quinta-feira, 23 de agosto de 2012

tom de leitura

"Para atacá-las no devido tom, sabia encontrar o acento cordial que lhes preexiste e que as ditou, mas que as palavras não indicam: graças a ele, amortecia de passagem toda rudeza nos tempos dos verbos, dava ao imperfeito e ao pretérito perfeito a doçura que há na bondade, a melancolia que há na ternura, encaminhava a frase que ia findando para aquela que ia começar, ora acelerando, ora retardando a marcha das sílabas, para fazê-las entrar, embora diferissem de quantidade, num ritmo uniforme, e insuflava àquela prosa tão comum uma espécie de vida sentimental e contínua."

No Caminho de Swann, Proust.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

feliz aniversário,

feliz aniversário,
seu belo monte de merda
que à sanha de se equilibrar
sempre precisa de uma terceira

perna, feliz aniversário sua devassa!,
sua necessitada corrosiva
de mãos muitas que te preencham,
te enlacem, devoradora de

cabeças e sonhos, feliz aniversário
dragão líbelula, quis tanto encher
o céu inteiro de fugazes luzes celofanes
com arco-íris e toda a paleta,
mas só ficou no preto e branco, zero

a zero, feliz
aniversário, demente alado
que voou por todos as quinas
desse quarto torto
dessa cada toda,

feliz aniversário, você que em vós
ressoas, rumo a frente, eu rio,
mas você levanta, persegue
- altivo porém - o seu fim, feliz aniversário

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

o ciclo infinito (ou A Luta é Uma Respiração)

Estamos no Strelka quando ele me diz isso, um espaço bonito que fica diante da catedral do Cristo Salvador, a cena do crime. "Lembro de que nadava naquela piscina, quando criança. Minha sensação é de que em mais 70 anos a piscina estará de volta. E viveremos esse ciclo infinito de destruir igrejas e recriá-las".


http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1132912-putin-vai-mesmo-enfrentar-o-pussy-riot.shtml

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

fogos de artifício em uma noite de abril


eu estava interessado nas conseqüências
eu estava interessado nos fatos que se isolam
nas coisas que mentem porque tinham sono
e então preguiça de contar a história inteira

eu mirava atento aquele azulejo trincado
aquele pássaro trinando
aquele disco furado

eu retomava o ponto de onde havia parado
seu olho quando fitando a garota que vinha
do lado oposto da rua, e nós na sacada do segundo andar,
e você segurando uma garrafa de vinho

tão firme
para que ela nunca caísse,

e te jurei amor eterno
pela cegueira que temos nessas horas
pois que as chamas do tempo sempre estão
por demais distantes e somos tão somente o que somos,

e eu lembro dessa história rindo,
pois que chorar hoje soaria amargo
como uma cotovelada na boca do estômago,

eu estava interessado nas linhas
que formaram um nó
interessado nas gotas que juntas e inclementes
caíram do céu violentas em forma de toró
eu estava interessado em você

e no mistério de cada ruga
que teu rosto formava máscara
ao se colocar em riso

tão completo,
tão repleto,
tão rasteiro

que caí no chão e estou rolando
há sete gerações, como saga como plaga como
recompensa
por haver

devassado
o fundo
do que nunca havia antes sido
visto,

"ah,
para,
nada antes foi visto/vivido,
a não ser que pela primeira vez!"

e não é disso
mesmo
que estou falando?
e não é do tropeço
do reconhecer
que posso falar?

e não é do fazer ofegante
com palavras?



"me conta um segredo?"
"tento."
"tem mesmo um pote de ouro no final?"