terça-feira, 3 de maio de 2011

Plumas

vi vocês dois reluzindo muito
como se tivessem comido luz
e queimando e rindo de gozo
achei bonito pra caramba fiquei fitando
rogando pra ficar cego

depois surdo mudo
vegetal

Sonhei uma hecatombe
E ela tinha meu nome
Chamava também passagem do inferno
Aí lá contei os ladrilhos da rua
Por sete meses e meio
Achando que era uma prova.
Era não.
Era só eu.
E eu.
E eu.
Sempre eu.

depois disso todo mundo veio em volta
aquela menina bonita que eu fui na festa de quinze anos
eu tinha doze eu acho
e ela era uma violeta uma coisa assim.
os da universidade com seus sonhos rajados
que eram tigres com fome demais.
tinha uma casa pra defender
e voar era algo besta
que perguntei pra minha prima qual o super poder que ela tinha.

só que lembro não.

Sei se...
A memória pode salvar?
Do fim dos dias?

vocês reluzindo muito
explodindo como a chama que possa fazer tudo queimar
como que é preciso
e rindo o gargalhar mais rugido
como pássaros como diamantes
como verdades do fundo da terra que jorram.

Vocês que moram perto de vulcões.
Vocês que cada um com seu cada qual
fizeram furos em minha pele.

sou sapo.
chove sal lá fora.
manda um guarda chuva alguém aí, vai.

tenho medo de papel.
de qualquer papel.

de repente dobro o medo,
ele vira barco
ele vira pipa
ele vira cisne

Vocês que apertam.
Vocês que vocês.

e eu que eu que eu que eu.

lembrei assim.
lembrei mais não.
É preciso. Queimem minha retina. Não há outro caminho.
Esse mundo é pros cegos.
Esse mundo é pros doentes.
pros aflitos pros pedintes.
pros cadentes.

Sonhei com vocês.
Era uma hecatombe.
Tinha sim meu nome.
Mas não lembro como me chamo.
Não adianta que não lembro.
Se lembrasse, não escrevia.

Explodam em luz, Eu digo.
Deixem rastro por ares.

e como uma estranha alquimia das coisas
logo pensamentos então papel
e que dobrei assim nesse formato
a pele se vira assim
em fogaréu.

E não tem segredo
A hecatombe faz arrepio assim de pele toda
E não tem segredo
O mundo é mesmo de nós, cegos
E tudo aquilo que já disse
E os outros também todos
Com suas vozes mais bravas feito assim jaguares
Mais luminosas feito assim faróis
Lá longe no mar escuro

lembrar salva ninguém não.
é tipo tentar cantar o que foi.
a palavra escapa da boca por tentar dizer.
ela escorrega esbarrando na trave sem fazer gol.
sem vorpal contra o dragão.

melhor intuir seu sangue jorrando
como se eu desenho.
Vulcão que é.

que dizer o que foi na vera
é ficar na casca
E é a seiva que ouro.
Coisa negra tal piche.

Urge o pungente,
não o cascalho.

vocês foguetes
mochilão pela via-láctea.

hecatombe que redime. que é pedra bruta ardendo.

vocês, tão jovens
vocês, meus belos
meus caros, meus belos

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