quinta-feira, 14 de junho de 2012

A Partilha

Não penso mais em você - o que é igualmente ridículo.
Esses anos que nos apartam como um deserto de sal.
(- que é de sal, que é um abismo, que somos sapos -
Nenhum beijo fez ninguém virar princesa,
e acordei sempre com a cara toda amassada,
a boca repleta de gosto ruim, meu corpo todo fora de lugar.)

e a hombridade em meus seios
aumentados a silicone
deveria ser um entrave,
mas é uma faísca
para a ladainha.

Som na caixa, pista de dança,
tu pediu Beatles para o DJ,
peguei,
cerveja, cigarro, maconha, papos altos.

Fim de noite enrolado em cortinas,
começo de manhã.
Penso que pensei tanto, seus olhos,
pesaram em mim,

bigornas, feridas, nada de novo.

Não há razão, nenhuma, nem desrazão.

E eu te disse para não buscar ser o que não era,
e você me disse que é só o que fazemos.
(feito vagalumes querendo ser luz, impérios)

Onde éramos? Que faríamos?

O silêncio após George foi como uma adaga
que tivesse enfiado em meu fígado,
(e eu te vi abutre porque eu trouxe o fogo)
e enquanto você roncava o vento
levou cinzas chão adiante
e o relógio e a caneca.

Whisky, na caneca, pouco gelo, está frio.
Me aquece? Estou assim, sem freio.

Não olhe assim, não, que dá ânsia,
como é fácil não falar com
ou de, ou para, ou entre você,
e pareceria triste, mas não. À tarde,

quando você deitar no carpete, olhar o teto,
(mexer em seus próprios cabelos,)
eu penso em icebergs.
Seu rosto assim, esburacado,

não te direi nada, nem uma palavra, é
Minha vitória de bolso.


2 comentários:

Helmine disse...

Você quis compartilhar e eu achei alucinante.
Nem vi que reli quatro vezes e acho que não vou me cansar de revisitar esse pedacinho.

Luiza Queirós disse...

gostei desse beto!

e gostei muito disso:
"E eu te disse para não buscar ser o que não era,
e você me disse que é só o que fazemos.
(feito vagalumes querendo ser luz, impérios)"