segunda-feira, 9 de abril de 2012

mais pesado

imaginei uma síntese
quis até fazê-la com gestos de mãos
foi quando olhei para as minhas unhas e
assustei, eu juro,
eu não me lembrava de tê-las roído
e ainda assim,

quis fazer numa caixinha
um punhado de memórias e vi,
com o tempo, em mim, passando,
ouvi murmúrios todos

eram mil
as chances que tive
de barcos a me tirarem da ilha, mil
nomes que entoeei dormindo
e acordei delirando e escrevi
logo na água, para facilitar o trabalho do tempo,

aí percebo que é preciso ser amigo,
que é preciso ser doce, que é preciso ser inteiro,
ou tentar,
ou morrer tentando,

nadar até doer os braços
e preferir olhar para o céu
do que cavar o fundo do mar, mas não

tinha nenhuma rede de pesca por perto
e eu precisei mergulhar e pegar comida
usando as mãos nuas e tudo escapava, por óbvio,
e eu tive muita fome,

deitado na areia deixei
meu corpo dourar no sol, areia vento vindo,
fiquei dez anos, abri os olhos
e me pesando uma duna,

dez mil anos depois,
dez milhões de anos,

o relicário nas mãos,
quis misturar cada gota
de cada beijo, cada sonho
de cada concha, cada brinco
de cada festa,

vi que não encaixava, quis colocar na garrafa,
jogar bem longe, de olhos fechados,
e a praia trouxe de volta, acendi fogueira
e fiz sinais de fumaça, passava um aeroplano,
fui solenemente ignorado, tentei queimar
minha casa de caracol, feita de dores de todas as dores,
feita pra refúgio, e ainda me lembrava
do sol me deixando vermelho, tentei fazer
com que se fossem
e eles continuaram, só queimei as mãos,
intactos,

minto, na verdade nunca tive casa,
eu não tive casa, na verdade,
eu não tive nada,
essas imagens balelas,
meu corpo, real, tem marcas de balas,
e eu me afundo na areia...

e vou nadando, vou nadando,
que os braços não podem parar
e nada é mais pesado que o ar
desse céu azul tão grande

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