domingo, 27 de março de 2011

Melodia de um Beco

Só sei lidar com
cores fortes.
Só largo o café quando
manchar inteira
a toalha de mesa.
Só paro de brincar
com o isqueiro se
enxarcar a cama.
Só sei te querer
depois de uma chuva
de trovões sem água.
Só deixo o
secador quando
morrer no banho
eletrocutado.
Só compro bem
das valsas
as dissonâncias.
Só levo pra casa
se tiver quebrado.
Só chuto cachorro
que já tá morto.
Só lembro meu nome
chegando em casa.
Só quero comer
carne crua.
Ou sua, ou sua,
ou sua, ou sua.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Com toda a graça, toda a glória

Preciso comprar um belo par de botas novas. Sei bem que é isso. A resposta está do outro lado. Dá pra entrar no rio e morrer afogada assim. 

Estou cansada dos olhares - Por favor, delírio & lâminas de barbear - Eu queria morrer de salto alto e afogada

Fico me chamando sem que complete. Sempre cai. - Começar um novo negócio? Comer mais um brigadeiro? Saia vermelha ou saia preta? - Fatores para um melhor desempenho. - Um manual? Um canivete? - Que com um gole de whisky, talvez, e um bom garotão pro fim de noite. Pra entrar dentro do rio. 
Com toda a graça, toda a glória.

Georges me ligou ontem, Davi anteontem, ninguém hoje, e toda a poesia dolorida do mundo cotovelos machucados. Estranha alquimia. Redimida então a música de corno, e desejosa de pódio. Toadinhas de abandono xoxas, querendo dizer mais - dizemos - mas é só bobagem.

Georges diz que tem um piquenique pra nós no fim do mês um programa legal que tem um livro pra me mostrar que juntos vamos investigar a falta de sentido que podemos até inventar umas setas 

Não quero. 
Fiz um desenho num dia louco. Ele dizia que a falta fica no meio de alguma coisa. O resto é órbita dos deuses. 

minha cabeça, meu joelho, meu dedão do pé. tudo meu, meu meu meu, meu tudo. 

Sejam legais.
Não me contem o final do filme.

quinta-feira, 24 de março de 2011

lendo canetti em praga

1) oi galera, beleza? nesse climinha despretensioso que me assalta no mínimo uma vez ao ano, causado pela exposição a influências radioativas - referência torta ao japão, pobres eles - pobres nós também - estou aqui pra fazer uma narrativazinha do absurdo dessa existência que linguisticamente se organiza em palavras e num recorte pra lhes colocar um pouco de, quem sabe?, alegria na vida.

2) o japão, nossa lisboa moderna. fácil demais dizer. se não fossem os genocídios mais de três quase mil do século passado e sei lá quantos ainda não rolando agora.

3) me divertiu colocar esse título e de repente fazer tópicos, lembrando de uma moda antiga minha, quando eu só queria falar e deixar falar. aí fica assim mesmo.

4) praga é uma cidade estonteantemente bonita. e é tão bom ter amigos.

5) tive uma dor de cabeça filha da puta recentemente. valeu três neosaldinas. e a cabeça que não queria quietar, pensando em inglês, porra de multilinguismos, um quase trilíngue que com fé um dia vai misturar tudo. ou sem fé mesmo.

6)  o lugar tranquilo era uma espécie de um vazio todo sem luz. e era um vácuo também. ficava vindo: emptiness and void. e veio também a coisa de se lembrar recentemente desse teatro torto e do meu brother adrian-doutor-fausto. e da minha brother Mal em Inception, acreditanto que sim há algo melhor (e tendo vivido esse algo, pra piorar).

7) o teatro da miséria não cessa. he. rir das desgraças. não há nada mais engraçado que a infelicidade humana, ou algo assim, disse beckett, um fofo. eu vi seu túmulo em paris, meu querido, não era tão belo como o do cortázar e era quase esquecido, o que não me surpreende tanto já que quase todo mundo gosta de cronópios e quase ninguém gosta de cenários pós-apocalípticos.

