terça-feira, 27 de julho de 2010

atordoamentos que são acordoamentos

Nem em um milhão de anos, ele me disse, nem em um milhão de anos seu cheiro vai sair da minha mão ou de meu casaco. E eu disse sorrindo algo como: tira logo isso daí que não vale a pena, melhor se fosse cerveja ou bourbon. Na verdade, de soslaio, tudo que pude lhe ceder foi meu olhar, que nem sei direito o que dizia porque eu já estava um tanto quanto tonto, e poderia ser que ali eu lhe tenha desejado mais que tudo, ou desejado mais que tudo enfiar a cara dele no chão. Não não me mate, faca e queijo na mão, corda preparada, ata-me e aos meus olhos por favor, porque eu não tenho deles necessidade. Ou com eles sou impreciso. A medida das fortalezas e das muretas, também indefinidas. Ah que eu quero que isso tudo seja borrado. Ok que eu não lhe disse nada disso com o olhar. Ele me disse mais um tantão de coisa, que não faziam sentido algum. Pois bem. Vamos fazer uma fogueira e dançar em volta?

sábado, 24 de julho de 2010

putamerda

caralho, como eu tenho amado saber me virar na vida. impressão de que vou aprendendo a ler os mapas de mim, e reconhecendo árvores pelos caminhos, e confiando nos cantos de pássaros, sacando de qual é a do cruzeiro do sul, e mais um monte de coisa. é bacana demais.

com muito vinho se faz dores

estávamos no carro discutindo se Buckley cometeu suicídio ou não. mera questão de definição, ou fundamental diferença entre intenção e gesto? porque afinal, se foi nadar no rio bêbado, e se de repente não pediu ajuda, e se broken-hearted como estava. Buckley-Buckley, porque assim? eu teria colocado você no colo, te dado de beber conhaque, e ouvido as suas lamúrias. por uma canção, seu bonitinho. de repente Buckley, vai saber, será que foi isso, Buckley?, será que foi?, pode ter visto uma placa que dizia: Aqui você pode se afogar. e ele pensou: eba!, vou me afogar. e é isso.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

fato/faro

não tente me deixar com tesão. só me deixe.

O Ensaio De Uma Ladra

Tanta vontade ela tinha de rolar escada abaixo eternamente, mas sabia que no dia seguinte a vida ainda fazia sentido, e o último acordo de negócios para se fazer e as plantas a serem regadas - e em que medida a vida dependia dela para rodar ou ela mesma de seus pés para seus caminhos? - e se no dia seguinte acordasse com cãibra ainda assim faria sua caminhada matinal? - e se descobrisse que o café acabou, mas não porque ela tomou demais, mas sim porque a casa havia sido invadida sei lá por quem e sei lá como e menos ainda porque, querendo somente um café!, pense só que absurdo - na medida que cada interpolação em si se chocava ela pensava que ia engasgar no riso que era como um vômito - mas era um riso! ela ria tanto!, e como a vida ainda fazia sentido, pegou o telefone e ligou para uma amiga e perguntou se poderia passar na casa dela para pegar aquele filme do PT Anderson emprestado. Depois que desligou o telefone, pensou que tinha vontade de ter vontade de rolar escada abaixo eternamente, de modo que a sua vontade era por vontades, e a cidade se quedou paralisada na música, pensou vaga, leve e vulgar que seria legal sair por aí pela rua bem leviana, e se entregar a dois ou três, mas se lembrou de um filme e pensou como que essas fodas podem atrair psicopatas que querem se vingar não de você, mas de si mesmos. Imaginou a si própria rolando escada abaixo e riu um pouco da cena novamente, e imaginou que poderia ser um videoclipe e pensou que esse já existia mas tanto fazia, ela mudaria a canção e manteria a cena, e na verdade somente a cena de ela rolando escada abaixo, repetida eternamente, indo e voltando, invertida talvez e por um fim um algo como "le temps detruit tout", misturando a referência ao possível estupro com um filme e outro mais outro, que eram tão somente agora, dentro de ela mesma, cenas de sua vida. Sentiu-se obtusa, se divertiu com a sensação, tomou um gole de Domecq que tinha gostinho de baunilha, e dormiu o que chamam de sono de justos. Mas não, não ela, que se sabia culpada e com isso sentia algo como glória. Ou era asco? Mas lhe parecia tão a mesma coisa! E todos aqueles paralelos eram retas que se encontravam num infinito em que seus modelos e suas vestes passassem a ter a mesma matéria, que só poderia ser a mesma da vida. Além de qualquer meia-palavra ou meio-grito ou meio-assobio.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Historinha de Amor

