quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

milho pela sala

sentindo que as formas de gelo, e eu água, pra ser colocado na geladeira, tão me apertando por lados de cá e acolá que nem sei bem direito quais. fico pensando mundos a serem conquistados antes de sair do quarto. abrindo a porta, esqueci o nome da primeira cidade a começar, deixei o papel com o plano voar pela janela, perdi a toada de fazer o discurso pra mobilizar multidão. minha aldeia é tão pequena, mas o mundo é uma aldeia, o mundo não é maior que meu quarto. de qualquer forma, preciso cantar, que sou pássaro, eu acho. talvez eu dentro da gaiola, talvez uma hora só as penas, talvez eu gaiola, talvez imagem nenhuma, não é? explodir os limites disso, por dentro, fazendo big bang no meu intestino. ah!, textualidades e indizibilidades da vida!, ah corpo!, ah glória!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

alguém pra

alguém pra beber a vida juntos, pra dizer o que dos dias sobrou marcado no fundo e fez o coração arder colorido e confuso, pra tentar achar pra onde a cabeça foi não foi e pode ir como cabaça num jogo de bola,

alguém pra dizer do pôr-do-sol e de formas nas nuvens, e achar os tons de verde que mais raros, ametistas que se perderam em pó de estrela que da noite foi mas ficou, ficou assim com gosto de dó,

alguém pra tanto de simples-pungente que precisa se fazer

alguém pra mais

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

pro ibope

aí xuxa, essa parada de natal...

é como que um ritual pra neguinho repensar a vida, o ano, etc. pra dizer os eu-te-amo que nunca diz. tou puto com. adoro rituais, adoro novas chances. mas sei lá. tipo que a simbologia jesus cristo nascendo já me disse mais.

aaah... e é uma data fofa e lalalá. sim, a mim não tá me tocando mais.

é que talvez família é o que fode nisso tudo. e família muito me fode nisso tudo.

ah, mas que preguiça...

tenho tido preguiça de dizer. é sempre estranho estar viajando. preguiça até de falar. enfim, esse post chama: preguiça. (o bom é que tou de boa com isso, rs)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

ano-novo é sugestivo pra essas coisas

«Quantos seres sou eu para buscar sempre do outro ser que me habita as realidades das contradições? Quantas alegrias e dores meu corpo se abrindo como uma gigantesca couve-flor ofereceu ao outro ser que está secreto dentro de meu eu? Dentro de minha barriga mora um pássaro, dentro do meu peito, um leão. Este passeia pra lá e pra cá incessantemente. A ave grasna, esperneia e é sacrificada. O ovo continua a envolvê-la, como mortalha, mas já é o começo do outro pássaro que nasce imediatamente após a morte. Nem chega a haver intervalo. É o festim da vida e da morte entrelaçadas.» [Lygia Clark, 1967]
(fonte: http://jaguadarte.blogspot.com/2010/02/nem-chega-haver-intervalo.html)

como período de virada a vir. tou aqui em rio pomba e a vida aqui sempre passa nesse não-ritmo estranho. com a diferença que o que tem acontecido e o que tem sido e quem tem me dito e etc, tudo isso assim, me tem sido meio alheio.

tou ficando tempos e tempos na internet, indo parar de um lugar a outro. vale a pena clicar no link e ver a foto de lygia clark. tou me divertindo lendo mil coisas, pensando mais um monte. as imagens de lygia. de couve-flor, imagem esparramada, pra pássaro, que voa, leão que urra. a ave que morre, prefiro que com o pescoço torcido, como já fez minha avó um dia. as histórias que meus pais me contaram são hoje minha carne que eu fiz.

entre uma coisa e outra, é verdade, nem chega a haver intervalo volta e meia. existe aquela morte arrastada, morte UTI, morte sacana e filhadaputa. uma morte súbita parece mais atenciosa, se pensar assim. não dá tempo de dizer tchau, logo me ergo em protesto. é. não dá. quase nunca. tchau. e oi. hello goodbye you know you make us cry.

terminar com uma imagem tão minha que tão obscura que nem sei de onde ela saiu de dentro pra fora e que canos de meu corpo que ela escapou. o urso do cortázar pelas águas dos apartamentos fazendo barulhos nas tubulações e ocasionalmente acariciando os rostos. todos nós doemos muito, que gracinha que somos. lembro uma vez com uma amiga que falamos de ficar abraçados se fazendo carinho pelo resto da vida. vou estender e pedir uma erupção vulcânica que não vai vir. ia gostar dessa imagem dos dois eternos.

se me matarem agora, juro que morro feliz. o importante é isso. oi, ano que vem daqui a pouco mais de uma semana!

domingo, 19 de dezembro de 2010

Canta Pra Mim?