8) um beijão

segunda-feira, 21 de março de 2011

quanto a toda a questão dos mil debates e embates possíveis ou como morrer com tzara e mann

de que lado me deixo, não sei,
e não sinto precisão de saber.
(aliás, minto, acontece às vezes.)
(quase sempre perto das 4 da manhã.)

trucado

Aboard At A Ship's Helm by Walt-Whitman - Type: Poem
Aboard The Galley by Kenneth-Grahame - Type: Essay
Abolition Of Catalogues, The by Israel-Zangwill - Type: Essay
Abolition Of Money, The by Israel-Zangwill - Type: Essay
Aboriginal Australian Love by Henry-Theophilus-Finck - Type: Non-fiction
Aboriginal Death-Song by Henry-Kendall - Type: Poem
Aborigines by Anton-Chekhov - Type: Short Story
Abou Ben Woodrow by Christopher-Morley - Type: Poem
About Barbers by Mark-Twain - Type: Short Story
About Boys by Edgar-A.-Guest - Type: Poem
About Censorship by John-Galsworthy - Type: Essay
About Elizabeth Eliza's Piano by Lucretia-P.-Hale - Type: Short Story
About Geology by -Edgar W. Nye- Bill-Nye - Type: Essay
About Love by Anton-Chekhov - Type: Short Story

quinta-feira, 17 de março de 2011

Outra Volta

Pensou em que adiantava mentir. Caminhou mais um pouco pela rua. Deixou o cigarro escorregar da mão. Como se fosse uma mosca que se espantava. Talvez fosse simples. O sol na cara assim não. O óculos escuro quebrado lembrava sei lá que dia. Quanta coisa que já não em cacos. Pensou também no pé meio doído. Naquele outro sapato, o filho da puta. Na calça que quis comprar. Lembrou então que pensava em que adiantava mentir. O bonde passando na rua. A cidade não tinha, na real. Pensou porque pensou naquilo. Questionou. Não ouviu resposta. Uma senhora limpava o cocô do cachorro ao seu lado. Ele tinha o pêlo bonito. Os beijos foram bons. Verdadeiros. Não foram. Talvez foram. Da verdade que se tem depois de beber um tanto. Ô se muito. Pra acordar com a cabeça girando. Engraçado que não tinha calor. O sol na cara não era bacana. A dúvida se tocava a campainha. Talvez era melhor outra volta no quarteirão. Fome! Isso! Mas achava que não estava. Mas talvez. Se ficou em casa noite passada. Se o resto de dor de cabeça fosse só alguma coisa que fez mal. Na barriga. Se só era outro que saiu. E ali dentro esteve mal. Aquecimento interno estragado. Vento gelado que vinha do norte do corpo. A campainha podia estar estragada. Tocou lá e ninguém dentro da própria casa. Isso ontem à noite. Sim, foi isso. Era a terceira volta que dava. Talvez fosse mais simples. Tanta coisa que já tão em cacos. O bonde que não passando na rua. Um ônibus quebrado lá embaixo. Pra acordar com a cabeça no lugar. Um trago de cachaça no bar. Três ruas abaixo, eu acho. Pensou porque pensou. Achou aquilo um círculo. O cigarro queimou a ponta do dedo. Se sentiu um cachorro. Olhou uma árvore e quis ir ao banheiro. Pensou querer. Riu um pouco. Um riso amargo, mas aliviado. Não sabia bem porque ria. Nem se viu acender outro. Se adiantava mentir. Carros na frente dos bois, melhor não. Os beijos nem foram. A campainha talvez ainda estivesse dando choque. O cabelo dela ia ter cheiro de baunilha. Ai que sede, ai que fome. Quem sabe ela não fez bolo? Eu nunca beijei ninguém. Eu nunca saí de casa. Pensou assim. Escrevi essa carta pra você. Engoli antes de chegar na porta da sua casa. E tocar a campainha. E ela deu choque. Espero que você não consiga ler. Vento gelado, norte e sul. Tenho medo. Que quando eu dormir, sabe? Você de repente entra no meu estômago e junta os pedaços. Ou se de repente tudo aparece escrito na minha pele. Ou como você diz, atrás dos olhos. Mas talvez. Ele pensou nessa carta que eu escrevia. Eu não sei que que eu tou fazendo com isso na mão agora. Aquecimento interno tá me fazendo suar. Toma aqui, eu te perdôo. Quero ir ao banheiro também. Quarta volta que dei. Aquilo não passava nunca. Tinha um bonde quebrado na praça lá atrás. Isso ontem à noite. Os beijos não foram bons. Por isso que quebrou. É, o aquecimento. A geladeira também. Queimou a ponta do dedo. Muita sede. Fome também. Será que tem bolo na padaria? Queria de baunilha. Porque pensou naquilo. Não sabia bem porque alguma coisa que fiz. Se adiantava mentir. Diz pra mim. Eu te perdôo. Prometo. Os beijos eram meus. Desculpa te enganar, gatinho. Por favor, a caixa de areia. Porque não comprou aquela calça? Muitas moscas na barriga, meu bem. Meu anjo, toma aqui essa cartinha. Feliz aniversário. Acho que estraguei a campainha. Desculpa os beijos ruins. Desculpa a bagunça, gatinho. Joga fora esses sapatos, vai. Que você comeu ontem? É que fiz bolo. Você trouxe uma carta? Ah, não sei porque pensei nisso. Não sei mesmo. É bom pra barriga comer cartas. Não me olha assim. Come, vai. Tem cachaça. Vamos dar outra volta. Melhor não tocar a campainha. Pode ser que dê choque. Isso, outra volta. Não havia dúvida sobre isso. Sendo assim... Pensou em que adiantava mentir.