Quando pela primeira vez me chamou de amor, e não de André, não lhe disse que aquilo doía. É que meu nome é um mistério para mim. E, como era pra mim, não pra ele? Como assim? Eu não escolhi meu nome e mais um tanto de coisa na vida veio à rebote, como puxando um fio e todo o tecido se desfazendo. Eu sentia que colocando em minha face o amor, ele agora via uma face que não a minha, e ele jamais deveria. Porque tem algumas coisas que não devem ser vistas, senão por entre, ou intuídas, até talvez sonhadas, cantaroladas baixinho, objeto de murmurejos. Como água de rio mesmo. Ou tipo cascatinha fina de fazenda, ou aquele bate-estaca ritmado e bem espaçado de um monjolo. Achei algo ridículo, mas não falei nada. Veio me dizer que estava apaixonada. Que é que era aquela coisa? Parecia que estava me entregando uma caixinha. Pensei rapidinho porque não deixava tudo borbulhar: medo que explodisse na cara. Respostas óbvias e simples. Medo medo medo medo medo. De escuro, de segredo. Tudo que a gente inventa e deixa de fazer por medo. Não mandei mais cartas, não liguei mais, nem pensei em. Acho que era medo também. Das caixinhas: que elas, de repente, sei lá porque, me contivessem. Tive medo de não conseguir arrebentá-las. Foi assim também.

terça-feira, 20 de julho de 2010

a uma garrafa de vinho quebrada

à medida que ouço mais uma música que, penso que, do jeito que as coisas vão, sei não, vai ter uma hora que todas as coisas legais do mundo já vão estar marcadas por nós dois. acho bacana. e leve. e leve que eu seja levado.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

batendo recorde

he, esse mês ganhei de todo e qualquer outro mês de postagens do blog. trigésima quarta de julho! e ainda é dia dezenove! rsrsrs. adoro uma vida movimentada e cabeça idem.

caetano é caetano, um réquiem é um réquiem, uma pessoa é uma pessoa

essa manhã acordou uma das mais engraçadas das manhãs.
cena de filme.
adorno meu, adorno meu, adorno-me e estou rodopiando.
penso que é isso.
mas é qualquer outra coisa.
cheia de alguns pontos finais que seriam se são se sei lá vírgulas.
e nunca fui bom com sinais gráficos ou de trânsito.
e transito de alguma forma por esses caminhos.
algumas órbitas, algumas constelações, a estrela do norte.
que é a polar, parece, e deve ser fria.
tento sentir o cheiro nos ventos pra saber se vem fogo ou chuva.
chorando isso tudo inteiro de mim pra sair.
se sai.
penso que sai.
se sai.
se eu quero que saia.
se sai.
se sai.
se eu lá sei se.
penso que sei lá sei se perguntas.
ainda sei que vou algo onde sei não sei e é fluxo e correnteza.
se eu lá sei se.
se sai.
se eu lá sei se.

