segunda-feira, 22 de agosto de 2011

um olhar de primeira vez

Já estou aqui há quatro meses e, ontem à noite, ao fazer um balanço mental desse período, percebi a familiaridade incrível com que me movo neste mundo. É aí que está o perigo. É agora que devo vigiar minha visão, a forma de me colocar diante de coisas que venho conhecendo cada vez melhor; é agora que devo impedir que os conceitos escamoteiem minhas vivências. Seria terrível (não me aconteceu, por sorte) eu ter um dia que passar às pressas diante de Notre-Dame e só dar aquela olhada distraída que se dedica a bancos ou a casas para alugar. Quero que a maravilha da primeira vez seja sempre a recompensa para o meu olhar. Posso me dar ao luxo de passar perto do Museu Cluny e pensar comigo: “Vou entrar outro dia.” Mas entrar ali tem de continuar sendo uma coisa séria, última, o motivo verdadeiro de minha presença em Paris. Nós rimos dos turistas, mas juro que eu quero ser turista em Paris até o fim, ser o homem que anota na agenda: quinta-feira, ir ver o São Sebastião, de Mantegna... É horrível perceber a cada minuto como as faculdades intelectuais empiétent sobre as intuições puras, tentando esquematizar o mundo... 


Julio Cortázar em uma carta,
fonte: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-58/cartas-julio-cortazar/misteriosa-entrega-e-mudanca-de-si-mesmo

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