terça-feira, 15 de março de 2011

Nada pra conversar com vocês

Eu não tenho nada, absolutamente porra nenhuma,
ou um acúmulo de porra malcheirosa se esparramando pelos cantos da boca,
pra conversar com vocês.

Nenhum de vocês entende porque ficar tanto tempo olhando
uma mísera mancha no chão
mísera porque grita bem mais alto que qualquer grito de vocês
ou de quem quer que seja
num todo mundo junto, vamos lá!, atrapalhado, quando tentam dizer,
de tanto jeito,
que o mundo tem salvação,
que a salvação escorre pela nossa cabeça
deixando nosso cabelo molhado e nossa pele
e que assim fica mais fácil de seguir os dias,
mas não,
não,
não não não mesmo,
a mancha no chão que sabe dessas coisas.

Pra quem, os poucos, que reconhecem o que é belo
no que ninguém consegue ver sem belo.

Pra quem, os poucos, que acham que a beleza que surge sem propósito
grita o despropósito
dos mundos dos todos
todos os mundos de vocês retardados por suas roupas que amarradas umas nas outras os levam à praça
e lá vocês caminham e tropeçam uns nos outros e se pedem desculpas e gritam e urram
e enfiam balas nas caras uns dos outros
e uns e outros com buracos na cara
e sangrando
e ainda assim procurando a porra da salvação.

Eu só tenho porra malcheirosa pra vocês,
mas pro mundo, ela tem beleza explodida de alecrim,
e com cada parede,
e com os sonhos delas,
e com as mãos deles,
que são poucos, já roucos, loucos, e etc oucos,
e com cercas de madeira e com estrume e cogumelos e com quem souber mexer seu quadril assim e com quem fizer desenhos pelas paredes e com quem girar até ficar tonto e explodir e com quem fizer quadriláteros e triângulos e pentâgonos e disser que tudo são círculos no ar com as mãos nuas
são com esses, com esses todos,
pouquinhos raros loucos roucos oucos
que farei meus filhos, nossos,
que serão luz nos olhos que cegam.