domingo, 18 de julho de 2010

de arrombos

Inevitavelmente, aquelas mesas de bar rumavam para os mesmos assuntos e temas. Vez em quando era alguém reclamando da Veja, outra falando de sexo e pintos. Um terceiro falaria da miséria de sua vida sentimental. Dariam gargalhadas histéricas de todos, de tudo e todos, de objetos da mesa a garçons, de histórias de anos atrás à situações familiares recentes muito tensas. Alguém achou um remédio na bolsa. Outro sugeriu que aquilo seria como um coração, e poderíamos parti-lo em pedaços, e cada um tomaria uma parte e tudo ficaria bem. Talvez alguém tenha respondido que era como o corpo e sangue de cristo, vida eterna, vida eterna. Talvez só eu tenha ouvido aquilo. Era um verão em setenta-e-sete e estava tudo meio estranho. As garotas, sabia-se lá porque, poderia ser o calor, tinham colocado as calças nos guarda-roupas e rumado aos vestidos. Mas também falavam mais em casamento. Diziam de sinas de cigana, imaginavam se chegariam aos trinta ou quarenta solteironas e felizes, só que essas duas palavras nunca ficavam na mesma sentença. Choveu no fim da noite, copos foram derrubados no chão, tudo em sua mais perfeita normalidade. Não lembro quem, mas comentaram, que o limite da percepção e do universo eram a mesma mesmíssima coisa, tanto pros cientistas como para os indígenas. Imaginei rapidinho em minha cabeça se, a única coisa possível em Madri, seria conhecer um grupo de três artistas, ou se o imponderável e desconhecido mais uma vez piscaria para mim os olhos. Eu estava calado como sempre. Falar nunca foi meu esporte predileto. Tinha alguma coisa de muito obtusa e muito arriscada em tirar de si assim as coisas. Alguma coisa tá no meu sangue, lá no fundo, doce e amargo para caramba. Fim da noite eu quis vomitar, mas nem rolou. Eu sei que cada um de meus amigos imaginários ficariam chocados por todo aquele excesso. Aí continuei caladinho e tal. Achei gostoso e mágico. Lúcido, inclusive.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

chega, né?

sofro, desde a epigêneses da infancia, a influencia má dos signos do zodiaco. boto fé que eu também, augustão

continuendo...

bom, agora faz mais sentido. só não poderia imaginar. encostei e de repente senti: era um metal frio. muito muito muito frio. gélido. e não sei afinal como foi que encostei, porque agora me parece que não, que não dava pra alcançar não, que nunca nunca alcancei, e é o que eu meio que já sabia mas esqueci, e é o que queria também. eis deus de novo na minha vida, distante e grandão e frio. o deus dos filmes do bergman mesmo. na verdade, no máximo senti seu hálito, e era muito, mas muito, muito frio mesmo.

tá certo

o som do carro está arrumado, espero que dessa vez sem mais problemas. vontade de tocar violão, mas preguiça. vontade de ficar deitado na cama ouvindo música. estou me questionando e me questionando, com perguntas e com algumas palavras de ordem eu penso. preciso me deixar quietinho, mas preciso mexer antes também. aliás, quem é você pra me dizer o que preciso? hahahaha. ah!, mas eu ri tanto. daquele meu jeito de rir. eu ri demais da conta. eu gargalhei. nada mais além disso. porque foi que inventei de fazer assim e ser assim e etc? porque, diabos... eu estou feliz porque o som do carro está arrumado e vou poder ouvir música no último volume para goiânia. e elas vão falar tanto por mim. é confuso, mas é bonito. pode ser que fique claro, e feio. a música está tocando mas estou tão cansado de dançar. nem consigo me mexer direito. só alguns movimentos duros. e eu que antes bailava, eu que antes. em relação a isso e mais algumas coisas, a total falta de sentido. aí o renato russo aparece na minha cabeça dizendo algumas coisas, e é tudo parte de mim, e glória e desgraça são faces da mesma moeda que vezenquando gira tempo demais até cair definitiva. odeio e amo. e não sei porque escrevo e nem o que quero dizer.

mais uma dessa noite passada

no meio do caminho tinha um valete de copas,
tinha um valete de copas no meio do caminho

desgraça desgraça desgraça

a noite passada, daqui há dois anos, como noites em dois mil e oito, vai ter cara de pitoresca e inusitada? e só?

quarta-feira, 14 de julho de 2010

cena de filme

aí o inesperado foi e pulou de novo na sua frente,
e era um menininho com cara de que tinha feito uma arte bem grande,
cara de sapeca e serelepe.
aí até tentou ficar puto com, mas riu.

e no meio tempo, entre um round e outro,
ficou pensando sobre colocar algo na mão de alguém
e a pessoa virar e falar:
que? que que eu faço com isso?!

e se lembrou que apesar de caranguejos ou leões,
temos também carneiros e centauros com flechas no cardápio do dia,
e que eles sim que fazem a sopa ter tempero.

