domingo, 28 de novembro de 2010

micrografante

depois com radiografia que pensei, por mostrar outra faceta do visível, pra além do recorrente. e por início foi a imagem de um balão de ar que cheio, explode. e isso filmado em câmera tão sensível, com muitos e muitos e infindos quadros por segundo. pensei que bonito. depois um balão de água. com um furo só, qual a imagem feita? outra: com vários furos simultâneos, em diferentes regiões. a água o esparramando.

sábado, 27 de novembro de 2010

livrai-nos

queria escrever algo sobre castillos humanos. a aba tá aí aberta. mas meus dedos tão podres.

dos ventos altos

abandonar o finalismo, e o fatalismo, e hedonismo, e mais todo e qualquer ismo. artaud me disse mais ou menos isso hoje de sua loucura com o peso de um vento que ninguém ainda entendeu. babel é mesmo um problemão, né? nossa. um tradutor automático, a tradução completa não existe, traidores todos nós, tradições, contornos, bolhas de sabão. alguém que me contou como elas explodem em câmera lenta. deve ser bonito pra caralho. todo mundo que já vi e já em mim esteve. tudo isso que foi. e o que é. é bonito. sem nada que ordene-encadeie além da vivência. vivência é uma palavra bonita. experiência também. e cadência. indecência. dormência. e por aí vai e coisa e tal.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

sem título

vasto mundo, raimundo, e todas essas coisas.

ted bundy quoted

 "I have known people who...radiate vulnerability. Their facial expressions say 'I am afraid of you.' These people invite abuse... By expecting to be hurt, do they subtly encourage it?"

um pedaço

assisti o vídeo do senador Budd Dwyer cometendo suicídio. impressionante.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

tonterias

nunca ninguém vai poder me dar o que eu quereria, e ainda assim eu queria você comigo. de repente pelos olhos.

o que faço baudelaire nos dizer de fotografias

o efêmero e o transitório e então portanto o detalhe, e principalmente o que maquia. os rostos são mais ou menos como os mesmos, elemento base fixa. é como dizer da cera que compõe nossos corpos que se derretem aos poucos, acesos nós, ao sair do ventre. do escuro para compor alguma luz. se cairmos na tapeçaria, às vezes um incêndio.

o brinco da moça que você está agora é igual o que ela usava quando ela se casou?, e ela e em que medida? seria a orelha da moça equivalente à cera e o brinco a ela mesma se até mesmo a orelha cresceu? então é isso? a orelha está derretendo. tá. entendi.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Os móveis da sala

Da glória, do desconforto, do vazio, sei delimitar alguns dos gestos, sei até como gostam que lhes seja dada a comida na boca, e como se eles se movessem no papel carbono e a pressão adequada fosse feita. Mas no silêncio, eu só consigo tocar a angústia em suas partes íntimas. Ela fica caladinha, imóvel, suando muito e suando frio. Angústia, eu penso, você é mesmo uma vadia.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

