sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Barrico e os Trens


essa história de construir trens... ferrovias que os conduzam... pois bem, que o Sr. Rail diz com clareza quase infantil que a função dos mesmos não seria mais que fazer com que todos olhassem as coisas de um jeito diferente. mal ou bem o engenheiro Bonetti, com prontidão, lhe contrapõe: fazer um trilho que gire o mundo e faça com que os outros voltem ao mesmo lugar, que tal soaria esse absurdo? soa bem, eu diria. tendo esquecido de um detalhe básico, singelo, feito dessas sabedorias muito velhas: que qualquer viagem sempre traz um homem diferente do que antes havia partido.

ah sim, pois sim, simples dizer também: que todo livro é um trem. e à goiana, dizer: bem, um trem volta e meia bom.

e cada vez mais fico mais certo que a grande arte de um grande artista é conseguir fazer arte e discutir arte ao mesmo tempo. que somos humanos, então nada é óbvio para nós, bem sabemos. então precisamos esclarecer esses "trens" incompreensíveis que nos assomam, essas grandes dúvidas, tais como a seguinte: "por que diabos deveríamos fazer viagens só por serem belas?"

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

kevin shields way, ou: saber mais e o mistério das "cousas"

Recentemente "perdi" um bom tempinho no wikipedia e em outros sites lendo sobre o processo de gravação e produção do Loveless, último álbum que o My Bloody Valentine lançou, datando de 1992. Eles ficaram trabalhando no álbum por mais de ano, e gastaram uma grana preta, por "n" motivos. O lance é que descobri também nessa que, em uma medida considerável, a banda É o Kevin Shields doidão.

Assim, vim a saber do louco processo de produção do álbum, e de como Kevin Shields decupou as faixas, gravou diferentes instrumentos, duplicou camadas de vozes, utilizou-se de técnicas de guitarra envolvendo wah-wah de forma diferenciada, e quase artesanal, criando um efeito que hoje pode até ser dito facilmente emulável, mas na época foi tal combinação única...

E fiquei pensando nesse artesanar de alguém, e na crença da expressão válida ou única de si. Crença que talvez se devire em necessidade, ou em luxo, ou um luxo que é necessidade, ou uma necessidade completamente luxuosa, assim como os cavaleiros medievais precisavam de aventura porque assim se lhes diziam e porque só assim poderiam fazer. Novamente, pobre, paupérrimo, o Quixote sem moinho.

Hoje vi também um documentário sobre Pieter Brueguel e entendi melhor diversas camadas de sua pintura, às quais eu jamais poderia ter tido acesso sem estudo, apenas com a apreensão de um olhar leigo. O mesmo exemplo vale para o álbum do MBV do qual eu estava falando. Sim, que o mundo tem camadas, tem véus, tem historinhas pra contarmos dele e das coisas deles, e por aí vai e tal e coisa. Isso é cacofônico volta e meia, pois sim, mas uma cacofonia com potenciais de beleza absurdos.

Por fim, contraponho pensando como saber realmente o mistério de alguma coisa a mata. Wilde sabia, discutiu isso na Esfinge Sem Mistério, e Cortázar sabia, e daí tanto de seu anti-racionalismo e sua sensação de viver o absurdo e de inserir o absurdo na narrativa para que ela possa ir além. É preciso simplesmente abraçar sem saber porque fazê-lo, mas dessas necessidades parecidas com as que tinham os cavaleiros medievais mesmo. E inventar seus moinhos. E conquistar a Bretanha.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

um olhar de primeira vez

Já estou aqui há quatro meses e, ontem à noite, ao fazer um balanço mental desse período, percebi a familiaridade incrível com que me movo neste mundo. É aí que está o perigo. É agora que devo vigiar minha visão, a forma de me colocar diante de coisas que venho conhecendo cada vez melhor; é agora que devo impedir que os conceitos escamoteiem minhas vivências. Seria terrível (não me aconteceu, por sorte) eu ter um dia que passar às pressas diante de Notre-Dame e só dar aquela olhada distraída que se dedica a bancos ou a casas para alugar. Quero que a maravilha da primeira vez seja sempre a recompensa para o meu olhar. Posso me dar ao luxo de passar perto do Museu Cluny e pensar comigo: “Vou entrar outro dia.” Mas entrar ali tem de continuar sendo uma coisa séria, última, o motivo verdadeiro de minha presença em Paris. Nós rimos dos turistas, mas juro que eu quero ser turista em Paris até o fim, ser o homem que anota na agenda: quinta-feira, ir ver o São Sebastião, de Mantegna... É horrível perceber a cada minuto como as faculdades intelectuais empiétent sobre as intuições puras, tentando esquematizar o mundo... 