e o gosto disso é tão do caralho que é simplesmente bizarro,
e ele era o lago e narciso e todas as estrelas e céu
ao mesmo tempo.

meio que uma bela feijoada

a doida da cama, explicações mútuas recíprocas constitutivas, uma longa discussão sobre o valor de ser cético e não ateu, convencer alguém a acreditar em deus e três meses depois matá-lo (não ao alguém, mas a deus), tanta coisa escrita em cima de uma carteira de colégio, e em outra, e em outra, um top 5 ou top 897 de momentos de vida rodeando em torno de meu vênus em câncer, mas ponderados por meu sagitário em saturno, cada gesto de beleza espraiado como luz por entre galhos, os signos são tantos, os sinais de trânsito de pare, as borboletas voando em revoada como só em sonho desenham o céu com esqueletos dançantes, há um caminhar de nuvens suave, tudo que já foi e o que já era fica meio que indistinto à luz de uma memória, o céu é sempre símbolo, uma lua que entreguei, uma vontade de conversar sobre as estrelas, ou o sempre sempre conversar sobre as estrelas, como metáfora tanto do que aconteceu como do que poderá vir a vir, a fascinação pelas mil e uma noites, ou me diga de maiakóvski, ou toque uma música para mim, fale de si, me pergunte de meus pais, desvendando e desvelando cada um desses traçados juntos e também as marcas do corpo, o céu continua louco e só isso é o que tenho a dizer, os reis são destronados e depois viram refeição para os próximos num mundo velho remoto e canibal, eu sou tão belo se visto pelos meus olhos ou pelos seus, e assim é o filtro de todas e todas as existências, e dos melhores cafés, tem minha mãe no meio, uma discussão sobre platão, outra sobre tarô, e sobre as possibilidades de culpas, ou o valor da esquerda e da direita na política do mundo, tudo e nada virando um jogo de sete ou oitocentos e noventa e sete erros, há a possibilidade de um filme ou de outro, e a imagem de fumaça saindo de uma boca ou outra, há o belo conflito do estético e do ético e a imagem reforçada de alguma coisa, tão reforçada em carvão e nanquim,  há hieróglifos e também ideogramas, e distinguir o passageiro do relevante me soa bobagem, há o pão francês com requeijão também, eu tão e somente quero poder mergulhar mais e sempre em cada uma dessas muitas coisas e sentir que tudo só pode me deixar mais vivo. e agora penso que só remisturei isso tudo pra que me alimente, mas é não que eu tenha fome. também não é gula. algo como respirar.

portanto e contudo

portanto e contudo à medida que te miro e te meço,
me parece que aos poucos meus olhos veem menos e veem mais,
sem que seja possível ponderar
o tanto que minha pupila se abriu,
ou o que há no fundo dela,
ou lá no fundo do meus olhos tantas letras e versos,
portanto e contudo isso tudo à medida que te viro e te peço.

portanto e contudo à medida que me giro e me peço,
me parece que aos poucos minhas mãos traem menos e traem mais,
sem que seja plausível ponderar
o tanto que meu gesto se abriu,
ou o que há no fundo dele,
ou bem acima de minha pele tantos dias e restos,
portanto e contudo isso tudo à medida que me giro e me peço.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

dizer

tem me soado tão tão importante ainda assim e mais assim.

o primeiro e único cigarro de um longo dia (que nem pareceu tão longo)

