deita entre ambas

ela me dizendo rápido e correndo nós
entre varais de roupas de retalhos
eu fui o amanhecer 

ii
com a boca cheia de areia

exceto que tropeço, e com a boca cheia de areia
com a boca cheio de areia tento recitar
a ária, com a boca cheio de areia tento reconformar o script

com a boca cheia de areia,
e com a mão machucada, busco consertar o projeto
do castelo pra ver se ele sobe e farei também uma torre
bem alta que tocará o céu, e com a boca cheia de areia

recolherei as folhas secas espalhadas pelo chão,
todo dia, recolherei as folhas secas, quem mais
poderia fazê-lo? e vou amassá-las para o chá

que tomarei com a boca cheia de areia

iii
judite

peguei-a de jeito com minhas canetas roxas
e fui traçando em sua pele letras
e palavras que eu não conseguia entender
e não arrebentavam carne
e não falavam verdade
e diziam sapo, se era na verdade rã,
e diziam belo, se era na verdade feio,
e diziam c'est tout, quando na verdade
nunca acabava
nunca acabaria

sete mil fotos foi o que restou
daquele final de semana e daquele
ensaio fotográfico, pouco material válido,

fica o pesar por tanto disperdício
fica o registro do pesar

quanta tinta que gastamos

iv
dises

teve uma chuva de poeira
era fim de tarde
fui correndo tomar banho, nu,
ficar lavado de terra

não é que luz em excesso cega. 
é que a própria luz é mentira.

eu e você loucos andando pela praia. 
eu estou vestido com uma fantasia de coelho, 
mas com a cabeça de um pássaro.

v
eu vi

daqui não vai dar pra ver nem 
o sol, nem a chuva, mas não faz mal,
a gente vai ficar contando
quantas flores tem

não tem nenhuma, mas a gente vai
inventar que tem, problema não,

não sabia quando o botão
que explodia a bomba de repente
poderia ter apertado seu dedo,
fazer tudo acabar queimando era bonito

as paredes estão todas no chão
e a hera que as tomava em pedaços
e os manequins também, e os lençóis,

estão no chão os ídolos, ruídos, 
o vento os leva para outro lado do
chão, estão no chão as torres e cavalos

e também reis, rainhas e bispos,
e até mesmo peões, no chão, como se fossem reféns,

no fim
o sol vai nascer violeta
eu vi

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

auréola

auréola desde cedo queria envolver as pessoas em seus mundos e brincadeiras, e era isso que continuou a fazer desde sempre com seus espetáculos cênicos e com suas instalações. queria passar a impressão de intrigamento ou alheamento que lhe acometia, e as associações que estabelecia e acoplamentos. mas não bastava que olhassem para tal, ou que ouvissem. aliás, precisariam mesmo se imiscuir em meio que de sua mente havia saído, dançando junto com o movimento, ou tornando-se performances todos. e, desse modo, roubaria da realidade a vida, que lhe era cara, e colocaria como contracenante privilegiado. quase coautor, e auréola gostava de dizer que nada daquilo era de fato dela mesmo, mas não, desde cedo queria envolver as pessoas em seus mundos e brincadeiras. auréola se finge de inocente, mas é tremendamente culpada. auréola se pudesse ia engolir as pessoas pra sacar o barulho que elas fariam em sua barriga.

auréola se queimou com fogo numa brincadeira estúpida de um sábado à noite lá em casa. estava enlouquecida de ácido, e berrava, e filmava copos plásticos à medida que eles queimavam e ria. foi assim. mas berrava algo antes sobre como fazer com que sentissem o calor, as pessoas, como fazer com que se queimassem também.

auréola pensou que cozinhar poderia ser um quê interessante de si na interação com os outros. o problema é que o limite do aceitável em cozinha beira o puritanismo, nossa, dizia auréola. e dizia que pra si não dava. mas gostava de fazer risotos de chuchu com cereja, para fazer o contraponto entre essência e transformação.

auréola sempre se dragava pro que houvesse de obsessivo e arbitrário. repetições, padrões hipnóticos, mantras, tudo quanto fosse combinado até, para explodir em choque de vivência o pobrezinho que entrasse em sua instalação. ela chamava aquilo de aura, mas só pra si mesma, em segredo, reservadíssima, que não falava muito das obras. uma câmera filmaria as reações que já eram, a seguir, coladas com mantras, padrões hipnóticos, hiperreproduzida quase warholyanamente, gerando a saturação como elemento de questionamento de si mesma. é que as repetições teriam o poder de envolver as coisas até que elas saturassem de sentido, escorrendo todas pelos ouvidos dos pobres passantes.

auréola fez uma performance, um dia, num domingo, em que subia nua num poste do eixão. e de lá, ficava gritando coisas incompreensíveis, dialogando sozinha, e tentou reproduzir o medúlla da bjork, assim, de cabeça e sopetão mesmo. avisou as autoridades, até conseguiu a tal da autorização. aliás, deu um jeito de ter uns amigos para fazerem parte da cena, representando policiais que iam atazaná-la. auréola riu alto dessa. acabou que não foi das mais interativas essa. dizia que queria era dizer mesmo do grito solitário, especialmente o das mães, coisa que por nunca saberia aliás, nunca seria. mas dizia-se empática.

au-réo-la, au, réo, lá.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

querelante

Eu me mantive drama para que me tomasse por
dramalhão qualquer ao fim do dia e que não se
entediasse por demasia com rigor do cotidiano

Ano após ano após ano, palavra que geme
como lobo enjaulado, incerto de si, desconsciente,
cafuzo pelos cantos e desencontrado aos tropeços

Assim evitei que Eliot consumisse
por anos e anos tudo que havíamos tomado
por mais caro e precioso de nosso sangue!