Que já que não podia ser, me deixo que minha cabeça me leve pelas barras de saias todas. Que as suas você não, e eu parado, sem mãos pro alto nem nada, digo, porque as cortei. Deixo-me de repente escorregado naquele olhar baixo, imagino e sou minha mão no meio daquelas pernas a conhecer um calor novo. Não que eu quisesse que fosse assim, mas a gente vai como pode, já que as suas eu não. Com tudo ridículo que é você, e eu ainda assim, mas deixo minha cabeça ir pra outros lugares que é só o que ela pode fazer. Naquela nuca, se eu segurar, textura que é toque, será que consigo imaginar o rosto se fechando em raiva, acho que sim, lembro assim que depois de uma bebida ou duas ou três e você mexendo-se mexida quase desengonçada, e com toda graça do mundo. Você que existe. Mas uma sombra, assim, e tudo bem, que de repente vai tudo embora, que não faz mais sentido algum mesmo. Devia ser o costume. De repente o calor de pernas novas, e eu sei bem que quero me deixar embalado, como se ela e minha cama juntos cantassem pra mim pra me pra ninar.

vi uma coruja hoje

cheguei em casa pensando nos muitos amores, e dormi quentinho.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

beijo frio em minha boca

janelas que abertas e todos os insetos dentro e depois você as fecha e nenhum sai e você os come todos vivos sentindo eles se mexerem enquanto morrem.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

camus sobre kafka

Da mesma forma, se Kafka quer exprimir o absurdo, é da coerência que ele se servirá. Conhece-se a ­história do louco que pescava numa banheira: um médico que tinha suas idéias sobre os tratamentos psiquiátricos lhe perguntava "se isso mordia" e recebeu a resposta rigorosa: "Mas claro que não, seu imbecil, pois se é uma banheira”. Essa história é do gênero barroco. Mas se capta aí, de maneira sensível, como o efeito absurdo está ligado a um excesso de lógica. O mundo de Kafka, na verdade, é um universo inexprimível em que o homem se dá ao luxo torturante de pescar em uma banheira sabendo que nada sairá dali.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

piscina de bolinha

um brinde a quem queima, um brinde a quem estoura, um brinde a quem flutua. um brinde a quem sequestra, um brinde a quem se deixa, um brinde a quem rouba, um brinde a quem mata. um brinde a quem espera, um brinde a quem enfia a mão, um brinde à puta, um brinde à santa, um brinde à santa puta. um brinde ao padre, um brinde ao alpinista, um brinde ao rufião. um brinde às bruxas, um brinde às donzelas, um brinde à sua mãe. um brinde a quem procura, um brinde a quem não acha, um brinde a quem quebra pernas, um brinde a quem derruba copos.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Meu rendez-vous

Algo ontem no que sobrou na boca do gosto da noite gosto de sol ficou assim. Algo como que essa coisa de saber que as verdades não se dizem, e que inverter os pés pode fazer sim, e verter e terver e toven toven toven na minha cara. Repetir algo muitas e muitas vezes até não fazer mais sentido algum. Ou até que se torne palavra travestida de si. Virada do avesso, debulhada, que a verdade que não é que também não é mentira. O gesto elenca o que vai pra cima do altar. Deus tem inveja, não tem? Não é pra menos. Que ontem ter feito os percursos com outros passos e fazer as palavras com outros olhos e ter lido cortázar e ter ficado meio cego naquela festa e ter escorregado com o sofá e ter lembrado pouco da minha chaga e ter falado de dores como se elas fossem não mais que palavras. Porra infinito poder criador do gesto! Porra elis regina entrando no meu ouvido! Porra eh-lá eh-lá eh-oh eh-eh.