choques dos modos e dos gestos. difícil marcar a medida dos incômodos aceitáveis e dos terrenos ok de serem pisados. a sensação de tempo pega. faz tanto. e um grande grande e daí? me desculpa, não desculpo, vamos nessa, não adianta. tenho sono. penso que é estranho. minhas costas doem um pouco. eu já vi esse filme antes. não, esse não vi, mas não quero ver agora. vontade de falar da incoerência do mundo, e da possível lógica de explicação de tudo. ou de ficar quietinho de cabeça no colo recebendo cafuné. como se fosse um refúgio. um momentozinho de tranquilidade no meio de todo um caos. o silêncio atrapalha, mas ele nem é tão real. parece que a cada gesto uma sinfonia. ou uma sanfona baixinho em tango. fico assombrado pela idéia de duas pessoas andando o mundo inteiro, cada uma num sentido contrário. elas partiram no início de suas vidas. e não se encontram porque confiam no poder das coisas. e jamais combinaram entre si que se encontrariam, também. não houve um acordo: nada disseram. apenas andaram para lados contrários. e confiam. tenho um certo medo de que uma delas morra picada por uma naja no saara, e a outra depois passe pelas mesmas areias, sem nem suspeitar. ou que sinta um calafrio no momento e saiba. ou que se encontrem. de todo modo, é assustador. para que lado seja. mesmo que tantos dias passem que ainda seja possível que disposição mútua gere encontro. é complicado, difícil, amplo, vasto, e coisa e tal. tenho uma leve sensação de estar rodeando alguma coisa que não faço idéia do que exatamente seja ao pensar nisso tudo. e tenho vontade de falar dessa bagunça toda sem procurar sentido algum nela. não que seja possível, talvez. tenho tido vontade de testes, de riscos, e de um pouco de baunilha e violão. querer é bom. mais.

mais do mesmo #69872

velha velha velha preguiça de dormir (2)




tão muito muito mais a dizer mas tenho mais ainda sono

domingo, 11 de julho de 2010

na medida que só falo

eu falo demais, eu não consigo parar de falar, de minha boca só saem as mesmas palavras e frases e no fundo no fundo é isso. eu queria dizer como as coisas tem acontecido de alguma forma que as pintasse de timbres adequados, límpidos, reluzentes, retilíneos. mas eu só consigo falar, e falar de água. e loqüelante e levemente tonto, e com um sorriso idiota e constante na cara à medida que danço a música de minha vida após muita e muita cerveja, nem tenho idéia do tanto que gastei e até onde fui. acho que meu corpo se inadequa à grama. aí me lembro que sou grama, e está tudo bem. aí toca um blues, e tá tudo melhor. uma música de strip, e opa!, aonde vamos parar? relacionalmente falando, racionalmente, rotineiramente, rasurantemente, está tudo tudo tão alguma coisa.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

mais do mesmo #65984

velha velha velha preguiça de dormir

torrencial

sempre achei meu silêncio vasto demais, profundo demais, desmedido. até perigoso, eu diria. e flertando comigo assim como puta barata voltaemeia...

de uma chuva no meio de um dia seco de inverno

hoje choveu. o clima no ano está estranho. gostoso, porém estranho. cada ano é único, assim como cada dia, e tal. há uns detalhes que, no meio das coisas, tomam uma poesia pungente. arregaçam na sua cara. no meio da fechadura vezenquando dá pra espiar. é bonito demais quando chove assim sem aviso. mas também assustador, pelo inesperado e pelo imprevísivel. e a seguir: o que essa chuva diz sobre o estado das coisas? há alguma canção secreta por entre as gotas. que podem ser duas ou três, as canções. e se o sol se insinua, temos um arco-íris, qual cor que temos por destaque? e o que por fim vai nortear as coleções de primavera dos desfiles de moda? e nós humanos, desde o berço dos dias, nas primeiras luzes de amanheceres imemoriais, já relacionamos que aquele raiar era como que uma saudação. assim que, portanto, como que refletidos, o que estaria na terra estaria acima e também abaixo. e aos lados. e em cascas de árvores dessas terras ásperas, imaginamos que assim como nós a terra se defende do fogo. também, como fazemos a guerra, que a natureza nos ataca e ela mesmo entre si. e deuses como nós. ou um céu tão grande e vasto e distante que, certamente, há algo acima. e ou abaixo, dos lados, a frente, atrás. dentro. e se acima, no céu, temos estrelas no momento em que nascemos, isso deve nos dizer algo sobre os dias e sobre nós. sobre eu, sobre você, sobre eu e você. ou simplesmente não. mas é tão bela essa chuva surpreendente. será que ela tem gosto? tanto faz o que ela me diz, que diga pouco, ou nada. é bela e grita. aqui eu grito com ela e por ela e para ela e em ela.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

com edredom

e eu continuo a escrever pra mim, meio que me escondendo, meio que cantando baixo. e me sinto tão em paz.