Assim evitei que o abandono tomasse conta do palco
e de todo esse lugar e ele mesmo virasse tão só somente
hera e lodo, sabe? Vitrais no chão, e tudo mais, Não aguentaria!

resistência

eu sou a morsa, senhora de coisa alguma,
desprezo as terras abjetas, mas me consumo
em meio a marés que levem, marés que tragam

ao que me ofereço, passante,
minha carne, gordura, para teu deleite,
que coloque no fogo é melhor, dizem,

estão abertos os livros que revelam
os segredos dos meus jardins sem finais
vão como pestes que tanto peçonham

abutres, não tomarão harry,
esse último pedaço de que me resta!,
significo dignifico para santa josefa!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

aquele que supera o egoolho

"You were very much the product of your time, your culture, and yet you knew how to transcend your time, your culture, in ways that seem quite magical. This had something to do with the openness and generosity of your attention. You were the least egocentric, the most transparent of writers, as well as the most artful. It also had something to do with a natural purity of spirit."

Susan Sontag sobre Borges.

http://www.brainpickings.org/index.php/2013/10/28/letter-to-borges-susan-sontag-on-books/

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

como se eu te batesse com uma flor

Você não se sentiu um pouco esquizofrênico, compondo músicas pop pré-fabricadas da moda, como "The Ostrich" e "Cycle Annie", de dia e algo como "Heroin" à noite? 

É que Andy estava fazendo arte comercial e, então, a outra arte. Ele apoiou o show [Exploding Plastic Inevitable] com sua arte comercial. De onde você acha que eles conseguiram o dinheiro? Não tínhamos heranças nem nada, éramos duros, então Andy fazia uma capa da TV Guide ou algo assim.

Não via isso como esquizofrênico, eu só tinha um trabalho como compositor. Quer dizer, um trabalho realmente amador – eles vinham, davam um assunto e escrevíamos. Ainda é meio assim. Realmente gosto se alguém chega, diz que quer uma música e me dá o assunto. É ainda melhor se me dizem que tipo de atitude querem. Consigo me distanciar completamente disso. Andy dizia que gostava muito quando as pessoas corrigiam sua arte comercial porque ele não tinha nenhum sentimento com relação a ela. Não sentia nada, e como os outros sentiam, deveriam estar certos.

Andy lhe dava assuntos sobre os quais compor? 

Claro. Ele falou: “Por que você não escreve uma música chamada 'Vicious' [Cruel]?" Falei "Bom, Andy, que tipo de crueldade?" "Ah, sabe, como se eu te batesse com uma flor”. Escrevi isso, literalmente, porque tinha um caderno naquela época que usava para poesia, coisas que as pessoas diziam. Como em "Last Great American Whale" [de New York] – "Stick a fork in their ass, and turn them over, they're done" [Enfie o garfo neles e gire, estão no ponto]. Ouvi isso pela primeira vez no Meio-Oeste; John Mellencamp quem disse. Nunca tinha ouvido essa expressão. Ele falou: “Enfie um garfo em mim e gire, estou no ponto”. Escrevi e mudei um pouco.

Lou Reed para a Rolling Stone em 1989
http://rollingstone.uol.com.br/noticia/arquivo-ientrevista-irolling-stoneii-com-lou-reed/?page=1

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

morte do lou hoje, do meu tio essa semana

me deu uma tristeza grande, que ainda perdura, com a morte do lou reed. a morte é triste mesmo, porra. essa semana houve uma perda na minha família, uma pessoa muito amada, e eu vi tanta dor. fiquei pensando nessa coisa de que as pessoas passam, deixam marcas, deixam rastros do que fizeram. tanto meu tio, como o lou.

e à medida de que agradeço o lou pelo que ele existiu, e lembro da minha tia marta fazendo o mesmo quanto ao meu tio, eu não consigo pensar com inevitabilidade sobre como as coisas. é. no futuro do presente do indicativo e do subjuntivo.

o poder das coisas, o ser, o estar das coisas, o mal-estar delas, os atropelos, os desencontros, as palavras impensadas, as mal-escritas, as omitidas, são só palavras rodando na cabeça. às vezes alguém faz delas algo legal & interessante & bacana, e aí parece menos doloroso que as coisas sejam. veja bem, as coisas, bem, são esferas de metais pontiagudas, afiadíssimas, mil pontas ou mais. fica um pouco menos doloroso, sim.

sábado, 19 de outubro de 2013

as fontes, as

eletroacústica, terreiro,
buraco do tatu,
não sou do engenho,
perdigueiro,

sou robin rude
ao som da ta-ta-ta-taboa
ta-ta-ta-taringa
ta-ta-ta-tamanduá,

desencontrância,
redesencontro,
trovão suficiente
que desce à terra todo teu

o ribombar,
as árvores estremecidas, o cometa,
o sinal do fim dos tempos
marcando a terra como carne como nua

moço, tem uma cratera
na tua cara
uma cratera,

sou robim rum
ao som do tam-tam-tam-tambor
tam-tam-tam-tambaqui
ta-ta-ta-tamarindo,

é a sede que avança
e arrebenta todo o chão,
nada mais de caça
nada mais de coração,

torrentes rebentam veias adentro
como percurso de caverna e lanterna
na mão, empurrado o escuro mais longe
e o caminho é todo fogo e lava

eu também volto do fogo
queimando toda a mata seca
para provar ao todo
mundo que sou sublime

sou robin ruim
ao som do tal-tal-tal-camelo
tal-tal-tal-caetano
tam-tam-tam-tamborim,

no fim das contas
um paraíso
para todas gentes se encontrarem
e cantarem

e fumarem um e dois
e rirem muito e pintarem as paredes
seria tudo muito colorido
e tudo ao alcance da mão,

percepções,
percebo que ao alcance da mão
há um vasto terreno e que posso
deitar-me no chão e misturar-me com a terra,

percepções, percebo
que se jogo minhas vistas ao céu
gritantemente azul
me perco no azul,

eu sou robin reis,
sem coroa, sem canto,
farsa de si mesmo, desbotado,
feito cachorro morto,

existe algo de veloz nesse trem algo
de que tão rápido tão que ultrapassa a si
e a si não se vê não se toma uma série de
de imagens que se passam nada se

torna
elaborado,
exceto que sou robin
que sou o duplo,
eu sou o quase,
o torto,

sou atlântico sul,
cargueiro, itamaracá,
arlete salles, salgueiro,
suco de caju

cruzeiro que naufraga
mar imenso de podre de imenso
pinguins comerão minha carcaça
eu serei comida de pinguim

tornado, elaborado,
digerido,
consumado, retornado,
devirado voo?