(que amor é palavra? que amor que se faz sentir? que não ter objeto que faz meu dedo prosseguir? que não dizer? que não coisa? que quase coisa nenhuma?)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Como Um Tropeço

Entrei no elevador e a porta não se abriu. Era a segunda ou terceira vez que isso acontecia. Reclamei no comunicador e ninguém respondeu. Fiquei agoniado. Meu celular também não pegava. Quando a porta se abriu, você estava lá todo destroçado. Um braço estava pela metade ali pelo cotovelo, e pendente. O outro, inteiramente lacerado de fora a fora, pela veia onde as pessoas costumam se matar, fazendo ver o osso. Queria que você pudesse se ver. Os olhos sempre tão esbugalhados estavam completamente saltados das órbitas e pendentes. E eu estava com tanta fome que logo os arranquei. (Você sabe que não deveria ter se deitado comigo, irmão, pensei dizer) A perna esquerda tinha uma cratera que parecia tiro de escopeta. Eu não tive medo. Seu pinto, arrancado, e do furo jorrando sangue e pus. (Acho que porra também, mas esse adendo é desnecessário, acho.) Você sorria de forma sinistra, aquela boca que ocupava mais ainda sua cara porque sem nariz. Você ainda tinha alguns dentes, e sua gengiva tão roxa e inchada que parecia querer se soltar. Você tentou falar mas acho que a língua tinha sido cortada. Me pareceu. (Eu quis dizer shh shh shh darling, shh... hush hush hush, porque não adiantava falar, darling, mas estava achando tudo um pouco engraçado mas segurei o riso) Atrás de você tinha uma parede preta. (Acho que você estava dentro de uma caixa preta, e eu jamais vou entender o desastre portanto, mas fazer o que? Borboletas para isso. Matar e morrer, cada um mata aquilo que ama e laralá,) Você me estendeu uma mão, aquela do braço rasgado no meio, e ela tinha só um dedo só, e era justo o do meio. Você me queria um aperto de mão, e nem reclamou nem fez barulho quando arranquei seus olhos. Pensei assim que era muita segurança ou presunção ou qualquer coisa assim imaginar que eu estava ali na sua frente. Não sei se você ouvia minha respiração. (Eu estava me sentindo um pouco cansado já.) Sua orelha esquerda pendia derretida. A direita só tinha a metade inferior no lugar. No peito onde devia bater um coração obviamente tinha um buraco. (Não tinha como ser mais óbvio, não tinha mesmo.) (O que punge, arrebenta.) Na sua barriga eu via translúcido o intestino e tentei divisar o que você tinha tido por última refeição. Seu dedo do meio estava preto como se você tivesse levado choque. Percebi também que você cheirava à vômito, além do evidente cheiro de morte. (Das várias mortes que deve ter tido, uma delas certamente foi indigestão.) Metade da sua cabeça sem cabelos, uma mancha vermelha carneviva como se tivesse pegado fogo. Teve uma hora que você coçou a cabeça justo lá, com aquele dedo preto, coçou com tanta gana e fúria até sangrar. Você não tinha parado de sorrir, em momento algum. (Parecia que fazia um espetáculo.) Seus pés, os dois, eram uma massa disforme, parecendo uma papa de carne amassada e comprimida. (Eu sentia uma paz estranha. Ela era pesada, mas era borbulhante. Metal líquido se como fosse.) A porta do elevador fechou. Dei tchau tchau sem falar uma palavra, mas pensei tchau tchau. Aí voltei pra casa, tomei suco de maçã e liguei pra portaria reclamando da assistência técnica.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

otávio paz:

"A poesia é metamorfose, mudança, operação alquímica, e por isso confina com a magia, a religião e outras tentativas para transformar o homem e fazer “deste” ou “daquele” esse “outro” que é ele mesmo. O universo deixa de ser um vasto armazém de coisas heterogêneas. Astros, sapatos, lágrimas, locomotivas, salgueiros, mulheres, dicionários, tudo é uma imensa família, tudo se comunica e se transforma sem cessar, um mesmo sangue corre por todas as formas e o homem pode ser, por fim, o seu desejo: ele mesmo."

sábado, 4 de dezembro de 2010

meu samba

meu samba faz uma cadência que parece síncope. meu samba não despreza o lugar comum, porque ele diz de mais do comum que cegante, dilacerado. meu samba faz mexer. meu samba celebra tudo quanto há, o que deixou de ser, o que jamais será, o que ainda há de vir. meu samba abre os olhos de um tanto que entra luz demais e ofusca. meu samba acalenta pra dormir feito cantiga de ninar. meu samba vai pra nina, vai pra loa, vai pra cacá, vai pra susana, vai pra cléo. meu samba vai pro téo, vai pro aroeira, vai pro fred, vai pro adriano, vai pro dé. meu samba fala do mar por falar de tudo. meu samba fala de tudo por falar do mar. meu samba entende que sem história de pescador a gente não passa. meu samba entende que pra se mexer você não precisa de muito tambor. meu samba ainda assim se reserva ao direito de fazer uso de toda a bateria. meu samba faz ter pilha. meu samba é explosão. meu samba é coração. meu samba é furacão.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Numa Cadeira, Num Parque, Numa Cidade

Sei não se você lembra, mas eu sim. Decorei cada gesto. Sim. Seu olho piscando no meio daquele tanto de luz. O meu também e então a cena repartida em tantas mini-cenas.