Julio Cortázar em uma carta,
fonte: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-58/cartas-julio-cortazar/misteriosa-entrega-e-mudanca-de-si-mesmo

domingo, 21 de agosto de 2011

que coisa

percebi que não fiz post de aniversário esse ano.
e nem tou a fim de fazer agora.
enfim, vamos acompanhar.
ou não.

Pois

Não é mais estar-só,
sequer, menos ainda, só estar
e não mais a cabeça vaga
então tanto vaga estava.

Meu braço se move.
Eis: Mistério.

Ele poderia estar inerte.
Eu poderia estar inerte.
Todos poderíamos, juntos, inertes.

Mas há movimento.
Sol que dá luz,
folhas que olham para cima.

O que fazer disso tudo
que tão sem ordem,
que tão sem rumo,
o que?

Por favor, mais que isso,
mais, mais, mas.

Mesmo que exigido seja
de nós tolos
que estouremos o braço

Pensar se:
no final
um cuspe deveria apagar o Sol

terça-feira, 16 de agosto de 2011

roy wagner, ou "blowing my mind"

Olha, eu não tenho lá muito idéia do que aquele doidão quis dizer, mas vou tentar falar alguma coisa como registro e etc e tal. Afinal, eu estive a poucos metros de um dos mais fodidos e polêmicos antropólogos atualmente vivos, e quiça, dos mais fodidos e polêmicos que já existiu. Isso, my friend, o tempo vai dizer.

Bom, vamos lá. Impressões iniciais. A gente tenta seguir uma coerência e razoabilidade e ordenação, né? Beleza. Chego lá um pouco atrasado. Vejo um cara mais velho do que eu antes supunha, chutei  em torno dos 70 anos, mas agora vou wikipediar. (Sabe aquela coisa de imaginar gente doida como jovem? Pois então, sofri desse mal.) Bom, chutei certo. Nascido em 38. Jovenzinho na loucura dos 60. Bacana.

E a seguir me deparei com tanta coisa instigante que mal sei começar a falar sobre. Em linhas gerais, o mais impactante foi aquela veeeeelha noção de que o mundo é tão mais amplo, complexo e etc, do que se costuma imaginar. Ou, principalmente: inventamos o mundo assim. Todos esses tantos de grupos humanos por aí existentes. Hoje mesmo mais cedo vi a antropologia pelo prisma dessa tensão: o que uniria todos os humanos, e as diferenças que o separariam. Dança delicada, essa.

O principal: uma antropologia das mais bem feitas - mas não a única possível - e dedicada a colocar o nativo de maior seriedade possível, dando relevância verdadeira ao seu modo de pensar, e dedicada também a levar o encontro/choque às últimas consequências, resvala possivelmente para a mística. Num sentido amplo. As conclusões inalcançáveis, os jeitos de olhar o mundo idem, e quando um dos caras mais foda do mundo relata que vivenciou coisas sobrenaturais, e que sabe que pode ser visto como louco por declarar isso, você só diz: como é? Como é?

É isso, a vida grande e pesadona nas minhas costas. Eu lá tenho idéia de como lidar com isso. Mas valeu pela oportunidade. Valeu mesmo, ó coisa-nenhuma, ó grande-nada-da-banalidade, ó ocidente que a gente carrega nas costas. Valeu mesmo. E, principalmente, valeu conjunção astral e vida que me fez e eu fiz. Sugestivo esse dezesseis de janeiro.

eggs
pearshells
factrals
triangles
trinity
the snake
the crow

Espero ainda fritar muito com isso.



Post-scriptum: Porque diabos escrevi dezesseis de janeiro se era dezesseis de agosto? o.O

poecoisinha

bem assim, assim assim, acontecem coisinhas legais, assim assim,
             e tudo bem, tudo bem,
que isso tudo é feito assim,
banalidades legais, assim assim,
tudo bem,             e tudo bem
assim assim

