segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

em paris, dia dois

parece que escrever aqui é não viver. a sensação é tão curiosa, porque um milhão de vezes precisei escrever pra viver melhor, e aqui é quase o exato oposto. mas é que existem uns três ou três mil jeitos de se sentir vivo, e todos eles são do meu agrado. tenho uma coleção de prazerezinhos, nenhum deles minimizados pela dor nas costas.

é isso mais ou menos que penso sentado no chão do albergue, mesmo com a dor nas costas. e faz um frio da porra. coisa que eu nem sabia imaginar. cerca de zero grau. ando por aí empacotado. já tou me acostumando. definitivamente eu prefiro frio que calor. tipo um milhão de vezes mais.

fui parar no jardin des tuileries por acaso. eu tava procurando o champs-elysées e resolvi mudar de rota ao ver uma estátua no meio da place vendôme. valeu a pena ter mudado de rota. acabei não indo nos campos elísios. no jardin, que provavelmente é o lugar que mais me capotou até agora, tinha uns patos na água quase congelada toda. e os patos iam metendo o bico no gelo e ele desfazendo. era bonito de ver. parecia ofício de artista.

as malas me doem. as pernas. imaginar tudo que pode vir me dói. o que pode não-vir é tipo foda-se. é o início de alguma coisa e me sinto surrealmente incrível.

tanto mais a querer ser dito, mas é bom que não se diga tudo. ou que não se escreva. ou que sei lá.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

agorinha já é sábado

dirigir no escuro, como foi ir pra goiânia recentemente, diz muito sobre o que que vem em breve. ainda tentando agilizar toda uma correria. as coisas não param, e rola um cansaço enorme nesse momento. e uma paz cabível, porém estranha. chega agorinha... chega loguinho... é isso...

domingo, 23 de janeiro de 2011

Testemunho

Que eu não devo nada a ninguém.
Que eu devo a ninguém o nada.
Que eu ao nada devo ninguém.
Que nada, ninguém, eu devo por ninguém.

Eu não devo nem a outrem, nem a mim,
qualquer de meus gestos.

Cada um que seja
Meu resfolegar
Pelo tanto ao redor:
Só pelo sabor de dançar.

Meu corpo, se mova, sim,
Espasmos que sejam,
Mesuras que sejam.

Mas tão só pela dança
e mais nada:
é pelo que me movo
e por onde.

Deriva

Saindo num jato assim de mim, jatos fortes. Será que os dragões eram mesmo naves espaciais? É possível. É possível. Inventa mais um céu estrelado no céu a te guiar, ou come um ovo frito. Inventa mais alguma coisa, que o chão não pode ser tudo. Tudo isso não pode ser e não deveria, e ainda assim é, ou é o problema de mãos. Todas essas mãos que ficaram pelo caminho. Eu estendi pro alto, várias vezes, meus gritos, pensando que quem sabe viriam me salvar. Ó meus irmãozinhos intergalácticos, pais, mães, animais, ou pode ser o que. Tocar uma velha canção no rádio e eu pensar em vocês. Eu querer que meu corpo, que agora é corpo, com toda sensação de corpo que é consciência de corpo que é estar de corpo que é mover de corpo tremer de corpo frigir de corpo, eu querer. Filhos da puta, porque nos deixaram para trás? Para poder tremer os ossos? Pra enfiar a cara na lama depois de uma porra de um deslizamento de terra, de uma chuva sem fim eterna, de derreter ossos e mobília. Pra de repente morrer e reviver, sobrevivendo, ter vislumbres e achar que é pra mais. São vocês, irmãos intergalácticos? Digam lá. Conversem conosco. Vamos ser amigos!, galera. Vamos ser amigos, pelo amor de deus, que essa solidão daqui é desespero requentado. Coisas de tantos que não tem a mais a dizer que acham que não vale.