É que. A promessa foi aquela, fazer o que? De voluntário, de tolo. Peço as correntes, ou eu mesmo as busco, as desenho, que feitas de ventos e lápis também. Também de vento, os lápis. É que. Desenhar os ares não é fácil, vou dizer. Contornar as nuvens também não. Ficar inventando história pra você dormir, sei não se você lembra, mas eu sim, ah eu sim. Ah! Eu sim. É que. Meu nome só vai ser esquecimento sete palmos abaixo da terra. Todas as ameaças que me fizeram, ouro que me juraram, pra que eu, uma vez que fosse. Uma vez que fosse eu, que fosse, eu dissesse de tudo impropérios. Mas algo desse terreno faz dele sagrado.

É... Há mais de mil'anos atrás, kayapós devem ter matado seu deus-vivo bem aqui. Ou celtas. Vem assim a mim que Morte e Vida, duas irmãs, incestuosas e siamesas e univitelinas. Gostam de confundir. Ninguém nunca sabe direito qual delas que está cantando. Qual que tá mexendo a cabeça em sinal de reprovação. Não sei você lembra dessas verdades, mas eu sim.

Também não sei se minha voz te deixa surdo, mas sim, eu falo.

Acho que se fosse pra ponderar um propósito, eu diria que não, que não façamos brincadeiras de criança. Não vamos definir assim que existe polícia-e-ladrão. Não vou dizer se tá quente ou se tá frio.

De cor, também tenho aqui cada posição do aposento. Poucas fotos, e descoradas, e cada ângulo que feito entre a estante e o abajur. Cada desenho da parede, cada vez que você deixou o cigarro cair do cinzeiro, cada copo esquecido perto do Neruda. Eu li sim, viu? Cada palavra está aqui repetindo na minha cabeça. Tipo música ruim que fica grudada. Inseto dentro se mexendo numa caixa de vidro.

E elas, as palavras, as loucas, as migalhas, Elas compõe essas outras, que não sei falar de outro modo que não seja por resposta. Tudo que você me falou tá aqui dito de volta. Tipo como um acidente de carro.

E faz pensar que cada uma dessas letras aqui, se recombinadas, pra fazenda do texto que conta tudo. Tecido com uma agulha que usa também meu couro. E a linha deve ser meu cabelo. Tudo tudo tudo em mil e novecentas letras. Contar do dia que minha mãe morreu e como fiquei mexido, porra, pra você me dizer depois que não sabia que minha mãe estava morta. Contar do leite na geladeira. Contar das vozes daquele coral naquela cidade velha de igrejas aos pedaços. Contar do olhar daquela velha naquele dia daquela chuva que você certamente vai dizer que foi com outra pesssa. Mas sabe, não sei. Não sei mesmo se você esqueceu. O que sei é, eu que sei tanta coisa, pra meio de tentar dizer que sigo. Mas sei de nada, que saber é coisa muita nos cantos de cá. Sei de alguém que soube tanto que se perdeu.

É que acho que o saber é uma espécie de afundamento. Como se a gente estivesse andando num papel e ele fosse dobrado bem na hora que se sabe. E você pode, assim, ficar amassado lá no entre. E nunca mais. E seu muco, se você for um inseto, fazer que fique grudado para sempre. Sei de gente que passou por isso. Não foi legal. Saber, saber mesmo, acho que ninguém quer.

Então é por isso que finjo que sei, pra seguir. Pois, senão, eu fico.

Então sei que o esquecimento é salvação, mas acho que jamais terei como se não souber trocar os sons de lugar. Renitência, remitência. Retenção, redenção. Beijo, queijo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

analisando meu blog

1. 65% dos posts são algo como eu-odeio-o-mundo
2. 45% são algo como eu amo o mundo

e variantes. aí tem amo-meus-amigos, amo-viver, amo-dar-palas, amo-até-me-foder. tem também os oh-vida-de-merda ou oh-porque-acabou-o-doce-gostoso ou oh-nada-dá-certo. rs. ah, tem os reflexivos, mas eles também são do odeio e do amo. normalmente terminando com frases de efeito. he. meio babaca. rs