quarta-feira, 25 de maio de 2011

Tríptico em Nonas para Seis ou Oito Patas

Foi estranho que
essa noite ou foi
essa tarde eu tenha
de algum modo assim
tido um sonho sem
bem saber o que
dizer assim
ter sonhado com isso,
isso aranhas.

Certo dia aí
vá eu delire em
vão os insetos que
isso viam em mim
que bem sou carne
só de sangue a
postos para
no monte ser sagrada,
sagrada entregue.

Eu devia mesmo
botar bem em cada
nada que pisam essas
pequenas coisas que vão
rasteiras por cada canto
todos e também frestas
bom veneno
mesmo que minha cabeça,
cabeça arda.

terça-feira, 24 de maio de 2011

rilke em malte

uma consciência fragmentada, como um construto-texto de si que se debruça sobre si, se refazendo pelo texto-tecelar. o si é, de alguma forma, ou de muitas, o reencontrar as praias mágicas de tempos celtas, mesmo que falemos de dinamarqueses e francos. as épocas em que uma morte era uma morte, em toda a sua plenitude-morte, também plenitude-mar. o sangue que pulsa é de quando os atos tinham todo um peso que era leveza, por ser como expressão de almas completas e plenas. mas a intuição do si, e atuação, como completo & pleno, derrama seu olhar sobre cada pormenor, se escorrendo e banhando os pobres pés, como cristo-rei já o fez. os dedos com frieira do mundo. os reis que habitam essa colcha, mas também o cego que caminha na rua. ele também é rei. as mortes todas são reais, nesse duplo senso, nesse marcar-vir. e não há nada mais sério que isso porque inescapável. olhá-la nos olhos e também dobrar-se, vendo as histórias de um si pequeno cuja máscara grudou no rosto. e não há nenhuma saída, pois olhá-la nos olhos só pode ser olhar a si e seu abismo, e o inapreensível: não se encontrar, nem aos outros, mas ser de alguma forma o tudo e todos que unifica tudo e todos: mais uma vez, com a redundância necessária: a morte.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

que dia...

eu aceitei essa lua,
eu falei vamos-lá pro arco-íris,
eu disse sim,
eu digo,
pode ser aqui, agora, pode ser onde for.

eu disse sim.

e os enredos são
sempre muito meio
retardados dementes
confusos.

não faz mal.

é só isso.
eu só isso.
só isso eu.
só.
inteiro.

sorrindo.

terça-feira, 17 de maio de 2011

de um chão qualquer

Insetos devorando meu corpo.
Insetos devorando meu corpo,
roubando todo meu sangue,
e eu ainda vivo, aos poucos,
rumando à morte.

A morte, já velha,
ainda tem piedade de nós,
de alguns de nós,
mas a queremos com toda a força
de dentro de nosso tutano.

Eu coçava minha perna e sentia
que em cada poro meu eu fazia
com que o veneno descesse mais fundo.
Eu era um colaborador,
um sicofante.

Quando me levantei e eu
parecia uma peneira pensei
e disse a quem quisesse ouvir que
não chegassem perto de mim, tão perto,
que eu não sabia o que poderia vir.

Não seria surpresa, surpresa nenhuma,
se de repente de mim eu começasse a escorrer
um belo terremoto fendendo a terra
e enchendo tudo de pavor e magma.

Não seria surpresa, supresa nenhuma,
se de repente de minha boca eu começasse
a proferir a língua dos anjos e ainda
dos extraterrestres que são nossos pais.

Oh pais, não nos busquem,
não temos nada a dizer.
Ficaremos para sempre
deixados para trás
na porta da escola.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

do metrô

seu filhodaputa
que nunca mais
te verei na vida
e ainda assim
você fez
minha
poesia

de escrituras em encarnações

eu ainda não fiz poesia com você. como que colocando você no meio das coisas do mundo que sou esse eu que não sou eu, mas só fluxos que se ligam a outros fluxos. um mundo de fluxos bizarrão. é que eu não tenho muito a dizer sobre. de repente a planta brotou no meio do asfalto gritando a dor de um desconhecido. e eu vivo essa coisa de um arco-íris com menos cores que as sete e suas misturebas. vai pra um lance como desorientação & cansaço & sacanagem. prum que-seja. que por ser tão novo, tão alguma coisa sei lá, um que-seja bacana demais. demais.

do normal

vamos só ver quão r
etardado voc
ê consegue se
r.

e que tanto
isso
pode ser excitante.

sábado, 7 de maio de 2011

O Presidente Scheisse

De todos meus territórios
me partiam raios
que me caibam.