Cara... Esse tentar é problema das células... Alguém tinha de inventar uma solução, mas acho assim que quem sabe... Tem aquela coisa... O ar que a gente respira é o mesmo que nos mata, e é assim e foi desde o início dos tempos. Imagino que isso diga algo sobre essa racinha... Raça, coisa e tal, do caralho que somos, persistentes e tal e coisa, que beleza. A gente vai longe, né? Com fé. Não solta da minha mão.

sábado, 22 de janeiro de 2011

o texto é o mesmo, mudam os atores

eu sempre entrevia
antes
eu sempre antevia
entre
que era meu gesto que dava forma
ao seu contorno.

e que de minhas mãos saia sua glória.
que eu deus do meu mundinho,
um pobre burguês autoral,
ou um anarquista em devir,
ou qualquer pretensão tensionada e distendida
quilômetros e quilômetros
como nylon.

eu que sempre sempre.
você agora, nada, nenhum, ninguém.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

pé na taba

abraçar o desconhecido. parece coisa de livro de auto-ajuda, mas é real. acho que é uma maneira de não enlouquecer. ou pelo menos, de enlouquecer o jeito certo. cada vez mais penso que a vida não pode ser mais nem menos do que esse lance de andar mesmo. é preciso uma espécie de fé, ou um medo filho da puta mas ainda assim uma coragem de seguir, coragem irmanada no medo assim como o ódio no amor, e vamos indo.

tava lendo o blog de uma pessoa querida, o bernardo, e vi como ao se ver sem grana, o bicho tá cogitando não voltar pra onde esteve antes. e se virar de outros jeitos. inspirador.

se virar de muitos jeitos e vir a ser os muitos possíveis de mim. fica sendo isso pro meu 2011.

(não deixo de ficar tratando isso como se eu precisasse fazer dizer o que meu 2011 há de ser... acho curiosas essas manias que tenho. acho que cabe uma reflexão. vou levar como dever de casa.)

(noite passada as ansiedades me fizeram demorar dormir. ó vida.)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Um Hino

O abandono fez de meu corpo,
que deixado inerte
aos abutres, na cama,
camadas e relevos.

Como vento que repetido
desenha na rocha nua
parecendo que dança.

E é só porque ela não tem veste alguma.

O abandono fez canção ressoada,
feito escarro, feito feitiço,
bola de gude que é bola de cristal,
varinha de condão que é vara de pesca.

É só uma gripe!, que veio do norte,
com o vento, com a canção,
com o sétimo selo e o silêncio.

Uma mandinga qualquer!, do outro lado do mar,
derrubando paredes e a extrair
delas o sumo o caos, que escondido.
...Pudoradas que são as coisas!

Uma com a outra no jogo que não sei
se são palavras mas elas reluzem tem outra que é mais
opaca e uma valeta fez com que duas ou três sumissem.
De dois ou três de nós que sumirão no futuro
perdidos porque se sabiam.

Saber é um perigo, já disseram.
conhecer a si mesmo é sim,
dos pecados, o pior.

Abrir um buraco no gelo.
Antes: procurar minhoca
na imensidão branca
pra conseguir comer.
E vai ter sim, vai ter espinho, pra ferrar a boca.
Isso vai sim, sempre vai.

Que meu corpo, feito um abandono que tomba cantando.
Feito pássaro sem asa, meu corpo.
Feito de barro e lava, e minhas unhas sempre sujas.

Que mexendo nas coisas que ninguém
e a tinta entrando pelos cantos.

Que mexendo nas casas que ninguém
e a mobília lapidada pelo vento
se diz vales e penhascos
pra gente brincar na beirada.

No bolso, uma moeda, que vale,
de ouro, chocolate.
Come que o monstro não te pega.

Olha lá embaixo que o abismo te invade pelo olho
e vertigem
é se ele fizer de você vento.

Grita pra realidade,
trata ela como puta,
toma ela de pernas abertas.

Sussurra pra realidade,
trata ela como dama,
canta pra ela tirar a roupa.

Ou come a realidade como se fosse chocolate.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

assim assim

fim do mês estarei em paris. tou aqui na frente do pc pensando coisas como queria estar lendo queria estar vendo filmes queria ter mais tempo. bem que tudo bem que ainda assim vai tudo bem. e estranho que vá tudo bem. a paz volta e meia me assusta. pensar em semanas atrás também. ou até no anteontem. ou nas vozes nas suas cabeças. tudo meio que me assusta e escrevo isso rindo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

o que foi 2010 pra mim em teatro (parte 1)

Que umas mil e muitas vezes já utilizei metáforas cênicas pra pensar minhas coisas. Fico voltaemeia incomodado de pisar nos mesmos palcos... Mas que seja. Faço limonada com as laranjas que tenho. 