coloque aqui o nome de uma música mas não diga qual

aí vi que deixei a porta aberta. de besteira. só não perdi as chaves de casa. nem o freio, penso. não vou precisar que ninguém pule do carro, nem jogá-lo contra o muro. ainda estou tentando me articular. é estranho que a vida vá assim, ia dizer andando ou correndo, mas digo: rolando. e agora alguma guerra está rolando no mundo. e mesmo que vez ou outra se tropece, quem não cai de vez também segue assim: rolando. o que é movimento de mola, só que sem o vai e volta. pra isso ficam as marés. repito o que elas me dizem e me dá uma calma. eu nem minto. parece que quase desaprendi a mentir. só brinco de guardar mesmo, tenho um baú embaixo da cama. acho que se, se o que for, que seja sem que eu queira tanto. a minha vontade me arrebenta, porém. e eu sigo assim, rolando. algo como meu joelho dói, minhas costas coçam, as idéias se alteram e se alternam e mais uma vez vulcão função estou louco. fecho os olhos e vejo olhos. não faz o menor sentido, o mínimo, que nesse exato instante esteja alguém batendo o carro nalgum canto do mundo. no muro, para pará-lo quem sabe, sem saber direito se vai parar o carro ou o mundo. as pessoas amanhã seguirão às suas aulas e provas e trabalhos e maridos, e ainda assim, uma guerra no mundo. vamos com baricco: dentro de uma garrafa. milhares de cacos eventualmente, mas virando areia na praia. até que não dê pra distinguir mais nada. não faz o menor sentido que eu esteja rolando porque capotei. algo como um sonâmbulo.

loser mesmo

ah, a garota dos meus sonhos. loira, tinha o cabelo meio curto, estava com um grupo de amigas, tinha um rosto que lembrava o de alguma outra pessoa, sei lá, um jeito desses espontâneos, puxou papo sem motivo, sem explicação, encostou a cabeça no meu ombro da mesma forma. gratuitamente. depois me avisou, sem mais nem menos, depois que eu perguntei qual era o programa bom da noite, que eu ia levá-la em casa. fez qualquer coisa do tipo um jogo de perguntas interrogatórios, aquele misto de personalidade clementine em brilho eterno com alice/jane em closer, mais pra closer, bem perto mesmo. é, claro, eu acordei um pouco depois. antes de levá-la para casa.

já te conheci besta

já te conheci besta,
inclementes seus uivos invadiam a sala
e tomavam de assalto os copos e a prataria.

já te conheci besta,
e fundo na carne tenho de suas garras as marcas,
como se fosse o mínimo, como se fosse o condicional,
como se fosse tolo, como se fosse atemporal.

já te conheci besta,
e não foi à toa que tive de te amordaçar,
juro, meu bem, não foi à toa.

já te conheci besta,
não ouço mais hoje seus uivos,
e fundo em meus ossos sinto lamúria.
lamúria candente, lancinante, pungente,
como são os advérbios dos modos torpes das coisas.

já te conheci besta,
e obviamente, hoje,
não mais me conheço e a ninguém
que eu visse na rua, poderiam
ver por entre minha face, desfigurada,
um mero relance do azul que antes eu.

já te conheci besta,
e só assim, eu só.

terça-feira, 6 de julho de 2010

o mar e flutuar

liberto-me ficando meu escravo,
ou algo como que sujeito às marés das coisas,
que ondas levam e traz levam e traz.

liberto-me citando caetano, e cuspindo na filosofia,
e tocando violão.

liberto-me por simplesmente assim me querer
livre.

liberto-me pelo querer transitivo,
e também pelo intransitivo,

liberto-me por cores, por calos, por datas de aniversário,
por cheiros, por abestalhamentos, por cantigas e relicários,
pelo vívido, o vivido, e o vivido vívido,

liberto-me por sei lá o que pode ser, só o que é.

que-porra-é-essa?