quarta-feira, 16 de outubro de 2013

limpeza de pele

fui deixando água com sal bater
jorrando forte
e assim minhas manchas foram indo
e a cor da minha pele
e logo eu tinha buracos avermelhados
e minha face inteira escorria
pronta para renascer
troca de pele, serpente,
troca

(agressora)

(a poesia que começa com uma inquietação sobre ela mesma é uma agressora,
ela de início quer delimitar seu objeto

mas quer explicitar isso, assim, jogado:
objeto

só há poesia no mistério)

não? sou travestj

não sou travesti, uma tela não pipoca em minha cara a cada nova emoção, tenho controle do teclado, as coisas acontecem, uma canção toca, o amanhecer ele mesmo continuará a acontecer lá fora como todo santo dia, eu caminhei pela rua mais cedo e fazia sol, mas hoje é um dia cinzento, as outras pessoas, os filmes, eles vivem outras emoções, eu pareço que vejo pelo aquário, o que haveria de ser um caralho agora, o que haveria de ser um abraço, um respiro, o que haveria de ser uma carona que me tirasse dessa confusão, nota cinco para essa confusão, escala cinco de cinco, se meu celular vibrar eu vou senti-lo embaixo de minha perna, eu queria escrever outra história, tenho sono tenho varjos motjvos para fazer com que nada aconteça, não sou travestj, não sou sol, não sou nada, eu sou, a luz, a decomposição, o segredo, o sonho, o assíndeto, a rima feia, eu querja ser um travestj, eu querja a decomposjção a luz o segredo o tudo o nada o talvez, eu querja ser uma artjsta brasjlejra negra, qual a história dessa geração, das outras, quais piadas conseguiria ser, suzana descia para baixo do bloco sozinha e só de salto alto vermelho, sedenta que algo a tomasse, suzana era só metáfora e incompreensão, e a cidade jazia lá fora, cadavérica, sedenta, amarelada, o cinzeiro transborda, ah se tudo desaparecesse, caralho amarelado, indigno, inválido, sua mãe quando te pariu falou aff!, foi um segredo, foi apenas um segredo, foi um entreolhar, foi o saber digno de tal julgamento, foi o furar o ouvido metaforicamente, foi o mão de vaca no canto do ouvido, aquele metafórico que se ouve no canto do ouvido, daquele que diz que você não entrega, não gasta, não estoura, marília pêra, eu dedico isso a ela, meu reino a ela, seus olhares ternos e doces, seu jeito sempre insano e entregue, quem sou eu quem és tu quem é você, ah marília pêra, não sou sol, não sou travesti, não rastejo pelos cantos, mas sonho sim e sempre sonhos futturos fellinianos, gosto de pensar maitê proença também, e bruna lombardi, essas minas bacanas aí, futturos fellinianos, com belmondo, com michael pitt, a gente troca olhares no fim da noite, se entende, sorri, se lembra, se afaga, no fim da noite, eu desesqueço, eu faço você em mim, eu não sei o que é essa terapja, eu não sou travestj, o que acontece no fim de cada noite, que latrjna que fico esquecjdo repleto, que ou desquecjdo e crjsantêmo, árabe, perseguido, atormentado, o calabouço correndo o canto dos dedos, a boca tomada de terra, até que broto novo, mais forte, e que me devore uma bela borboleta, sim, que seguirei voando, eis que sou travestj?

em seja lá, talvez

meu nada devirou vórtice
meu percurso, desfalecências
desicumbências, e escalabro-
sidades, adversidades,

os flocos do caminho,
flocos de pão,
acabaram-se por esvanecidos,
misturados à terra e quando busquei

retornar pelo percurso,
desfalecências desicumbências,
e escalabrosidades,
tenebrosidades,

sombras que corroem os cantos dos campos
sombras a que vos devo tanto que já
deixe esse aqui passar
deixe que ele sobrevoe

que tenha sido ícaro, um pouco,
permite-se,

que então remate.

todo o roteiro construído,
a distância de, mas a encenação,
como inaugurar obra só com faixa
sem obra nenhuma,

sem tijolo que firme,

eu poderia estar repleto
mas estou incompleto,
escalopleto,
desincerto,

tenho minha obra em mãos
e mostro-lhe pra quem quiser
só que não sei se o sopro derruba,
não sei, se a tal ponto chegou

o superar do desiludir
como quando o ouro revela-se latão,
o rei revela-se nu,
o sonho revela-se

uma malha fina, cinzenta, corroída,
cheia de buracos,
um sonho cheio de buracos,

um sonho que nada tenha de doce,
um sonho que nada tenha de sonho tão somente
a égua que cavalga a noite
tomando com relinchos e

eu fui essa pintura,
eu sou esse nada,
eu sou índia, egito, sonho,
eu sou lá o que onde for puder quiser explodir,
eu sou fogos de artifício,
porra,

eu queria ver os fogos de artíficio,

é, de repente, também,
só abrir a porra da janela
e olhar os flocos nas ruas,
em outras ruas, talvez

em seja lá, talvez

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

dancei genial

e naquela noite dancei genial
e tudo que tive que fazer era
observar e deixar fluir