Quando comecei 2010, eu não tinha o mínimo vislumbre dos transbordar de intensidades que seriam momentos que vim a ter.  Mas uma coisa eu tinha clara: eu queria ir mais ao teatro. E fui. Menos até do que gostaria, perdi uma ou outra que não queria ter perdido. Foram em torno de vinte peças, das quais pouquíssimas não gostei ou gostei pouco. a maioria foi muito boa ou excelente, inclusive me deparei com experiências estéticas que me tocaram profundamente. Foda num nível bizarro até.

Comento uns destaques. Calígula, de Albert Camus, com o Thiago Lacerda no papel principal. Fiquei com muita vontade de ler a obra. A peça foi regular, ao meu ver, mas a interpretação do Thiago... caralho! Visceral. Essa lembro que vi com Mari Du. Vi A Tempestade, de uma companhia portuguesa, do texto do Shakespeare. Foi um teatro bastante imagético, com momentos belíssimos, mas que não me pegou grandão não. Lembro que a Tati tava junto. Guerra, de uma companhia italiana, muito tocante, com alguns atores amadores, gente que já esteve em manicômios inclusive, com uma cena particularmente incrível, que não me sai da mente, de um cara em pernas de pau, com um nariz postiço enorme, fazendo voar cocaína. Essa lembro que o Nogueira tava.

Dies Irae de Mozart, de uma companhia espanhola... Aterrorizante. Tocava o Dies Irae, mas não só. Era coreografada, intensa pra porra, com uma mensagem política de questionamento ao catolicismo e ao patriarcado bastante fortes. Intensa pra porra. A maioria do elenco era de atrizes. Tinha, porém, um cara gordão que ficava só de cuecas, todo pintado de branco, muito macabro Lembro também de uma cena em que a mulher fala sobre o modo em que matou seu filho, com tanta felicidade, repetindo várias vezes "que bonito!". E de outra notável, em que eles envolviam de plástico uma mulher sentada numa cadeira, de modo deixando só o nariz para que ela respirasse. Ela ficou parecendo virgem maria sentada. Tudo muito de foder mesmo. Lembro que vi com a Tati.

Kafka, baseada ficcionalmente na vida do escritor, relatando principalmente sua juventude em sua relação complicada com o pai, e fazendo uso de personagens e situações marcantes da obra do autor interagindo com ele. Uns momentos bastante interessantes, mas não achei absurdamente incrível. Porém, foi bem legal. Vi com Lu Molina.

Aqueles Dois, baseada no conto do Caio Fernando Abreu, foi incrível. Belíssima. Num tom quase teatro pop, porém bastante intenso como pede o conto. A adaptação foi maravilhosa, e o uso de quatro atores e repetição de cenas me deu uma sensação de essa história de amor é a história de amor de todos. O uso de objetos foi um primor, sendo que eles eram trocados no palco, que era no centro e o público em volta. Tudo bem vintage e lindo. Tudo bem natural também, como se você visse mesmo algo como a vida na sua frente. Vi de mãos dadas com uma das pessoas mais ímpares que já conheci, e que conheci em 2010. Aliás, não consigo pensar 2010 sem pensar nessa pessoa.

Aí vi a performance de arte e sociedade, uma disciplina cênica (!) do departamento de sociologia. Não me chamo Nicolas Behr. Curto bastante a obra do Behr, e tenho uma ligação forte com Brasília, pela beleza da cidade e por ter nascido lá. Foi bem legal. Interação com o público, uso interessante do texto, e uma energia de um amadorismo muito bonita. Essa vi com a Rebecca.