36 horas virado

putaquepariu

repetindo: como a vida pode se mostrar tão inacreditável às vezes. é inacreditável, e inenarrável.

pedaço de uma coisa que não sei se verá a luz do dia

E de alguma forma rememorar você, renarrar-te (arte), de uma forma que você não foi, para uma forma que eu seja que eu seja outro agora que te narro. Não o mesmo que fui, não o mesmo que tentei ser, não o mesmo que não pudemos ser. Não marcado pelo signo da impotência, não marcado pelo signo do não. Marcado pelo ato, pelo potência, pelo desenrolar dos momentos que não foram vividos, mas que agora são. Agora estão aqui presentes. E ninguém saberá o que foram de fato, pois que estão pelas minhas mãos. E é tudo questão de poder então. 

segunda-feira, 5 de julho de 2010

te respondo / me respondo / se expondo

não, não é assim. é de outro jeito. imperativamente me afirmo porque a vida é gramatical. aliás... estou me sentindo meio verde, preciso dizer. ou meio que n'a Ilha do Medo. titulozinho de merda em português. eu sempre olho as horas quando estou escrevendo com sono e escrevo algo como eu deveria estar dormindo da mesma forma que quando passava na frente da loja de tatuagens pensava que deveria me decidir por uma e passando em frente ao pet shop pensava que queria um peixe e passando em frente à placa de ciência cristã eu pensava gente que bizarro. o fluxo da molly pelo joyce em ulysses, li ontem ou anteontem, tem umas quarenta páginas sem vírgula e sem ponto. fico penso que acho que nosso fluxo tem muitas vírgulas e pontos. mais entonações que vida real mesmo. meio que factrais. é assim é assado é não é sim, e a escrita nem consegue pegar todas essas gradações e ênfase. ou, fica uma coisa bizarra, como que: "é assim" (numa entonação que lembra um choque de uma decisão cavalar com uma imprecisão aquosa e lilás com o medo de séculos de história carregados em concentrado). e a psiquê, digam ae. tem gavetinhas escondidas ou simplesmente não existe? a ilusão de subjetividade é uma ilusão ou é subjetividade? o livre arbítrio existe ou a gente só acredita nele? e por acreditar nele ele não passa a existir e influenciar sua vida? a narrativa estruturante de nós não é o que faz o nós?, aliás, o eu. afinal: eu sou uno e indivisível, não é mesmo? rs. até parece. me lembrei da rebecca e da boneca de pano. poucas vezes li algo tão bonito. e que doa, eu entendo, mas não me dói ser, sei lá, uma colcha de retalhos incoerente. não dói hoje, não tem doído, tem muita coisa que não tem dói, tem coisa que dói de forma engraçada, tem coisa que dói de verdade. e ser humano é tão ser alguma coisa que ninguém sabe direito o que é. e se eu ficar me comparando com a medida do humano, o que é que eu ganho ou perco? e se me coloco em termos búdicos e lalalá, como é quem sou? do tipo, praticar o desapego é desumano? os lindões budistas carecas e pá falam da onda de evitar o sofrimento por evitar o desejo. parece desumano. é? é isso que tou fazendo? eu já acusei muito buda de ser uma estátua. eu tenho desejos, ou não os faço me destruírem de rebote. mas esse é o autocontrole que, sei lá, me faz beber mijo ou comer merda ou brincar com cadáveres por rebote? só sei do mistério. do caos. da linda não ordenação das coisas que me domina e me preenche como se eu fosse bruxa e o diabo me possuísse às três da manhã todo santo dia. nem é todo santo dia, santo hahaha, nem muito menos às três da manhã, mas acontece. e o diabo é lindo, com muitos braços e olhos ofuscantes. eu me perco naqueles olhos. a falta de sentido faz o mais absurdo e bonito sentido do mundo. e esse jogo de palavras pega. e eu beiro novamente o limite de linguagem e me fascino. e ter colocado isso em tópicos teria dado, inclusive, outra organização textual às ideias. de tudo da reforma ortográfica, o que mais comprei foi o ideias, pela preguiça de mandar o acento e tals. besteira. rs. sabe, o que faz diferença de fato, eu acho, é que eu sou de fato diferente e eu, ao invés de pensar repetidamente a mesma coisa, um dia percebi que isso era ridículo, e nesse eu dia entrei na loja de tatuagens e perguntei se eles faziam henna, e fui no pet shop ver se eles tinham peixinho. e quanto à ciência cristã? eu pensei "que bizarro" novamente e ri. e acho que teve alguma das "junguianas" na vida outro dia, como se fossem bachianas, sei lá. rs. é que sei lá de repente dia desses depois disso esbarrei em algo falando sobre a ciência cristã. e daí né? rs. um compositor podia brincar de compor com Junguianas. a ideia tematicamente é bonita demais. o inconsciente coletivo é uma ideia muito bonita e absurda. podia brincar de coerência e começar a acreditar na ideia. ser coerente com a minha própria incoerência. mais uma vez a linguagem me prega uma peça. gramatical gramatical gramatical.