como um simultâneo siamês
como um contínuo simbiótico
como amalgama
como liga

conexões que fiz dos dedos dos pés
aos caracóis da cabeça

o chão sob mim e eu na
medida do contato do chão sobre mim

(como se sendo enterrado,
pela pungência do próximo passo)

ao dançar você é deriva você é futuro em gesto
você é prenhe de os luzires muitos e moedas coloridas

ao dançar você o move mundo
do seu em você
aos seus dos ares

e eu me via, deixava de me ver,
e era o gesto a percorrer
o traçado que se fizesse fazer

e
ir
tombando

pelo
percurso

esco
-rre-
gan
do

nos

pa
-ssos-

to
dos

com
gra
ça

com
le
ve
za

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

impressões

e toda aquela sentimentalidade exalante da nietochka, intensa, mas que me fez pensar principalmente no pai dela, e no seu complexo de artista. o grande talento prometido e nunca vingado por auto-sabotagem, ou incapacidade, ou ambos. é como dizer: consigo parar de fumar quando eu quiser. e nunca parar, mesmo quando precisando.

e me deixou zeno de svevo com as impressões de relacionamentos e visões, e auto-leituras e auto-enganos, e obsessões, e nexos, e construções, e coisas da vida.

e me deixou o um nenhum cem mil a impressão dos vastos silêncios da alma humana sempre além de ser tocada para sempre.

um diabo de quarto de século

se colocou assim ao alcance dos dedos desarmado
desamarrado, desde que perguntei da foto do beckett
e me contou do mendigo que lhe deu e com quem fumou um
e lhe contei do mendigo para quem dei e me roubou o celular
mas me deixou uma bela colcha xadrez
bela bela colcha xadrez

daí prum curta
com cenas belas, doces,
daí pra cadernos,

conversas de repertórios, de movimentos, direções,
faltas de nexo, e a compreensão súbita
de um eu no eu do eu
pela diferença do outro eu,
no caso,
o tu

fez que imitou o zé celso
dizendo do azeite escorrendo o anus
e disse do quanto lhe agradava a transgressão

e comentei eu, abismado, feliz,
de que ainda pode haver algum choque!
que ainda há a capacidade de ir além
e de fazer o não então feito, de causa surpresa,
de trazer o não-visto, indomado, ignoto,

perverso em si
escorrendo caos no mundo das ordens certas
dos eu-sou-minhas-regras
dos retos-que-retos-que-retos-aqui

eu olhei dentro de mim
e me vi bailarina no abismo
e se saltasse eu voava, sei

aqui, aos vintequatro,
quase vintecinto,
pouco mais de vintetrês horas até

seja lá que novo eu possível
das pedras, do cascalhos, as flores,
das pedras e do cascalho às flores,

o passado é um animal grotesco,
ele separava o caderno por anos,
eu misturo os anos,

um diabo de quarto de século
e algo como:
"beleza! bora então!"

domingo, 11 de agosto de 2013

trechos de temas

tomo-te
palavras

i need you here
and not here you too
i cannot explain
i need you here
and not here you too

dissipar o um
em termos todos
que não os meus

castelos a conquistar, outras vidas,
nenhumas, pensares,
relacionais,

que eu pudesse filosofar em outros idiomas
que eu proponha temas
subteses
e daí faça tecidos

das redes de descanso,
de pesca,
elétricas,

que eu as derrube e invada as casas
dos vizinhos e vizinhas
da boa gente

que os faça engasgar
que engasgue a boa gente em mim
que vomitem

que eu volite

que tenha hipopótamos
e rinocerontes
e unicórnios

que tenha coisas maravilhosas

mas me assombra
o orgulho do homem
que se gaba e se infla perante os outros homens
pronto a contar suas belas histórias, e ser admirado,