Eu não tenho nada
pra conversar com vocês.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Rola?

Ei cara, diz aí,
Você pode me salvar?

Se precisar eu pago.
Não tenho grana não, mas pago.
Empenho o que for.
Prometo sete anos de trabalho.
Posso mudar canais de lugar se tu quer.
Tudo que meu suor puder fazer
Pra você, te juro.

Qualquer coisa pra me tirar daqui.

Olha a janela dessa porra.
Tá embaçada. Mal se enxerga lá fora.
É quase como se não houvesse.

O ar tá morto.
Trouxeram rosas três semanas.
Uma última pessoa que veio aqui.
Como se eu estivesse doente.

Talvez, né?

É que faz muito frio.
Lá fora, e de novo, lá fora,
Todas as gentes, com as mesmas caras.
Li alguma coisa em algum lugar
da última vez que ousei dar um passo.

Não sei se foi no espelho.
Alguém tá me pregando peças.
Achei uma carta de baralho
no meio de um prato fundo de sopa.

Dizia, bem assim,
que esse ódio à vida vinha só
do tanto que se queria ela bem.

Ah, mas que porra é essa...?
Então se a gente pudesse amava tudo?
Que a felicidade, e ficar de papo pro ar, é bem
o que nos caberia se tudo bem?

Ou podemos pensar que,
vamos lá, pensemos juntos que,
você tá ouvindo o pensamento?,
eu perdi o meu.

Você se enfiou no meio da minha poesia,
seu filho de uma puta!
Saiba que essa coisa que
dobra e retorce meu braço
e me impede de me mexer
paralisado de dor em crises que duram
de cinco a sete minutos não sei quantas
vezes ao dia
- E que a gente chama de angústia existêncial aos domingos -
Não tem nada a ver com você, seu porra.

Então vamos lá,
Pensando juntos, atentos,
Podemos pensar que...
Que é só esse ódio que pode salvar a gente.

Não, o pensamento que era antes.
É que deus tirou a gente
daquele belo jardim
a troco de quase nada, né?
Então não adianta porra nenhuma.

Ou não.
Então cara.
Diz aí.
Você pode me salvar?