De escrita cansada

Vamos por essas tempestades que elas são mais mornas. Fazer cada um desses cantos soarem em cada precipício? Penso que também umas linhas gerais, maceradas e deglutidas. Ah mas essas infinitas dores espalhadas que comoveram até as almas mais cansadas e secas! Ah mas se chove! E se somos de essas coisas que derretem... Mas vamos que o tempo não tarda. Interrompendo cada canto. Eu queria seus cabelos no chão. Você merece tão mais. Vamos procurar por aí alguma coisa pra você? E para nós, eu busco as juncos todos, eu lambo os líquens, eu arraso essas terras que estão pedindo clemência. Ninguém está aguentando mais, cara. Ninguém mesmo. O velho problema de se encostar. Saia de perto, por favor. Não é possível que seja assim. Meus bloqueios, queridos e caros, me constrangem que chega o rubor me sobe. Enquanto que eu pensava em mudar o mundo você queria sua mãe. Enquanto que me pedia afeto você cruzava os dedos. Enquanto que a gente segue os passos, pulando pra que as linhas não nos cortem, por essas calçadas velhas. Todo mundo já pisou aqui e nós também. Terrenozinho mais velho e cansado do mundo. Enquanto que eu te dizia qualquer coisa você me dizia porra nenhuma de volta. Enquanto que eu falava pra gente ir você dizia que nunca mais ia sair do lugar. Enquanto eu te explicava que as coisas são assim você dizia que não queria e que não adiantava e não ia não. Quantas vezes que não quis lhe enfiar uma paulada na cabeça. Quantas vezes que não precisei tomar longas duchas geladas, e na época do racionamento de água foi ainda mais complicado. Preferi pedir aos céus, tentar divisar os mares, e já que eu profetizei isso tudo, agora aqui tento glossolaliar. E a verdade grande e estúpida é agora nada mais sai. Estancado assim, portas lacradas com tábuas e também as janelas, eis que antes os ventos invadiam essa casa sem cessar levando tudo pelos ares. Imaginei que nesse dia eu encontraria nós dois à frente da praia, e que brincaríamos com a areia como já fiz tantas vezes nos meus sonhos lá meninos. Ou aqui, mas trancado dentro do quarto, no escuro sem fim de mundos, de castigo e precisando olhar na parede e veja só o que diabos você fez! O que se pede de tanto que nada se oferece nem se entrega assim, se não como explicaremos que nenhuma dessas flores tem pétalas! Nem imaginei tanta coisa assim, mas muito mais que nós, tolos, imundos, com as cabeças voltadas para o céu contando nuvens. Nesse dia nublado é tudo uma coisa só e eu e nós e mundos. Pelo reflexo do espelho a gente encara o lado de lá, diz que imaginam que é a contra-face das coisas, e que todo esse ódio é só amor maculado. Mas não. Esse ódio é como o líquido do carvalho. Se lhe der um gole, você aceitaria? Posso machucar você? Posso te esmurrar e deixar os olhos roxos? Você está precisando de uma cor nessa carinha pálida sua... Não basta que você pense que tocou naquilo. Não basta que diga que não é possível alcançar também. É, eu diria que não há suficiência. Estou aqui pedindo rogando. E praguejo na contra-face. A beleza disso nem vai pelas palavras bonitas, ou a ordenação elegante. Porra de beleza nenhuma.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

olho

O olho é o caminho da eternidade. É o fazedor de mundos, o sorvedor de fundos, o delineador de mandos, o tormentador de bandas. É o lugar do retorno, do vão, por onde o vasto se escorrega, espelhando o derrubar que o mundo faz da saída do velho pro novo. Naquelas terras de ouros que a gente toca e viram pólvora. Naquele tempo em que ainda chovia fogo do céu. O olho tem a beleza da serpente que morde a ponta de seu rabo, e tem o toque doce do gosto estranho dos infinitos. Como um mar é, ainda que no fim do fundo da fenda nem. Lá embaixo onde os peixes suportam os pesos e as dores. Lá em cima onde os anjos não acham mais suas casas, ventos que prometem uns nunca-mais baixinhos em suas vozes. Do olho parte o retomar. Pro olho parte o renegar. Com ele que a pedra vista faz as outras de antes todas brotarem sacanas e risonhas. O cascalho dizendo a pirâmide de si. A taça de vidro dizendo as praias de mares que mortos. As carnes da vulva da garota com carbono de Osíris do Nilo.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A Garrafa Quebrou, e Eu Vou Cantar Meu Rock'n'roll

Fiquei rindo igual um idiota da última carta sua que recebi, que ela me chegou como pancada soco no estômago e tudo mais junto, e tive que segurar pra não vomitar o almoço, é claro, e era comida chinesa, e ela chegou num dia horrivelmente quente, que me fez pensar também no método chinês de transferir foco de dor, então eu ri pra não cair no chão, certamente.

Eu não consegui me mexer direito por instantes. Meu braço colado pelo ombro no tronco mas querendo voar tipo foguete.

Aí pensei que você teria errado o remetente. Que a carta era pra outro, só podia ser. Ou que você tinha me confundido com outra, só podia ser. Tanta coisa que só podia ser que não você me falando todas aquelas merdas, só podia ser.