sábado, 13 de agosto de 2011

rio, não rio, rio


Uma drag de rasta, um filme em três planos simultâneos, cada câmera pega uma coisa, por vezes elas se cruzam,,, Um parque no qual se vai parar por acaso. A todas as coisas do mundo, o acaso, nela vamos parar assim, sem plano antes que consiga dar conta ou cabo. Um parque com tantas texturas. Uma lapa, duas lapas, três lapas, muitos planos de lapa, andando pra lá e pra cá, tantas gentes, dois caras do sul do país, blumenau ou gaspar?, tudo quanto os nomes façam diferença. Eu não escolhi meu nome, e não é fácil assim mudá0lo, zeros no meio. Me parece uma violência sem tamanho, e logo descabida. Valorar positivamente a falta0de0cabimento, zeros no meio novamente. Tinha um aquário com peixinhos e era como uma gruta e tinha um monte de gente olhando e tinha até quem batesse no vidro. Não pode bater no vidro, poxa, você incomoda os peixes. O doce olhar consegue tomar as coisas pra si, fazendo-as em toda sua porracoisidade, tomando elas como elas em si, elas noutro si, elas com esse si. Fogo fora de controle, temos que queimar isso tudo, temos de ser bombas de luxúria, prostitutas da place pigalle, e nero nos entenderia, e eu entendo tão bem nero. Além do mais, também quero poder nomear, como outro o fez, um cavalo para o senado. Ou mais, ficar numa ilha sem reinar. Reinar pra que?, caralho, tanto que te cobram pelos seus gestos. Eu queria o aquário sim, e que me jogassem comida. Foca! Foca! Foca!, peixe na boca. Dentro da bolsa tinha tudo, saía qualquer coisa, e a pobre coitada, castrada, e seu pinto ali dentro. A cadeia alimentar é tão demodé!, vamos comer isso tudo sem critério. E acabemos com todos esses insetos imundos. E tome mais doce nisso tudo! Quero catar piolhos na sua barba! Improvisos com trompete, colocar Rimbaud pra dançar em diferentes quadros, captar o que x doce garotx não conseguiu dizer, com rosas brancas, em seu leito de morte, captar os instantes únicos dos gestos de veludo. Tantas fases tantas, você segue uma vida, se acha foda, se reinventa, se faz outros. De repente, tem um tombo no meio do caminho. Eu nem estava mais lembrando que você não tinha feito a ligação, e logo você cortou a ligação, e isso é sim um tópico à parte, mas é bacana que seja, seu imundo, seu muito bonito, insuportavelmente, que vou te matando em palavras em breve. Você precisa de um à parte, pra de vez apartar. É compreensível ralar joelhos. Eu queria pular do bondinho! Eu queria cair de para-quedas entre todas aquelas casas bonitas e sei lá o que mais. Não deve ser pelo necessário, cada viagem é uma chuva, é um vento, é um desejo, é o que seguir pés e pés. Passei muitas horas dormindo. Por lá, e esse ano. Passei muitas horas no ar já esse ano. O mar continua sem conter todo seu mistério, mas meus olhos tantas vezes não me acompanham mais. Quanta beleza! Ah... são meus óculos. Ser ficcional pode perfeitamente significar ser verdadeiro. De novo, os zeros no meio.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

sobre curitiba (e mais mile coisas ou só mais umas sete, sei lá)

porque é preciso registrar. enfiei essa na cabeça há uns mi tempos. e sempre vai o registro manchado mesmo. "conta suas férias aí", e eu contei a vivência delas, o desenho delas, e não elas, as mesmas. que fato-fato-fato que registro, pura e simples, existe exatamente assim não. e a graça toda muita talvez seja desenhar de novo o que já se viu. às vezes, mais ou menos próximo do modelo original. às vezes, gritando a diferença toda. ou o ímpar olhar e ângulo. vamos lá.

esperávamos todos um frio maior, talvez de doer os ossos. e talvez quiséssemos também mais coisas que fizessem querer gritar, talvez também. olhar prédios diferentes e árvores diferentes sempre tem uma graça específica. as fotos ficam como provas de um crime, quer feito ou não, pela mera intenção de: querer mais tão mais. como que se fosse a passagem de um trem na qual se entra e vai. ou um trem que passa sobre nós.

as árvores diferentes, as gentes diferentes, e o conhecer mais a si quase louco do que a cidade mesmo. ou conhecer mais os outros seus próximos quase-loucos ou quase-eles-mesmos-muito do que outra cidade mesmo. o alheamento que me toma estar fora dos regulares de si, das regras de si do sempre, e coisas assim, e se ver de outros jeitos-maneiras. e
o
tal
do
querer
mais.

morar aqui pareceria bacana. achar livros bonitos, ver belezas surpreendentes, desenvolver novos gostos, novos medos, novas vontades. foi como ter vestes novas de si. se embelezar com outros tons. é isso que agora me soa. é isso que as viagens pedem.

poesias das esquinas não vividas, também, e além

constando, escrito em 19/07/2011

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