terça-feira, 8 de março de 2011

Da Planície de Balaclava

Sei que é banal falar que ontem era ontem, hoje é hoje, amanhã e tal, sendo que o que há é essa coisa contínua disforme amassada. Se me vem assim que tempo é espaço e tudo está assim porque girando. E se movendo. As coisas não param nunca, Julinha, se bem que, pensando bem, às vezes pra respirar. Dê um beijo na Paula que se a deixo assim, bebê, é que pra não se lembre. Estou pronto pra batalha, sabe? Mesmo que eu fique cego. Tenho certeza que muita imagem vou ter antes pra guardar, e minhas mãos vão ter feito tanto retrato. Se eu explodir numa bomba, e minhas cores jamais puderem ter público, e forem tão só minhas, vou ficar pensando que foram tempo e foram espaço. Vou morrer com isso na cabeça, sem saber o que dizer. Quando eu estiver num vagão de carga de um trem que faz seu caminho cruzando o país, como que partindo ele no meio, eu vou pensar assim, assim, no cheiro de sangue que sinto dele. Vou matar com isso na mão, sem saber o que quer dizer. Vou ficar pensando quando durmo, você sabe Julinha, que tem noites já que sempre tenho o mesmo sonhos. Aqueles índios que, fotografados, morriam. O último suspiro deles virou retrato. A máquina é uma arma de crueldade ímpar. Sabe que minha mãe tinha sempre sua cara feita de estupor? A gente dizia: sorria, mulher!, toda a gente dizia, mas parecia que ela só queria nos dizer aquilo mesmo. Uma vez quis parar com ela e fazer uma série mas ela não parava um segundo de falar. Era um pouco impressionante a habilidade daquela mulher. Como se tivesse tanto assim no mundo há ser dito. Mas não, nem há Julinha, espero que você mostre isso pra Paula. Faça umas cantigas de ninar pra ela cheias de silêncio, meu coração. Sabe que me deixei aí com você, não é? Meu respiro, a foto minha, que sua retina tão funda roubou. Se estou aqui agora e preso, ou se vou estar, que eu sei lá o que é esse tempo de presente agora se não um sonho confuso porém gostoso, eu penso que escrevo isso no papel fazendo desenhos e sem falar nada mas de repente estou numa cela tentando grafar as coisas na parede com a unha! Fico pensando naqueles minutos iniciais de uma corrida, que se você dá tudo que pode, seu osso estoura pra fora. Vou pensando junto que enquanto durmo, você não sabe e nem ninguém, eu sonho que tou no fundo do mar e as pedras também são seres vivos que se mexem como a gente. Vejo que elas tem fome. Elas são tempo e são espaço. Não que as outras não sejam, e essas pedras não gritam, e eu fico agoniado que não tenho tinta não tenho mão pra fazer tanto detalhe daquelas pedras! Essa que é minha penitência, me disse o padre quando eu era moleque. Ele tinha uma voz retumbante. Parecia deus, o velho. Não sei até hoje se era ou não. Atrás dele, embaixo da saia, sei lá, uma luz. Eu tinha medo, mas ele dizia que era pra ficar tranquilo, que minha sina não era viver não, era estar aí para as coisas. Desde então minha mão tem dessas de ficar buscando com o que desenhar. Ela que se move nas coisas, Julinha, eu não. Ela que precisou respirar, e assim marcou seu corpo, e espero que eu tenha deixado cores bonitas. Por mais que eu só acredito agorinha nas feias. Depende da noite e do sonho bom. Se eu me concentrar em você não vejo mais seu rosto. Vou dizer que ele é tempo e assim está sempre se escondendo. Os véus de alguém que não lembro mais o nome. Você usava véus, minha linda? Você tomou meu coração e fez ensopado? Você era um daqueles índios? Que que faço com tanta tinta e sangue escorrendo de minha mão? No coração de mim, do país, na fenda que é fim do mundo. Vou morrer com a cabeça de alguém na mão, sem saber o que quis dizer. Sou esse trem atropelando o vento rasgando as plantações devorando com sua luz o escuro defronte fazendo barulho e fumaça incessante parecendo uma grande fera bíblica dizendo tudo com seu ferro todo. Ô trem, Júlia, ô coisa. Beija a Paula. Você sabe que tou pedindo desculpa, mesmo sem saber pelo que. Eu não sei que tintas que pintam ela, Júlia, a desculpa, seu corpo, o meu, a Paula, nós numa cama os três como se em paz. Da paz eu não sei as cores, Júlia. Fica assim.