Que vejo é você olhando pro passado e vendo tudo torto. Desfigurado. As árvores se dobrando entorpecidas onduladas. As nuvens fazendo formatos perfeitos de caras de quadros renascentistas no céu azul. O carro de dois anos atrás numa cena que aconteceu ano passado. Deve ser uma paródia.

Ouço sua voz em noites por aí.. Você oferece dotes, indistintamente. Que bela caridade! Que valor reluz de sua voz assim? E nada assim que saia. Olhava nos seus olhos e me via, mas fico pensando o que é que eu tanto pude ver. Tocava nos seus cabelos e cortei os meus. Não ouvia suas palavras, pois calado você por tanto eu, e em que lugares que fui ou fomos? O que é que foi e anos depois essa carta chegando. Não tinha data, mas vou supor que foi escrita em outra era. Um tempo de castelos e princesas e dragões.

Como tenho dito por aí, a todos, em cada bar esquina latrina, não fodi e ainda me fodo. E você me fode assim, que deve ser muito bacana falar essas coisas por papel. Perco a oportunidade de deixar seu olho roxo. No final é só poesia, e eu só sei fazê-la marcando peles. A bebida acabou, agora adianta falar de sua covardia. Porque embriagado você batalha. Faz assim: procura sua armadura de papelão no armário, vai, e vai pra luta que te quero com espada reluzente de papel alumínio a seguir. Longe de mim, mas que eu veja rastro de luz pelo caminho, pra eu saber que é pra lá que não vou. Cansei de te matar, porra. Cansei de derramar porra por você. Na minha cabeça, tantos e tantos enterros, e orgias com zumbis. Fantasmas trepam. Mas é cremado é o que vejo mais divertido. Na cinza das horas, porra nenhuma, sem perfume, cheiro incômodo, amor algum. Jogando depois as cinzas pelo vaso sanitário.

Não há nada a dizer, a fazer, a querer. E é por isso que essa carta não é pra mim. Se antes fosse, azar: antes fosse.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

cansaço

leio e releio, leio e releio, é mais do mesmo e não é mesmo,
uma garrafa que se quebra nas pedras.

tudo se mistura, tudo passa,
vai tudo descarga abaixo por fim.

domingo, 14 de novembro de 2010

de 12 de agosto de 1904, e de toda história de humanidades

Todo esse pesar teu, pequeno, de todos os desafios dos sapatos gastos. Se teu calcanhar assim, esfolado, e precisas andar. Se tuas mãos, quase em carne-viva, e precisa dar forma aos gestos
e fazer das luvas os encaixes.

Tudo quanto é erro e negativo, pequeno, de todos os dias de cinza dor. Se então vem uma noite tão profunda, escura, e não tens lume, e se não sabes dela tirar os dons de uma manta que seja defesa contra os ventos,
deixa então que os ventos sejam seus dons.

Que negativo é cor-oposta, pequeno,
em tudo quanto é olho como presença-sombra.

É preciso amar como a irmãos todos os inimigos, sem que isso seja piegas.
Pois a si mesmo, mais ainda, com o deus de dentro.

O inferno, os outros, você,
Lúcifer dos caminhos.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

para o que não são, ou são impedidos de ser

"Situações cotidianas, comuns, agregam valor às pulsões (trieb, em Freud) pondo à tona e atônitas conclusões da conditio fragmentária da existência humana e, não raro, subumana de personagens-bolhas, que existem na vida real para justificar, via de regra, o que não são, não serão, ou que foram impedidos de ser."

raskolnikov, símbolo-mater de todos nós. digo mater assim, por que ele pariu, não simplesmente semeou. e pra fugir do falocentrismo e tal e coisa.