e muito me toca que é justamente o mesmo
que movo o tomar tomos

essa contra-face, que poderia ser
um derramar sangue 
de si

que poderia ser deixar-se vazar
mas quer ser deixar-se vazar espirrado

homologia
catarro
semên

quando a morte chegar
você simplesmente
não vai sentir mais nada

para que o medo do diabo da morte?
nunca entendi

já fiquei,
já era,


domingo, 21 de julho de 2013

deh-shi-boh

que fiquei remoendo temas da vida e dum texto que li outro dia sobre o fazer literário e viajando sobre temas que seriam da minha, tipo quando eu era pequeno e brincava sozinho, tu lembra? e inventava mundos encantados, de fadas, dragões, pokémons e batalhas, muitas batalhas. sim, eu sempre gostei de batalhas. eu poderia escrever sobre a satisfação de escolher os golpes frente ao inimigo, e reagir a seus ataques. como um jogo. como se também o jogo fosse o espelho do parâmetro que eu quereria ser. que todos quereriam ser, porque toda literatura pretende ser universal. tá. ficou pretensioso. mas é verdade. quem escreve pro umbigo? meu cu. quer aquelas palavras eternas. se não as deixava engolidas. quer poder reler. quer poder tirar de si, do si perene, e colocar no fora, e o fora que ficará após você ter partido. eu poderia falar da grande partida que sofri em minha vida. eu sofri uma grande partida em minha vida? não. então eu poderia inventar como eu reagiria a uma. ou como alguém reagiria a alguma, que não eu. falar dos processos de curar a fossa. mas como falar disso sem ser banal? simples. processo de vomitar. tô fazendo isso agora. tu curte? hahaha. falar das mágoas. meu cu que eu não quero trabalhar, sabe? sei que vai melhorar essa merda que tô vivendo. o que eu realmente quero é impossível, então foda-se. contanto que já melhore, tá valendo. e a gente vai se economizando assim, né, bia? mas acho que investindo em coisas melhores. eu acendi agorinha um beck, ouvi música, vi pornografia, escrevi poesia, entrei em contato comigo mesma, pensei em ti. tudo tão divina, assim, hahaha. queria que a escrita captasse essas coisas que escapam. preciso escrever sobre o esforço disso. bia, eu sei que você me perguntaria do que vale o esforço de eternizar. bia, não precisa fazer essa cara. nossa, nesse momento eu te daria um beijo. me desconcentrei agora. haha. bom, continuando... ah, é simples, é só que a gente não consegue admitir que a festa vai ter um fim, sabe? o diabo é isso. "i just can't get enough". e por isso é tão estúpido crescer, e alguém precisa contar isso pra todo mundo. bia, dá um filão prum young adult. escreve aí, vai. bia, eu poderia escrever do meu amigo imaginário, fazer uma história sobre alguém que tem um amigo imaginário. é tanta coisa, bia? o mundo sufoca muito às vezes, né? é muito grande, louco, descontrolado, incompreensível. o mundo meio que urra. eu preciso captar esse urro. ai, no fundo, no fundo, fico pensando que é só vontade de encontrar a tampa da panela. hahahaha. juro! é que, essa coisa de querer que alguém te curta, sabe? te admire. aquilo é você, sabe? foi obra tua. a gente precisa ser artista, né, bia? é impressionante. todo mundo precisa disso. uns com a escrita. é incrível como precisamos fazer o mundo mover, fazer coisas. que movimento todo é esse, né, bia? pra quê, pra onde? tava cantarolando ali agora. inventei um mantra. é deh-shi-boh. na verdade são três sussurros. é preciso captar esse barulho todo, sabe? qual mínimo barulhinho, ruído, zumbido. é preciso ser rádio, tentar ser médium, sei lá. captar. ter antenas. ser etê. aquela lá que dizia algo sobre gravar o instante. ou a sucessão deles. o tempo, o espaço, tudo aí. cara, não existe tempo, só existe espaço. é a coisa se expandindo e só. e as distâncias entre as coisas. fica pensando aí nessa coisa de sermos espaços entre átomos e energia escura aí, e ainda assim nos acharmos fodões. ai, bia. eu te amo, viu? se cuida. vou escrever. beijo.

repetir pra ficar gravado

tu faz suas escolhas
se tu urge, tu urge

conversinha

porque às vezes isso acontece, né?
você tá numa festa, pensa, pô, vou embora,
tô cansado,
mas decide ficar um pouco mais, porque sabe que quer

sabe que quer um pouco mais da festa, entende?
aquela alguma outra coisa que a festa, só a festa, pode te dar,
e não sua cama, nem seu quarto,

entende?

domingo, 14 de julho de 2013

dos a fazer

estava absorta,
retardada, combalida, derrotada,
como se após uma longa batalha

daí lembrou das contas a pagar
dos a fazer, dos a querer, dos quem quiser,
o ritmo todo com sua incessante-
-cidade

nua, minha, eu, longe,
da janela, nada,
nada eu, dos a fazer, fazer

quarta-feira, 10 de julho de 2013

politilírio

por uma conjunção
que institua regimento
da ausência das regras e de qualquer

regulamento de descabimento, disjunção, fosso
profundo e cheiroso,
mistura de chá de rosas, de sangue, de prosa,

por uma empunhadura
a fazer articulações
serem melódicas, serem ortopédicas,

em agressividade cor de anis
e suas vozes portadoras de vozes
que são portadoras de vozes e de vozes

que os povos dentro dos poros
com suas rebeliões multifocais
belas, translúcidas, e genéticas

de quaisquer raízes,
de janelas quebradas, de incêndios,
cataclismas,

por um estouro,
por fogos de artifícios,
por artifícios que se fundissem falanges,

por fungos que deixem demente,
por minha mãezinha eterna nas nuvens!,
pelo regimento da infantaria catorze!

todos tirar íamos as vestes
e feita seria uma fogueira de vestes
e dança seria em torno desnudos

descer iriam então sete batmans
cada um de uma cor do arco-íris
dos céus, piruetas, performáticos

cometas que afundem a terra
poços translúcidos cadentes
de esturpor de espanto de fome,

essa seria a quadratura
das posturas gestos & políticas
de nossos ossos e carnes

e pela manhã pescar,
logo depois, foder, então cozinhar,
ler, cantar, trepar, dormir, sonhar, explodir

terça-feira, 9 de julho de 2013

Por Beatriz Preciado, dizendo muito melhor do que eu jamais conseguiria tudo que somos/sou nesses dias

"Parece que os gurus da velha Europa se obstinam ultimamente a querer explicar aos ativistas dos movimentos Occupy, Indignados, handi-trans-gays-lésbicas-intersex e postporn que não poderemos fazer a revolução porque não temos uma ideologia. Eles dizem “uma ideologia” como minha mãe dizia “um marido”. Pois bem, não precisamos nem de ideologia nem de marido. As novas feministas, não precisamos de marido porque não somos mulheres. Assim como não precisamos de ideologia porque não somos um povo. Nem comunismo nem liberalismo. Nem o refrão católico-muçulmuno-judeu. Falamos uma outra linguagem. Eles dizem representação. Nós dizemos experimentação. Eles dizem identidade. Nós dizemos multidão. Eles dizem controlar a periferia. Nós dizemos mestiçar a cidade. Eles dizem dívida. Nós dizemos cooperação sexual e interdependência somática. Eles dizem capital humano. Nós dizemos aliança multi-espécies. Eles dizem carne de cavalo nos nossos pratos. Nós dizemos montemos nos cavalos para fugir juntos do abatedouro global. Eles dizem poder. Nós dizemos potência. Eles dizem integração. Nós dizemos código aberto. Eles dizem homem-mulher, Branco-Negro, humano-animal, homossexual-heterossexual, Israel-Palestina. Nós dizemos você sabe que teu aparelho de produção de verdade já não funciona mais… Quanto de Galileu precisaremos desta vez para re-aprender a nomear as coisas, nós mesmos? Eles nos fazem a guerra econômica a golpe de facão digital neo-liberal. Mas nós não choraremos a morte do Estado-providência, porque o Estado-providência era também o hospital psiquiátrico, o centro de inserção das pessoas com deficiência, a prisão, a escola patriarcal-colonial-heterocentrada. Está na hora de pôr Foucault na dieta handi-queer e de escrever a morte da Clínica. Está na hora de convidar Marx para um ateliê eco-sexual. Não vamos adotar o estado disciplinar contra o mercado neoliberal. Esses dois já travaram um acordo: na nova Europa, o mercado é a única razão governamental, o Estado se tornou o braço punitivo cuja única função será aquela de re-criar a ficção da identidade nacional por meio do medo securitário. Nós não desejamos nos definir como trabalhadores cognitivos nem como consumidores farmacopornográficos. Nós não somos Facebook, nem Shell, nem Nestlé, nem Pfizer-Wyeth. Não desejamos produzir francês, e tampouco europeu. Não desejamos produzir. Nós somos a rede viva decentralizada. Nós recusamos uma cidadania definida por nossa força de produção ou nossa força de reprodução. Nós queremos uma cidadania total definida pelo compartilhamento das técnicas, dos fluidos, das sementes, da água, dos saberes… Eles dizem que a guerra limpa se fará com drones. Nós queremos fazer amor com os drones. Nossa insurreição é a paz, o afeto total. Eles dizem crise, nós dizemos revolução."