Ou que me coubessem
antes que eu estivesse explodido
em microcoisas de penúrias.

Meus atlantes me deixaram.
Hamurabi me traiu
ao mexer com pedra.

Que eu lhe falei que não,
que matéria bruta é só pra
gente das mais toscas.

Ou, pelo inverso,
que também é possível chegar longe
percorrendo outra rota.

E revirada a sombra,
subtraída do objeto,
tacanhos são os incrédulos.

Logo por conseguinte,
fazendo lógica de anéis perdidos,
só o barbarismo salva.

Que em minhas províncias ninguém
quisesse tentar falar
na mesma língua.

E a isso lhes devo
tal uma gratidão
que só se faz em urro.

Mas isso de se
levantarem contra mim
faz com que eu saiba de mim.

Ora pois o tiro no pé
é precisamente a pérola
que do nada se fez.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Plumas

vi vocês dois reluzindo muito
como se tivessem comido luz
e queimando e rindo de gozo
achei bonito pra caramba fiquei fitando
rogando pra ficar cego

depois surdo mudo
vegetal

Sonhei uma hecatombe
E ela tinha meu nome
Chamava também passagem do inferno
Aí lá contei os ladrilhos da rua
Por sete meses e meio
Achando que era uma prova.
Era não.
Era só eu.
E eu.
E eu.
Sempre eu.

depois disso todo mundo veio em volta
aquela menina bonita que eu fui na festa de quinze anos
eu tinha doze eu acho
e ela era uma violeta uma coisa assim.
os da universidade com seus sonhos rajados
que eram tigres com fome demais.
tinha uma casa pra defender
e voar era algo besta
que perguntei pra minha prima qual o super poder que ela tinha.

só que lembro não.

Sei se...
A memória pode salvar?
Do fim dos dias?

vocês reluzindo muito
explodindo como a chama que possa fazer tudo queimar
como que é preciso
e rindo o gargalhar mais rugido
como pássaros como diamantes
como verdades do fundo da terra que jorram.

Vocês que moram perto de vulcões.
Vocês que cada um com seu cada qual
fizeram furos em minha pele.

sou sapo.
chove sal lá fora.
manda um guarda chuva alguém aí, vai.

tenho medo de papel.
de qualquer papel.

de repente dobro o medo,
ele vira barco
ele vira pipa
ele vira cisne

Vocês que apertam.
Vocês que vocês.

e eu que eu que eu que eu.

lembrei assim.
lembrei mais não.
É preciso. Queimem minha retina. Não há outro caminho.
Esse mundo é pros cegos.
Esse mundo é pros doentes.
pros aflitos pros pedintes.
pros cadentes.

Sonhei com vocês.
Era uma hecatombe.
Tinha sim meu nome.
Mas não lembro como me chamo.
Não adianta que não lembro.
Se lembrasse, não escrevia.

Explodam em luz, Eu digo.
Deixem rastro por ares.

e como uma estranha alquimia das coisas
logo pensamentos então papel
e que dobrei assim nesse formato
a pele se vira assim
em fogaréu.

E não tem segredo
A hecatombe faz arrepio assim de pele toda
E não tem segredo
O mundo é mesmo de nós, cegos
E tudo aquilo que já disse
E os outros também todos
Com suas vozes mais bravas feito assim jaguares
Mais luminosas feito assim faróis
Lá longe no mar escuro

lembrar salva ninguém não.
é tipo tentar cantar o que foi.
a palavra escapa da boca por tentar dizer.
ela escorrega esbarrando na trave sem fazer gol.
sem vorpal contra o dragão.

melhor intuir seu sangue jorrando
como se eu desenho.
Vulcão que é.

que dizer o que foi na vera
é ficar na casca
E é a seiva que ouro.
Coisa negra tal piche.

Urge o pungente,
não o cascalho.

vocês foguetes
mochilão pela via-láctea.

hecatombe que redime. que é pedra bruta ardendo.

vocês, tão jovens
vocês, meus belos
meus caros, meus belos