é sim. napoleão era o signo guia do mesmo. com o sentimento de que a vida era à sua frente uma moça a ser tomada. e dá-lhe tomar a europa!, também uma dama. e foi pela possibilidade de ser maior que a vida que rask' matou. ora, e quem de nós nessa vida que nos impele sempre a mais não quer ser maior que a mesma? a humanidade tão luciferiana. o capitalismo é altamente luciferiano. e tiro no pé, é claro, porque dirão os existencialistas franceses que não temos escapatória: somos livres e ponto, mas e ae? que fazer com a tal liberdade, ninguém ainda soube.

já que é só dentro da vida que somos. e a vida, porra, não é liberdade. não é mesmo.

é só porque vivemos numa época de celebridades instantâneas. só porque vivemos numa época de possibilidade de mudança social. só porque não há rigor sobre o que é ser gênio. porque mais um tanto de coisa fluida. por isso tudo que é essa merda toda.

leverkühn eu entendo tão bem ao formular a necessidade de um sistema de composição. brother, esse leverkühn. ainda brincando com o mann, não deixo de me achar um diletante: não me arrisco a propor nada, tenho preguiça coisaetal, me falta a disciplina e o feeling da missão que me impele, ou da possibilidade, coisaetal. mas leverkühn é brother.

me sinto acalentado por esse edifício de história que me esmaga, e me sento.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Barbarizar é pensar contra a racionalidade burguesa

"Pasolini, em sua obra e em sua vida, é marcado por esse desejo primitivo, alucinado, violento e pragmático pela realidade. E é nesse amor tornado encontro com a realidade que ele descobre a alienação do mundo. A realidade, ao contrário do que prega nossa cultura racional, é sacra, misteriosa e ambígua; de modo algum é natural. A alienação começa justamente quando se começa a ver a realidade como algo natural. O cinema, de certo modo, se desapega da tentativa de mediar abstratamente a realidade, reintroduz o homem numa dimensão sacra, misteriosa e bárbara do mundo. Assim, para falar brevemente, Pasolini não é um decadente. O barbarismo pasoliniano é uma atitude genuinamente filosófica. Barbarizar é pensar contra a racionalidade da sociedade burguesa. O cinema é uma arma não em favor da cultura, mas contra ela.

Pode soar estranha aos nossos ouvidos a conclusão tirada por esse grande intelectual: temos pouco a fazer, a não ser nos revoltar, e isso é tudo. É isso que intuímos, afinal, quando acompanhamos o desespero de Medeia, que se mata e mata os próprios filhos por sentir na pele sua incompatibilidade com o mundo estabelecido; ou ainda quando vemos o soldadinho fascista de Salò, que, ao tentar resistir, amando justamente uma vítima como ele, uma garota negra, é surpreendido pelos superiores e levanta o braço esquerdo, mesmo sabendo que vai morrer."

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

a partir do sonho que ela me contou eu fui isso aqui

na roda gigante um monte de gente se jogando. junguianamente isso é uma loucura. vai saber como foi de onde veio. outro dia eu falava sobre roda gigante. eram todos gigantes, de tipo dois e meio de altura, e ela baixa. se jogavam e a cabeça espatifava no chão. muito sangue e o cérebro em migalhas. a casca-crânio completamente esfacelada. umas até se esfarinharam.

a imagem de um carro me veio pouco depois. amassado. um belo acidente. the long and winding road, rolaria uma moça que vai dormindo aos poucos, se pá porque tomou muitas pílulas e quer morrer. e o carro vai batendo de leve no meio fio. depois capota.

ou a imagem de uma batida de carro filmada em câmera lenta.

ou um engavetamento. ele ouviu a música do carro dentro do carro, o carro vai rápido e ele está longe longe em outra estação.

o sangue das cabeças no chão é de uma virgindade indevassada. é de um território desconhecido.