segunda-feira, 17 de junho de 2013

sunset boulevard

gosto
não gosto tanto assim, de morar em sunset boulevard
aqui todos
todo mundo sem exceção
quer ser uma estrela

o padeiro quer ser uma estrela,
também o pipoqueiro,
a puta, o açougueiro, a policial,
todo mundo quer ser uma estrela

às vezes penso
se me jogo de uma janela
viro uma estrela?

e nem dá pra ver as estrelas direito,
o céu tão escuro sempre
cinzento e escuro,

dizem que tem outros cantos por aí
onde poderia se ver uma estrela
se

não sei se acredito,
aqui, em sunset boulevard,
queremos ver estrelas,
não sei se acredito

vejo imagens de outros cantos
dizem
dizem que há outros cantos no mundo além de sunset boulevard
eu não acredito que haja nada além de sunset boulevard

lembro que eu tinha uma família
de vez em quando
numa cidadezinha aí,
perdida,
que não era sunset boulevard

me confundo um pouco, mas acho que era num filme,
na tv mostram muitas coisas,
guerra, vulcões, passeatas, muita coisa,
mas eu não acho que nada haja além de sunset boulevard
e acho que quem diz isso é meio doido

acho que todos fingem muito bem,
eu não sei porque fazem isso, mas acho
acho que todos fingem muito bem

existe sunset boulevard
existe minha rua, o padeiro,
e todo mundo louco para ser uma estrela
para ver uma estrela

todo mundo louco
em sunset boulevard

sábado, 15 de junho de 2013

meu país tomado de revolta em meu corpo

o brasil tá tomado de revolta
até vaiaram a presidenta
em seu terninho vermelho

e eu só sei estourar meus neurônicos
estabelecer as ligações mais trincadas
também revoltas dentro

eu sou meu país tomado de revolta em meu corpo
e estou contido, com um plano de paz maior
acertado entre duas famílias rivais,

tem uma flor branca bonita pela janela,
quer comer cachorro quente?,
se eu fizesse comida doidão, ia sempre
ficar na dúvida se botei ou não o sal na panela,

o sol cobre menos da metade
do prediozinho do lado da janela de meu quarto
prediozinho de três andares

escuto uma poesia sendo declamada
num club alemão
e bateria toca ao fundo

na tv, o jogo do brasil,
foi lá que rolou um quebra-pau
e pelo brasil eles quebram as ruas e urram

entrementes me escondo em meu edredom
azul, tempo demais na cama, um pouco fedido,
e sonho com os mundos lá fora,

eu fico olhando de longe
com preguiça de tomá-lo pela mão
e de vez em quando

eu até choro, tenho alguma crise,
bato na cama, digo que precisa mudar,
taco fogo numa lixeira e canto alto,

acendo incensos pela casa toda
coloco macarrão pra fazer no fogão
e uma pedra voa pela minha janela

vejo todos os carros pegando fogo
multidões na rua batendo em panelas
e gritando incompreensíveis

pelas janelas
famílias
jogam suas televisões

eu fico olhando de longe
com preguiça de tomá-lo pela mão
de vez em quando
porque...
nem parece que compensa,

mas meu país
está tomado de revolta
em meu corpo

e se vejo gota de sangue
que corto na faca, sem ver,
penso violências

e se abro minha gaveta, não vejo cartas velhas,
mas carabinas e setas,

a presidenta, com seu vestido vermelho,
foi vaiada por toda a multidão

será que a presidenta, em seu carro presidencial,
depois,
ou no banheiro,
chorou?

será que a presidenta, com seu vestido vermelho,
em seu carro, depois, ou no banheiro,
teve que se maquiar de novo?

será que ela, num gesto dramático,
quebrou seus espelhos todos?

meu país, eu, a presidenta,
meus neurônios, um club alemão,
uma flor branca, o sol,
tomados de revolta em meu corpo

segunda-feira, 10 de junho de 2013

elefante

um ritmo de ir e vir, uma cadência quase descontrole,
um elefante pisa forte e sua tromba vai de um lado a outro,
um movimento de para frente, ou para trás,
e onde a gente chega andando assim diz aí, por favor,

tem um carro andando bem rápido pela rua eu sou ele 
ele reflete nos vitrais da cidade louca, 
e eu sou o carro rápido e 
louco, tão rápidos são meus reflexos nos vitrais loucos, reflexos loucos,

e entra o momento som, 

e vem fazendo derreter, 

como um sol, como um jorro, como um ápice, 
jarro quebrado, leite escorrendo a mesa, frutas começam a flutuar, só não toque o chão, se segure, mais um pouco,

hastes sobem do solo querendo tocar o céu, alguma coisa que vem de longe e por isso já cansada, por isso respira forte, e segue perfurando as camadas que tiver que perfurar para fazer chegar, 

