domingo, 27 de fevereiro de 2011

Movente

Ao som de bolero,

Tudo isso é tão só
Uma forma que qualquer
De dizer: vem!,
Vem dançar comigo.

Seja lá, que vá, um baile
Em meio à terra, arrasada,
Dessa enchente que deixou
Tanta dor nos escombros.

Pra melhor, uma valsa,
Vamos que sim, que mexer
As pernas braços quadris
É o melhor a refeito.

A velha ciranda
Da mão de todos enlaçada
Para o sempre e todo,
Que é só o que resta,

Que é só o que lastra.
Retirar do fundo da dor
Funda algo pra fundar
E afundar os desmundos.

De tudo que é mover
Que puder ir haver 
Revolver, deixar em estilhaços
As velhas muradas.

Que tudo quanto
Qualquer já disse
É tentar mesmo sem ver um:
Vamos!

Irmanadas as mãos,
Os passos, os pés.
Esmigalhar o desespero
A golpes de marreta

Ao som de bolero.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

sístole-diástole

lá nos mercados de camden town eu perguntei: comofaz pra trabalhar aqui? o cara francês de marselha. disse que ia procurar pra mim. eu ri por dentro. por fora agradeci. na chegada da gare du nord li o último capítulo da de uma lineariedade possível dentro do Rayuela do cortázar. terminei, e bem na hora a voz disse Paris Gare Du Nord. dessas loucuras mágicas. que magia é tão necessária pra viver, e essa felicidade é louca. absurda. extrema. quero achar os meios para. quero ferrar os meios de mim também, me veio assim. ler Rayuela... preciso desenhar um jogo da amarelinha na parede, em cada parede, tatuar em mim. (lyanna, favor não copiar a idéia, obrigado. rs) lembrei de um monte de gente lá em londres, mais do que em paris, perdidamente apaixonado que fiquei por aquele lugar. e só agora que sinto que posso sugar o tutano de paris, que é preciso, que se entregar não é pra mim. essas forças que vem de fendas. essas coisas de mim que todas sagradas nenhuma delas. uhum, o cd novo do radiohead saindo, eu baixando ele agora, amanhã mudando de metrô pra ir pra Grands Boulevards, não se pode dormir tão tarde, e a diferença de fuso com o brasil agora é de quatro horas, eu durmo tanto, que diabo é isso, eu tanto de tanto de tanto. um beijo.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

uma graça

all the cool kids of london, to eat them all like a t-rex. essa cidade explodindo pela minha pele, no meio do british museum eu, embasbacado pelos milanos de histórias. e o charme dos ônibus vermelhos. esse mundo é pra mim e é pra ele. é pra si. o detalhe do tecido dos assírios, em estátua, ou o que tem de áfrica na arquitetura bahaus, é, no bahaus. londres, eu te comia fácil.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Por toda uma chuva

De frente a um canal, eu pensava em escrever, e intuía a falta de você escorregando sem querer pra dizer: sai pra lá, cova!, tão jovial, e ainda luzindo, quase cegante. Dessas coisas que é bom não pousar o olhar por tanto tempo, menos ainda o gesto. Vou evitar a vontade de me jogar na água, bêbado, cortejando o assassinato como um tolo. Que eu sei que a mim mesmo, eu não estaria matando, não a mim, mas como a um outro qualquer, um otário meio muito depois de várias garrafas, juntadas no canto do banco. Se alguém passasse e me olhasse, eu poderia rosnar. Mas preferi ficar quieto e sorrir para cima. Aquela vida era boa, melhor que outras. Aquela cidade era boa, mas não como um doce. Também não era boa. Sua grande coisa residia justamente naquilo que faz a pele arrebentar num dia quente. Por mais que ali o tempo fosse tão... Como queremos dizer? Mediano? E ainda assim tão altaneiro. Eu entrevi seu olhar embaixo da água de um canal. Perdido, por entre a pele de um peixe, que deveria haver ali. Você cantava uma canção de nick drake, mas ao invés de falar amor, dizia faceira ou algo próximo disso "camaleão", com um levantar irônico de canto de boca. Eu queria saber aquela velha arte que chamam, como é mesmo?, "compreender". Palavra bonita. Que é que ela faz com nossa língua? Vi você também caindo da torre, não rapunzel nem andorinha, mas ainda reluzente. Você tanto assim, parecendo árvore de natal acesa. Eu não podia compreender. Era a queda de um ditador, era ramadã, os vinte mil véus da realidade recobrindo nossas bocas e jamais conseguiríamos, ainda assim, impedir que o seu positivo e o meu negativo, mesmo que só palavras e lugares fechados, ainda que com um pouco de claustrofobia, mas leve, como prestes a um desmaio, e dizer prestes faz pensar em meus pais, fazer com que eles não se grudassem até o eterno dizer que chega. Mas não chega, não é, gatinha? Não chega nunca. Eu queria fumar um cigarro agora, mas pode ser que queime o jornal. Vou me deixar ir nesse mundo de novidade, quem sabe não encontro um abrigo? Que comece com uma letra que eu ainda não possa ter sonhado com. É preciso, sabe? Querer mais.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Mais Forte