(em 03/05, após uma conversa com tati num fast food)

para tão frágil recipiente

tanta a coisa pra carregar
que uma hora a sacola rasga.

os humores escorrem,
acidez matizada de anil e ternura,
frustração com leves notas cítricas e tons de glória no fundo
(quase discretos, mas que podem começar a borbulhar e tomar o resto,
e o projeto, e a própria noção de projeto mesmo, vira uma caricatura tosca e tola
de tentativa de solidez),
gritos urros sussurros horrores,
uma breve listinha de humores que, antes em caixinhas,
caíram no chão e fizeram tanta bagunça...

mas é tanta coisa mesmo pra carregar,
a sacola nem aguenta.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Eu Juro

Que seja, só mais um gole desse conhaque, que nem sinto mais o gosto, e mais uma canção qualquer que vou pretender que diga a verdade do momento. Tolo que é, não perceberás que não há verdade alguma de um momento, que não os gestos. Esses sim, tem uma precisão que escapa da ordem das coisas. Recolocarei o batom, certa de estar certa, tão perfeitamente encaixada como pepinos em conserva. Não há de que, não há de que. Fora daqui, de isso, de dentro, não há o que se dizer, de certo. E claro que quando é dito só pode ser assim. Qualquer coisa de muito esgotado, de muito exaurível, de muito porco. De muito fim de percurso de quarenta anos no deserto, de muito esgotável, de muito abominação. De muito findo, de muito tentativas de qualquer algo, de muito esgoto. Que seja. O estofado manchado, minha cabeça encostada, eu abro minha boca e posso ser o seu divã. Venha para o reino de onde não há volta. Venha saltitante, venha pirilampo e adocicado. Assim espero. E estafada, porque não? Não que saibas. Não que virá a saber. Eu protesto! Não há de que. Pelo quarto, poderia ter sido antes sentada na mesa, apoiada na bancada, como fosse, minhas roupas vão rastejando pelo chão, não sou nada sem meus gestos, repito para mim e para você, candente, cadente, explosiva. Humanos, fogos de artifício, todas essas besteiras. Após esse fim, mais um fim, quantos fins!, posso pegar o batom e escrever seu nome na parede. E então borrá-lo. A parede toda vermelha, seu nome vermelho também. Se chovesse dentro de casa, eu penso, e se minha parede fosse meu rosto, eu penso, e se no meu rosto não ficassem as marcas em carne viva, eu também penso, e se em minha pele já não estivessem traçados os meus contornos, eu também penso, e se eu corresse contra mim mesmo, eu ainda penso, poderia ser uma sucessão de rastros. Se desconexos... Não há palpite possível para tão vago enigma. E é claro, não há como saber, olhe nos meus olhos de flama, e meus olhos poderão dizer qualquer coisa de vão e vácuo. Mas não se preocupe tanto com esses detalhes, pois que eles são cem e invisíveis, como se tentasse compreender para onde um camaleônico demônio de mil olhos olha. E se quem sabe, ao acaso, você sonhasse comigo, encontrasse algo como uma casa de ópera? E se ao fim do espetáculo você se descobrisse com a bateria do carro estragada e precisasse pedir para mim uma carona? E se eu lhe dissesse que dou, que dou, que lhe dou tudo, isso significaria que eu acredito que me dou? Seria? Mas que eu te olhe com meus olhos e seu rosto seja de cera, não sei, de relance, já faz com que tudo tenha se derretido a algum tempo. É nessas horas que me pego assim. Me levo, conhaque, cantarolar, dizer obscenidades e jamais, jamais tirar todas as peças de roupa. E ao fim, te vomito, morno.