quinta-feira, 28 de julho de 2011

Cena da Ponte

Ponte passo em que por baixo
que estou tão alto, de mim, estão
todas as cidades do mundo e do outro
as luzes de mundo, das verdades e as nuvens desfeitas
e a elas todas que pairam acima buscam
como se buscassem o que se pode cingir.


(reversão de trecho retirado de A Morte do Príncipe, de Fernando Pessoa)

Tema da Ponte

Em que ponte passo que por baixo
de mim, que estou tão alto, estão
as luzes de todas as cidades do mundo e do outro
mundo, e as nuvens das verdades

desfeitas que pairam acima e a elas todas
buscam, como se buscassem o que se pode cingir?

Em que ponte
passo
que por baixo
de mim, que estou tão alto,
estão

as luzes de todas as cidades
do mundo e do outro mundo,
e as nuvens das verdades desfeitas
que pairam                                                        acima

e a elas todas buscam, como se
buscassem o que se pode cingir?



(trecho retirado de A Morte do Príncipe, de Fernando Pessoa)

terça-feira, 26 de julho de 2011

você, ruídos, corujas

você alto assim depois do tanto que bebeu
me deixando alto assim com seu olhar
fixo devassa
insano se perde
falando de codeína e códigos
e de lynch

)
alguma coisa sempre
acontece às vezes na vida
de alguém 
sei lá quem
sei lá quando
(

você que voltou porque ouviu a coruja
você que voltou porque ouviu
e eu ouvi você na minha cabeça
e eu ouvi

na minha cabeça ruídos
na minha cabeça-ruídos

domingo, 24 de julho de 2011

julho, vintequatro, doismileonze

só eu mesmo pra entender o meu nível de babaquice.

e entender como que me parece que eu sempre e pelo resto da vida vou lembrar de fulaninho com uma música aí.

e lembrar que isso já deve ter me parecido antes em outras situações, e não se realizou.

e pensar na lua, no sol, nas estrelas, nesse vento bom, em todas essas coisas,

e lembrar de curitiba e de todas as outras viagens. as feitas e também as não feitas.

gloriosos dias de leão estão vindo pelo horizonte, o que diabos vocês me reservam de tanto ou de pouco?, e depois os de virgem, os de libra, os de escorpião, e se seguirão de novo até de novo leão.

meus cabelos brancos vão aumentar. meu cabelo vai continuar crescendo e sendo cortado. as unhas. e volta e meia os sonhos.

um dvd na sala de casa, uma galera da família aqui em casa, tios, primos e etc. um dvd de músicas antigas, coisas como bonnie tyler, kc & the sunshine, e etc. eles lembram de suas vidas há trinta anos atrás, cantam. na sacada, uns falam mais ou menos besteiras. todos bebem. eu tou tranquilo, sem cerveja.

meu pai fala muita besteira. é engraçado.

eu falo muita besteira. é engraçado.

eu imaginei cenas de filmes com tanta gente já, e pouco, ou nada.

eu não imaginei tanta coisa que já, e muito, e demais.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

eu fazendo prova em casa

leio duas páginas
olho pra ver quantas faltam
paro
maldigo muito a vida
volto
mexo no facebook
procuro notícias idiotas no site da uol
mexo no meu cabelo
mexo no meu cabelo
ligo pra uma amiga pra reclamar da vida
volto
leio mais cinco páginas
paro
olho pra ver quantas faltam
escrevo uma poesia
maldigo a vida na poesia
mexo no meu cabelo
mexo no meu cabelo
mexo no meu cabelo
busco uma resposta na poesia
volto
leio mais duas páginas
anoto um trecho que não tem nada a ver com a questão
procuro outras coisas na internet que tem a ver com esse trecho
mexo no meu cabelo
peço pra minha mãe um café
mexo no meu cabelo
leio mais três páginas
olho pra ver quantas faltam
olho quantas músicas do devendra banhart eu já ouvi nesses últimos dias
mexo no meu cabelo
penso em fulano
penso em cicrana
mexo no meu cabelo
escrevo essa besteira aqui
escrevo outras besteiras
mexo no facebook
vou ao banheiro mijar
me olho no espelho enquanto me espreguiço
volto
leio mais umas páginas
olho pra ver quantas faltam
mexo no facebook de novo
terminei de ler
falta escrever
puta-que-pariu

segunda-feira, 18 de julho de 2011

sem que isso implique em

"O estilo não é, pois, um meio de recortar um território, porém a hesitação terrível sobre a possibilidade mesma de transpor uma fronteira, sem que isso implique em, de novo, acabar com os pés e punhos atados."

Daniel Oster, na orelha do Crítica e Clínica do Deleuze fofo.

ubiquidade dissolvente

"Textos críticos, por outro lado, como o livro sobre John Keats, de que há muitas referências nas cartas, assim como várias intervenções pontuais sobre tópicos e autores que lhe interessaram durante sua carreira, trouxeram decerto elementos relevantes para a compreensão da poética e da prática narrativa que Cortázar foi exercendo através dos anos. É o que se vê, por exemplo, pelo conceito de “ubiquidade dissolvente”, que tantos desdobramentos teve no interior de sua obra ficcional, e que foi tomado precisamente de Keats para definir o modo de ser do poeta como uma espécie de camaleão movido por uma ânsia de viver que o leva a amoldar-se mimeticamente ao modo de ser de outro a cujo espaço se transporta com facilidade a ponto de nele se fundir, adotando pelos olhos alheios outro modo de olhar. Ser que anseia ser, o poeta seria capaz dessa posse do outro pela linguagem, perseguidor radical de uma plenitude ontológica que o obriga à busca e à rebeldia diante de um mundo degradado que não corresponde às suas aspirações."

trecho retirado de:
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-58/cartas-julio-cortazar/misteriosa-entrega-e-mudanca-de-si-mesmo

quarta-feira, 6 de julho de 2011

longa longa longa

a vontade de fazer a mente calar
que a mente é como uma boca incansável
com língua e tudo mais
narrando cada coisa que ponho os olhos em
cada intenção a ser
e etc e tal,
que falastrão!,
que porre.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Santíssima

Pobrezinho, pobrezíssimo,
paupérrimo Quixote-sem-moinho,
arquejando e preso
na sina de fazer dor nas costas
pra que carreguem tantos podres.

Que não são deles, pobrezinho,
pobrezíssimo,
mas só podem ser, paupérrimo,
Quixote-sem-moinho.

Ele que não tem sequer
uma moeda de ouro, mísera,
uma mísera moedinha, ele miserável,
pra fazer como fazem os outros,
passantes, tão rápidos, decididos,

e jogam sua miséria na fonte.

Tais águas frias, tal velha pedra,
deviam o mundo, ligeiras,
botar nos trilhos.

Ah-esse-trem, Quixote-sem-moinho,
doido-de-deus, pobrezinho,
e suas costas doem mesmo,
e sua pena aumenta,

E você queria tanto,
paupérrimo, dar uma moedinha pra deus,
que pede esmola ali no canto.

E você tanto queria,
pobrezíssimo, enxugar as lágrimas de deus,
perdidinho-da-silva na romaria.

As pernas das gentes,
são mesmo inclementes,
as pernas das gentes.

Ele que não tem qualquer
cama pra escorar, dura,
mesmo que de pedra, ele dolorido,
pra fazer como fazem os outros,
caminhantes, vezes tolos, ensandecidos,

e esparramam seu cansaço na fronte.

Pobrezinho, pobrezíssimo,
paupérrimo Quixote-sem-moinho,
estafado e roto
na lida de lutar sem espada,
louco que esse tudo fosse nada.