(continua no próximo post, rs)

intratável

Velho, não adianta, te levo na mala comigo. Tou te levando pra tudo quanto é lugar que eu acho que a gente devia ter ido junto, tou fazendo você olhar pelo meu olho, tou cantando pra você tanta música. Não adianta.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

da virada do ano

que um começo com tanta água, vinda do céu, vindo do chão que de canos que duma fonte em chafarizes, faz pensar num mundo de coisas.

que água é fluxo. que água é mãe. que água é amor. que somos feitos de água e tal e coisa. que água escorre da gente. que signos de água são algo em minha vida recente. que tenho vênus em câncer, mas plutão em escorpião, e sei lá bem o que isso talvez bem queira dizer bem. que água mata explode células. que em excesso estoura. que balão de água. que banho demorado e quente. que a chuva em macondo por quatro anos. que havia rios demais naquelas terras. que rio em belém. que rio de janeiro. que rio pomba. que oceano mar. que caminharei pelo sena. que seguirei pelas ondas. que coloquei garrafa no mar. que a björk fez cds falando de águas. que tem músicas pra iemanjá na vida. que tanto se fala de pescadores e. água, que tanto me fascina. que tanto de coisa que é. que será.

a primeira parte de uma pseudo-retrospectiva de 2010

Há. Começo dizendo que pode ser que essa primeira parte seja parte-única, rs. Mas sinto que não. Há muito a se pensar, e muito a se registrar.  Começo de 2010 eu fiz um post falando do que tinha sido 2008 em faltas. Acho curioso que eu não esteja impelido a pensar assim sobre o ano que passou. Apesar das dores e sobressaltos, e o ano de 2010 foi meio que mesmo uma montanha-russa, as faltas que ficaram são faltas que ficaram. E que me doem, obviamente, mas não de um jeito que me faça ter alguma vontade de revisá-las. Talvez porque meu sentimento final em relação a 2010 seja vitória.

Percebo que isso tem um tom de carta pública. De certa forma é. Ainda tenho meus ressentimentos e rancores com o ano que passou e situações, mas tenho a sensação forte de que de, certo modo, cheguei a um nível de auto-conhecimento curioso. Contudo, ainda negando o imperativo socrático do "conhece-te a ti mesmo", nessas minhas dualidades antitéticas curiosas. É que meus traçados não podem se ater em finalismos, que me aprisionam. Mas eles não vão por si pura e simplesmente num fruir sem fim. O fato de não saber onde vou chegar dói e me acalenta.

Então digo que 2010 foi um ano chave, ou um ano de chaves. Que eu me percebo, se eu uma constelação, as estrelas de mim. Que eu brilho, também. Que minha vontade de intensidade segue, e muito forte. Que a vontade de serenidade não é oposta. Que os opostos não são irreconciliáveis. E que belezas que muitas eu tive em 2010 me marcaram e me marquem e me deixe vestido de terno de beleza e cantando pra ficar odara.

Rs. Vi que essa revisão não foi muito uma revisão, mas sei lá porque não tou muito pra essas ondas. Vamos ver pronde que vou. beijosmil

(engraçado pensar que eu acho que essa é uma carta ao público, mas que tem destinatário, mas que sei que cisnes refletem elefantes, logo eu cisne tu elefante eu elefante tu cisne e aquele elefante de gravura hindu formado por vários corpos que eus também e que sei lá sei lá sei lá)

domingo, 2 de janeiro de 2011

se é pra dizer um começo

as coisas se atropelando, rolou uns fogos, rola chuva, os acontecimentos acontecem e se desenrolam quase que um em cima do outro e se essa cidade tivesse ladeira não parávamos nunca de rolar ladeira abaixo. e se assim eu esfolasse meu corpo inteiro, mas não, estou quase brincando de holden caufield, e com uma naturalidade de bailarina com domínio do ofício do corpo. é que ela sabe, e eu também, que o movimento é sempre dança. artesanar, arterrorizar, artear fogo, e tal e coisa. anos que se acumulam, eu tenho algo a dizer e algo a pensar sobre o que passou, eu só não pude parar ainda e respirar direito esse ar de novo. não reclamo, que viver e seguir e ser, do jeito que as coisas vão e sem pesares de mundos nos ombros, é bão e é bunito.