sábado, 5 de março de 2011

Exato!, Como Ela Disse

O que era o incômodo em vistas da altura daquele lugar?, se perguntava assim como de sopetão, mas calada, que não era nem um pouquinho de arroubos. Mas se já estava lá, faria então assim, o que tinha a fazer. Ninguém pode fazer nada além disso. Acho assim que tem uma cota fechada, uma caixinha, e dentro dela o conteúdo da coisa que deve ser. A seguir. A altura dava aquelas idéias, se dizia assim de sopetão. Me contou tudo por telefone depois. Achei melhor anotar, porque hoje em dia, nunca se sabe. Ela jogou as flores lá de cima. Tinha pego uma de cada túmulo, crisântemos, tulipas e violetas.Quanta simpatia não devia ter aquele vento. Alguém ali perto conversava em espanhol. Engraçado que o outro respondia em italiano. Parecia, ela me disse, quando ela conversava com deus. Exceto que não tinha resposta. As flores eram pro vento despedaçar. Alguns pássaros cantaram, outros só olharam. Esse nível de detalhamento só cabe mesmo em ficção. Não há possibilidade de gravar nada fora disso, parece. Lembrou aquele dia que a gente no cemitério. Que que colocariam em cima da sepultura, ela pensou? Que que diriam quando morresse? "Bela foi Susana, coisa e tal." E o vento? Só ventava, que nunca respondeu nada. Eu que sou eu tentando grafar ela sou como uma piada mal-contada. Como aquele vento também, e outro hoje, que trouxe um movimento de uma peça musical. Movimento velho, devia já ter morrido, como qualquer coisa que se valha. Esse mundo cansa minha beleza, ela disse, e que esse chá não adoçava a boca o suficiente. Tomo chá agora pra tentar entender. Entender que é bom, nada, nada a ver. Tá quase entardecendo aqui. Como assim que você morou em Berlim e nunca visitou o Muro? É que cheirava a gente morta. Eu que já me basto. Tou enchendo a boca de chocolate, ela me falou, pra ficar mais difícil de falar pra você e pra aguentar a vertigem. Eu que não tava entendendo mais nada, escrevo aqui pra fingir que consegui. Pra aguentar essa viagem, mais longa do que seria cabível. Que idéia, Cabral, fazermos isso de barco. Esperasse um tempo e inventavam o avião e dava tudo na mesma. Mas que a gente sabe que, como num jogo de cartas, não dá pra dizer: "mas se eu tivesse um sete de copas". Mas não tinha! E pronto.

quinta-feira, 3 de março de 2011

De Velhos Olhos

Difícil explicar que gostei de você, e o tanto que foi, e intuir pelo que foi, e imaginar o que seria agora tocar seu rosto e te beijar. Eu era tão menino. Pareço um otário falando isso, mas é verdade. E já aconteceu mil vezes depois. Sempre com um signo levemente parecido com o seu. Não de constelação nem nada, mas de jeito das coisas mesmo. Um pano de fundo o mesmo: mas não sei que tom ele tem. Aliás, não sei direito. Tem alguma coisa que percebo, mas é escuro. É que ele não é feito de uma coisa que a gente coloque pelo cabível. Ele é todo o residual que toda cada vez me deixa meio embasbacado: "mas porque exatamente?". Essa inquietação de não saber resposta motivo que me coloca olhando, geminado no amor, o disparate que é a existência. Difícil dizer que isso é gostar assim. Mais pro lado de uma espécie de um arrebatamento, uma corda que puxa o pé pelo avesso ferindo justo o calcanhar. Não! Não sou herói grego nem nada! Me toma de novo nos braços, meu Romeu! Você que ia me fazer ir por aí no seu cavalo branco que era um carro velho! Faz! Acontece! Tira o coelho da cartola! Encosta na minha pele e vira ouro a seguir! Desculpe o excesso. É modo de dizer, na verdade. Que só e tão só pelo excesso que imagino que poderíamos espreitando, com muito cuidado, a fera e domá-la pela garganta com uma faca de cozinha. Para então se abandonar. Porque as coisas precisam seguir um ritual. A dança sabe disso tão bem, e do que é que a dança não sabe? Difícil explicar, porque explicar é uma parada difícil pra coisa qualquer que seja, difícil até mesmo dizer que diabos que é uma explicação. São mais de seis anos que ainda de vez em quando eu me pego a imaginar que aconteceria se sua pele encostasse na minha. Acho que explodiriam bolhas. Em mim, sim, por dentro, mas principalmente no lugar do toque. Eu morreria do seu veneno como um culpado. Só pra fazer de você assassino. Só pra ouvir você pedir clemência. Chorar baixinho. Como uma cadelinha. É ainda esse o terceiro gume: onde o indevassável, dentro da cabeça de uma agulha, segue rumo. É bem lá naquela curva, com uma escadaria. Onde as moças sabidas riem largo.