à busca de, 
queremos, 
combustível, 

que venha uma onda e derrube tudo, 

e escada abaixo, 
eu vou te olhar com meu olho louco, 
vou apertar seu rosto, 
eu vou estar louco,
e você saberá, 

balance a cabeça para um sim,
balance a cabeça e tudo balança, com ir e vir, não balança, 
o olho fixa pra se manter, vontade de montanhas russas explica bem, pois então, agora vem a queda, sim, derramado,

eu só preciso do meu sangue, do meu corpo sólido, e de minha alma firme, e como ficando tímido, aos poucos desapareço ao som de ameaças. escadas 
e cadillac:
uma casa para minhas palavras,
garotas,
serem.

domingo, 31 de março de 2013

berlim 94

suzy, foi simplesmente um estouro, era o que ele disse, apesar de eu não ter estado lá para ver, mas escute aqui a mamãe, sim, sim, amiga, um estouro!, naquela noite tomamos muita champanha, aline tinha trazido da casa dos tios, e ela havia pego as garrafas escondido, certa de que nem iam notar, porque eram muitas as garrafas, era comemoração de formatura, ou alguma coisa assim, da namorada de um primo, e a pobre menina era, na verdade, orfã, e super self-made girl, acredita?, sempre trabalhou desde cedo, dessas que te faz sentir inútil e super patricinha,
                                                  parágrafo, ponto,
                                                  paralelo,
                                                               meridiano,
e foi bem rápido que chegamos, na verdade, e estavam todos por lá, e tinha colocado umas coisas nas lâmpadas para dar um 'tchan' diferente no ambiente, sabe?, ficamos conversando banalidades e trivialidades por hora até que johnny interviu, ele ia começar um daqueles longos discursos sobre a vida, a existência, e tudo mais, sem esquecer de mencionar os peixes, e agradecer pelo excelente salmão da noite à anfitriã, e pedir desculpa por alterar um pouco o teor de nossa conversa, e dizer que, feliz ou infelizmente, sempre teríamos alguns momentos legais para nos recordar e etc, mas que na verdade mesmo a vida não era feita disso, que tínhamos que ter algo mais sólido do que nos orgulhar, e bater no peito, e dizer: olhe, veja, tem marcas de minhas digitais ali, olhe veja que fiz o pão que as pessoas comeram para levantar esse prédio, olhe veja que fiz sexo com um dos arquitetos e sem minhas curvas ele não teria chegado a isso, hahaha, olha, tá, não foi bem o que ele disse, claro, e eu sabia que tudo que alguém poderia tirar daquilo era se sentir abarrotado, que, na verdade, assim, verdadeira mesmo, te conto aqui agora: não
                                                                                não faria diferença mesmo. quem eu fui naquele tempo para dizer alguma coisa? eu não teria como ter pensado diferente. fica muito engraçado pensar sobre passado, nesses termos, ou seja em quais termos forem, seja nos termos que você estabelecer, que o grupo decidir, e etcetera, etceera. olha, quando pensarmos naquela viagem, ou em qualquer outra, que diabos podemos dizer de nossas escolhas? isso, isso é inefável. e ainda assim... vai ficar uma coisa qualquer engasgada. não, não vai. te garanto que não vai. o tempo passa e, quando você nem vê, você já não sente mais nada na garganta.
e, sim, você pode tomar isso de um jeito mal, ou de um jeito bom. é só uma opção sua.
                   entrei no carro.
                                         
                                               paris, 87, foi quando pintaram aquele quadro. e ele dizia alguma coisa sobre a relação dos dois. e é claro que -, não, não é tão claro assim, mas na verdade eu acho que ficou tristemente banal. precisava mesmo terem escrito esses trechos de músicas? e esse tom de vermelho, berrante assim. parecendo sangue de menstruação. ah... pois é, sabendo disso, acho que fica ainda mais óbvio. não, sim, eu sei que faz referência àquelas fotografias, e continua não sendo grande coisa. a impressão que dá é que eles juntaram as referências de um jeito assim, como quem junta todos os objetos que têm cada uma em suas casas ao ir morar juntos e colocam, todos juntos, ênfase no todos, ênfase no juntos, na sala de casa. e é uma bagaceira, viu? porque do lado da estátua grega você vê um jacaré empalhado.

