quinta-feira, 26 de abril de 2012

vento e pó, barro e vivo

se é necessário
- e parece que sim -
nadar contra a maré 
mais duzentas mil vezes
eu vou

até que eu me esgote,
e esse dia ainda não chegou,
e pereça, levado,
e vire carne de peixe, eu reafirmo

a luta, grito bem alto a lida, coloco
os sapatos vermelhos, esqueço meu nome
e me juro nascer de novo após um cochilo,
estou novo, sou todo o tempo, sou 
essa coisa que acaba de brotar

e não fecho os sentidos, sequer caminhos,
que ela invada o asfalto inteiro
e nenhum carro mais passe, ainda assim,
prometo jeito outro de voar

e serei, por um dia, vento e pó,
então, a seguir, barro e vivo,
e depois, novamente, vento e pó,
na sequência, venho a ser, barro e vivo.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

david altjmed

"Rather than a language, I am more interested in how the elements create energy. I know that the things I use, the Star of David or certain words affiliated with political activism, are charged and have important meaning potential. I inject them inside the installation and the meaning potential transforms into energy. My involvement is to create something that is alive that will be able to say new things.
The energy of these living abstract organisms depends on the meanings of the work being unresolved, uncontrolled. When meaning is controlled, the resulting object is not alive."

"But in comparison to an icon like the swastika, the Star of David is so much more interesting. With a swastika, only one thing can happen. I know exactly how a swastika will function inside my installation. It is too obvious and I don’t like that I know what will happen. I don’t want to know. You know? I am very interested in that void. In order to make something that is new, that says new things, you have to be able to use intuition and not really know in advance what is going to happen. If it is totally controlled then there is nothing new."

segunda-feira, 9 de abril de 2012

mais pesado

imaginei uma síntese
quis até fazê-la com gestos de mãos
foi quando olhei para as minhas unhas e
assustei, eu juro,
eu não me lembrava de tê-las roído
e ainda assim,

quis fazer numa caixinha
um punhado de memórias e vi,
com o tempo, em mim, passando,
ouvi murmúrios todos

eram mil
as chances que tive
de barcos a me tirarem da ilha, mil
nomes que entoeei dormindo
e acordei delirando e escrevi
logo na água, para facilitar o trabalho do tempo,

aí percebo que é preciso ser amigo,
que é preciso ser doce, que é preciso ser inteiro,
ou tentar,
ou morrer tentando,

nadar até doer os braços
e preferir olhar para o céu
do que cavar o fundo do mar, mas não

tinha nenhuma rede de pesca por perto
e eu precisei mergulhar e pegar comida
usando as mãos nuas e tudo escapava, por óbvio,
e eu tive muita fome,

deitado na areia deixei
meu corpo dourar no sol, areia vento vindo,
fiquei dez anos, abri os olhos
e me pesando uma duna,

dez mil anos depois,
dez milhões de anos,

o relicário nas mãos,
quis misturar cada gota
de cada beijo, cada sonho
de cada concha, cada brinco
de cada festa,

vi que não encaixava, quis colocar na garrafa,
jogar bem longe, de olhos fechados,
e a praia trouxe de volta, acendi fogueira
e fiz sinais de fumaça, passava um aeroplano,
fui solenemente ignorado, tentei queimar
minha casa de caracol, feita de dores de todas as dores,
feita pra refúgio, e ainda me lembrava
do sol me deixando vermelho, tentei fazer
com que se fossem
e eles continuaram, só queimei as mãos,
intactos,

minto, na verdade nunca tive casa,
eu não tive casa, na verdade,
eu não tive nada,
essas imagens balelas,
meu corpo, real, tem marcas de balas,
e eu me afundo na areia...

e vou nadando, vou nadando,
que os braços não podem parar
e nada é mais pesado que o ar
desse céu azul tão grande