terça-feira, 8 de março de 2011

Da Planície de Balaclava

Sei que é banal falar que ontem era ontem, hoje é hoje, amanhã e tal, sendo que o que há é essa coisa contínua disforme amassada. Se me vem assim que tempo é espaço e tudo está assim porque girando. E se movendo. As coisas não param nunca, Julinha, se bem que, pensando bem, às vezes pra respirar. Dê um beijo na Paula que se a deixo assim, bebê, é que pra não se lembre. Estou pronto pra batalha, sabe? Mesmo que eu fique cego. Tenho certeza que muita imagem vou ter antes pra guardar, e minhas mãos vão ter feito tanto retrato. Se eu explodir numa bomba, e minhas cores jamais puderem ter público, e forem tão só minhas, vou ficar pensando que foram tempo e foram espaço. Vou morrer com isso na cabeça, sem saber o que dizer. Quando eu estiver num vagão de carga de um trem que faz seu caminho cruzando o país, como que partindo ele no meio, eu vou pensar assim, assim, no cheiro de sangue que sinto dele. Vou matar com isso na mão, sem saber o que quer dizer. Vou ficar pensando quando durmo, você sabe Julinha, que tem noites já que sempre tenho o mesmo sonhos. Aqueles índios que, fotografados, morriam. O último suspiro deles virou retrato. A máquina é uma arma de crueldade ímpar. Sabe que minha mãe tinha sempre sua cara feita de estupor? A gente dizia: sorria, mulher!, toda a gente dizia, mas parecia que ela só queria nos dizer aquilo mesmo. Uma vez quis parar com ela e fazer uma série mas ela não parava um segundo de falar. Era um pouco impressionante a habilidade daquela mulher. Como se tivesse tanto assim no mundo há ser dito. Mas não, nem há Julinha, espero que você mostre isso pra Paula. Faça umas cantigas de ninar pra ela cheias de silêncio, meu coração. Sabe que me deixei aí com você, não é? Meu respiro, a foto minha, que sua retina tão funda roubou. Se estou aqui agora e preso, ou se vou estar, que eu sei lá o que é esse tempo de presente agora se não um sonho confuso porém gostoso, eu penso que escrevo isso no papel fazendo desenhos e sem falar nada mas de repente estou numa cela tentando grafar as coisas na parede com a unha! Fico pensando naqueles minutos iniciais de uma corrida, que se você dá tudo que pode, seu osso estoura pra fora. Vou pensando junto que enquanto durmo, você não sabe e nem ninguém, eu sonho que tou no fundo do mar e as pedras também são seres vivos que se mexem como a gente. Vejo que elas tem fome. Elas são tempo e são espaço. Não que as outras não sejam, e essas pedras não gritam, e eu fico agoniado que não tenho tinta não tenho mão pra fazer tanto detalhe daquelas pedras! Essa que é minha penitência, me disse o padre quando eu era moleque. Ele tinha uma voz retumbante. Parecia deus, o velho. Não sei até hoje se era ou não. Atrás dele, embaixo da saia, sei lá, uma luz. Eu tinha medo, mas ele dizia que era pra ficar tranquilo, que minha sina não era viver não, era estar aí para as coisas. Desde então minha mão tem dessas de ficar buscando com o que desenhar. Ela que se move nas coisas, Julinha, eu não. Ela que precisou respirar, e assim marcou seu corpo, e espero que eu tenha deixado cores bonitas. Por mais que eu só acredito agorinha nas feias. Depende da noite e do sonho bom. Se eu me concentrar em você não vejo mais seu rosto. Vou dizer que ele é tempo e assim está sempre se escondendo. Os véus de alguém que não lembro mais o nome. Você usava véus, minha linda? Você tomou meu coração e fez ensopado? Você era um daqueles índios? Que que faço com tanta tinta e sangue escorrendo de minha mão? No coração de mim, do país, na fenda que é fim do mundo. Vou morrer com a cabeça de alguém na mão, sem saber o que quis dizer. Sou esse trem atropelando o vento rasgando as plantações devorando com sua luz o escuro defronte fazendo barulho e fumaça incessante parecendo uma grande fera bíblica dizendo tudo com seu ferro todo. Ô trem, Júlia, ô coisa. Beija a Paula. Você sabe que tou pedindo desculpa, mesmo sem saber pelo que. Eu não sei que tintas que pintam ela, Júlia, a desculpa, seu corpo, o meu, a Paula, nós numa cama os três como se em paz. Da paz eu não sei as cores, Júlia. Fica assim.

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