                                                                 paris, 93, paris paris, bolsa de jacaré eu andando por um canal não me lembro mais o quartier, sei que hoje lá eles têm um albergue, anos depois estive por lá, encontrei um canadense, nem te conto, mas bem, não é sobre isso essa história, não me lembro mais o que aconteceu em paris, 83, eu não me lembro mais.
seguimos pela mesma estrada. opa, não, eu sigo pela mesma estrada. eu posso dizer que estou mesma seguindo pela mesma estrada. e é a mesma estrada. eu achei que já estive em outras estradas, mas eu não estive. é a mesma estrada. eu reconheço o estilo das árvores a cor da terra, eu reconheço muita coisa por aqui, eu já fui e já voltei. no final do caminho tinha um espelho. aí voltei pro começo do caminho, porque não lembrava mais o que tinha. era um espelho também. hahaha, era um espelho também. posso jurar de pés juntos como era um espelho também!, haha, achei de um mal gosto terrível.
                               nossa, sim, eu gostei muito, achei verdadeiramente fantástico. achei de uma simplicidade contundente e até... não sei, dilacerante. mas de uma forma muito sutil, sabe? nossa, gosto tanto quando você vai tentar descrever uma coisa e as palavras meio que se escorregam pela boca, haha. você entrava, tinha um corredor, e você entrava pelo meio dele. no final, do lado direito, tinha uma cortina, uma pequena sala com um altar, tocando uma música meio oriental, e um espelho. e é uma sala fechada, escura. do outro lado, você volta, vai até o final, e encontra uma sala idêntica, o espelho, a moldura branca, e você simplesmente encontra a mesma coisa. achei que foi a melhor coisa que ela conseguiu fazer. dizem que era uma referência a uma viagem que ela fez. quer dizer, me expressei mal. que ela tirou isso de uma viagem que ela fez. ai, falando assim parece que-
                                                                                     não, de verdade, eu sinto muito. eu não sei bem como cheguei aqui, como cheguei a ser de fato isso que sou agora. eu verdadeiramente não estou feliz, e achei que estava fazendo as melhores escolhas. na verdade, eu quis achar que estava fazendo, mas eu não gastei muito tempo pensando nisso. até porque eu achava que se gastasse muito tempo pensando, ainda assim, não ia fazer diferença. você vê, não sei se vê, mas vê se entende, ou tenta entender, era um momento complicado, assim, para mim, um momento no qual parecia que todas as conclusões eram meio compulsórias, e eu poucas vezes, ou nunca soube, simplesmente, calar e me meditar. isso sempre me soou. a voz que me dizia alguma coisa sempre era eu, como quem se engana jogando a moeda pela quarta fez, insatisfeito com o resultado. ou quando você diz: depois do próximo carro azul que passar, eu ligo para ele. aí você espera mais sete carros azuis passarem. e aí você diz que é depois do próximo verde.
pois bem, de verdade,
eu não sei muito bem,
como eu cheguei aqui,
e eu sinto muito, de verdade, e eu queria que isso pudesse fazer diferença.
mas não faz.
nem a curto, nem a longo prazo, não faz nenhuma diferença. em barcelona, em 97, eu sonhei que nevava, e olhando pela janela era algo tão solene. era verão. o calor estava me cansando. e, nossa, haha, eu sonhei que nevava. os nomes ficaram perdidos pela narrativa. tente juntar a sílaba do início de cada parágrafo, se você conseguir voltar, distinguir o que é um parágrafo e o que é um enxerto, junte as sílabas, forme uma palavra, saber diferenciar quais são os sinais relevantes, quais são os arbitrários, qual o atalho, qual a cilada, saber dizer se tem uma mão de deus nisso tudo, ou só a sua, ou um conjugado de todas as mãos dos outros num imenso shiva-polvo, ou numa imensa kali-tubarão, com sua dança da vitória insana, eterna, fazendo tremer todos os mundos acima e abaixo.
                          tente juntar.
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com amor,

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

sentítulo

eu só preciso do meu sangue
do meu corpo sólido
e de minha alma firme

como mister shook ficando tímido
aos poucos desapareço
ao som de um trinado ameaçador

escadas e cadillac
uma casa para minhas garotas

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

De Lírios

Talvez
antes de tudo
eu tenha sido
massa de modelar.

Talvez
boneca de pano
de retalhos e espumefeita

espumante, Talvez marinha,
Afrodite, marginal,
sentada na beira do rio

colhi de lírios
para fazer,

Para Orlando, guirlandas,
Para Judite, palpites.
Para Hamurabi, lamentos,

unguentos, pobres
vocês, tão doentes,
Corto uma de minhas sete
cabeças
para beijá-la em cabeças outras.

(Modelo, de avião, de montar,
juntei, todas, as peças,
fora, de lugar)

E pra vós!,
Desfio
setenta vezes sete
Desafios,
bem sei que.

Meu cérebro
deve ter
algum
desalinho,

óleo gasto,
parafuso solto,
sutura frouxa, meu cérebro,

Meu cérebro
tem alguma
alquimia torta.
Mas ela é minha.
Só minha.

sábado, 26 de janeiro de 2013

men hunt on

toca um jazz em
manhattan e corro pelas ruas persigo
caralhos negros volitantes,

os traçados são desencontros são
desencontros coloridos para alegrar o patuá

nosso de cada dia, nos dai hoje,
as moças são bonitas são loiras negras amarelas azuis,
elas devem ser de marte elas falam coisas que não compreendo
elas cantam em línguas elas são deusas por aqui as moças

e suas bocetas mágicas
enchem o mundo de filhos um dia
menos as estéreis, que essas ficam bem mas não vão parir.

todas elas, todas elas podem te matar e não é verdade
não é verdade que elas tem inveja de caralhos, eu que
persigo caralhos pelas ruas de manhattan e agora eles são pequenos
e amarelos,

eu não sou um aborígene, não sei qual é minha tribo,
eles vão me fazer melhor, mais completo,
eu sou aquele moleque obcecado que só sabe fazer desenhos de caralhos pulsando,

os traçados são rejuntes de azulejos,
tem um prédio mais ao fundo da imagem e estou vestido
com as roupas de meus ancestrais,
eles tinham tribo, serão mesmo os meus ancestrais?
eu não sei bem qual é minha tribo.

tudo passa muito veloz.
tem uma mulher com cabeça de cabra.
as mulheres são seres belos que uma vez por mês
podem pintar minha cara com seu sangue.

eu sou uma coisa tão branca agora,
eu sou tipo um não, só que um não nem é tão branco,
então eu sou um não muito branco.

e você pode pintar minha cara com seu sangue, judite,
você não precisa cortar minha cabeça fora.
mas se você quiser, bem, não serei eu que vou reclamar
a minha própria cabeça, numa tijela, saia amarela,
sol azul lindo brilhante

tudo girava muito rápido
tudo girava muuuuuito rápido
leia, novamente, mas mais lento:
tuuudo giraaavaa muuuuuito ráaaapido,
e agora, normal,
mas eu nunca soube meu nome, jazz,
eu nunca soube meu nome, jazz.