é como os flamboyant que tão gritando e pulsando vitalidade nesse cotidiano. essa cidade meio que muito cinza, mas bela por suas formas fixas estáveis uma ordenação tão nossa exata que chega assusta, não é? esse vermelho pintando as coisas. dando energia. pra seguir. que parar faz morrer.

nós somos esses coágulos de dias envelhecidos devorados com pedaços arrancados que se pá tudo junto em volta misturado com a poeira e com o cimento. esses coágulos.

somos também aqueles monstros que dançam de roda.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

a aids mental da contemporaneidade, como ela disse

tenho esse peso de eras, mas são só poucos anos. sinto que é uma babaquice, mas mais uma real. a dúvida é o que é e o que não é. li a história do molequinho que realizou um sonho, apertou a medalha na mão e disse que lembraria sempre que precisasse de coragem. e quase comecei a chorar. eu tinha comida na boca, meus pais estavam perto, foi ridículo, engoli o choro e depois o resto. e tem o que não engoli. tem o medo de estar à beira. tem a vontade de estar de um jeito só numa coisa e seguir mais reto. e o sentimento de que não faz diferença. com esses aditivos na frente do pc em goiânia e como não me sentir de novo no mesmo patamar? tenho o carro agora. tenho mãos e meios. grandes bosta. vou indo na inércia e de repente uma hora pega no tranco. sei lá. ou se pá fico parado na estrada por horas esperando o guincho. não queria, contudo, ninguém ali comigo. não quero ser peso, mas me tirem daqui! hahahaha. nem consigo achar que é tudo uma grande piada, porque tem começo e meio mas nem tem final. a gente tem dessas, né? as coisas tem suas estruturazinhas. a ordem e encadeamento delas pra gerar reações. os cansaços são tantos e as palavras mais um monte. cansaço demais. os pesos.
o meu até maior. mas ele nunca foi só meu, nunca nunquinha. e sempre foi.

(contextualizando: primeiro de novembro, pós anpocs que foi o caos na vida, antes de acordar com um pé bom dia desses)

notinha do jogo da amarelinha, do capítulo nono

klee é história. mondrian é atemporalidade. klee exige cumplicidade. mondrian exige inocência. logo o éden é impessoal? klee nos coloca o inferno, um caos colorido. leverkühn, me parece, assinaria embaixo dessas impressões. contudo, pensar outros jogos de intercâmbio pelo simples movimento de dançar.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

nesse dia dos mortos

ainda preciso estar no méxico. esse mistério de vida-e-morte. o que ninguém sabe que vem depois. uns esperam que nada. outros esperam que paraíso. podia existir um deus pra cada fé, e o nenhum, para os sem fé. acho que a consciência acaba. e se finda, o que resta? lá no méxico eles saem pelas ruas festejando. é colorido e as caveiras sorriem. talvez seja melhor do lado de lá. já tenho todos meus avós embaixo da terra. tenho duas primas que agora me recordo bem. daqui um tempo terei tanta mais gente. ou eu antes, e gente chorando a se lembrar. ainda sou partidário de ver minhas cinzas junto com fogos de artifício. plath se tornou profissional em morrer. o dia dos mortos pode dizer algo sobre as mortes cotidianas? aqueles que matamos para que não mais nos incomodem. teve um tempo que a referência era a fantasma, a ossada, a zumbi, e etc. de vez em quando alguém pode puxar nosso pé à noite, não é? que assassinatos que carregamos nas mãos. seja dos eu's possíveis, seja das vidas a virem. será que alguém mata sozinho? sei dizer que estou vivo. é algo que me parece. meus dedos mexendo nas teclas. hoje as coisas estão com mais cara de óbvias. os mortos adubam a terra, não é? mas dizem que também eles a sujam. sei lá porque que tudo nosso é sujo assim. num mistério de fim dos tempos tudo se mistura e tudo é uma coisa só. e todo mundo veio do mesmo lugar. já comentei antes, mas eis que muito bela essa cosmologia moderna. o que é que já morreu de ontem pra hoje? e de tantos anos atrás. as memórias e pá. das coisas que a gente não lembra, o que é que fica lá fundo mexendo pauzinhos? dentro de nós continentes trabalham com seus espiões e suas passeatas? caveiras sorridentes de açúcar e chocolate, a gente come as memórias dos mortos e das guerras até, é preciso talvez celebrar cada dor e cada falta porque são algo como movimento. nesse clima de antropofagia que nos legamos, tupinambás.