Um espaço de mim, entre as três e quatro da tarde, é puro deleite, e completa negação, e entulho, quando ouço cada carro que passa imaginando que dentro, um cão, um rato, um coelho, se dirige em direção à sua casa, e que de repente o carro vai flutuar em direção ao sol e derreter.

Como se fosse um cigarro.

Pois sim, e não, obrigado. Eu preciso dizer, cara, rapaz, preciso dizer assim, digo de pronto, sem muitos maneirismos, que você tem estilo. Tudo bem que ter isso que você tem... Sabe? É, você entendeu, né? Acho que sim.

Fica tudo bem assim.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

eu não sei porque mas prefiro não contar a quantos dias estou aqui

quase todo o dia, antes de dormir, eu leio um pouco. na rua mesmo, no frio, com o cigarro e tal. às vezes com cerveja, a mais barata, latão, e de nível alcóolico 7,2%. normalmente com Querelle. essa noite até sonhei com ele.

outro dia eu também lia Querelle numa espécie de galeriazinha, que era entre uma rua e outra. lugar bonito pra caramba, com lojinhas notáveis, livrarias de coisas velhas e os cafés. charmoso mesmo, daqueles clichés parisienses.

vc sempre tem vontade de beber muitos cafés. e eles sempre são bem caros.

paris é muito muito muito bonita mesmo. mas só consigo lembrar do título do conto do caio. "paris não é uma festa". vou passar essas semanas todas pensando no mundo de oportunidades e vou morrer quando for embora, pensando mais num mundo de oportunidades. o tanto de pensamentos contraditórios que passa na minha cabeça sobre isso tudo... sei nem como articular direito. e difícil demais dizer o que vai ficar.

e não é verdade, pelo menos não mais, ou não agora e não hoje, que aqui sou o mesmo. sou completamente outro.

e é claro, pensar como isso tudo tá tocando minha pele. e pra variar, meus sentires são tortos. acho que vejo um residual de mim... como combustível velho dentro de uma garrafa que tá ficando cheia de coisas novas. não ter idéia do que vou virar, na verdade. intuir uma coisa e outra. isso tudo me mata e me arrebenta e me alimenta. pra engasgar e vomitar, pro que seja. bom.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

em paris, a primeira quinta feira

o lugar muda, a pessoa necessariamente nem tanto. acho que a cada novo dia preciso dizer pra mim o que isso tudo aqui pode me dizer. os sentimentos são os mais confusos, de um jeito único de serem confusos. aí no caso sim, confusos de um jeito muito estranho, porque estou aqui. com frios na barriga e delícias surreais.

o que me trouxe a escrever aqui foi que eu tou ouvindo agora uma música do Leonard Cohen que se chama Joan of Arc. adorando ela. não gostei de Cohen na primeira vez na vida que ouvi, há uns cinco anos atrás. agora tou achando muito massa.

me fez lembrar que ontem na Notre-Dame. foi um dia completamente inesperado. fui encontrar um cara de couchsurfing na estação Odeon. vi os macarrons dos quais Marcela me falou pela primeira vez, numa confeitaria belíssima. botei sal num café por acidente. o ar daqui me confunde, e o idioma.

andamos para caramba. eu não tinha ideia de por onde estava, e ele me foi falando. passamos perto na frente da Sorbonne. andamos pelo Quartier Latin, um dos bairros mais antigos de paris, se não o mais, sei lá. conheci a Notre Dame. o Centre Pompidou. tanta coisa bonita pra caralho que eu vi num dia só. preciso andar muito por lá ainda...

mas na Notre-Dame tinha uma estátua de Jeanne D'arc. tão viva na minha cabeça está ela. era horário de missa, tocava órgão... comentei com o Alex, esse amigo: "alguém poderia resolver se tornar católico de sentir esse órgão tocando na pele, dentro da Notre-Dame..."

meus percursos vão se fazendo... de jeitos estranhos. do meu jeito torto.

ps: hj vi uma exposição de fotos da amazônia aqui. no montmartre, perto do café da amélie. achei curioso.
pps: vi uma galeria, perto da place vendôme, dum artista brasileiro que achei BEM bacana. chama Juarez Machado. recomendo um google images nele.