sexta-feira, 12 de março de 2010

Eu sempre quis ser seu comensal

Hora de brincar de remexer. A cena daquela garota sentada em cima do brinquedo do parquinho ficou em minha cabeça. Não há nada mais ficcional do que a realidade. A outra garota, virando para o carinha e falando: chupa meu pau. Bem, são essas as coisas que acontecem. E outra, e outra, e outra. Uma profusão de mulheres, o filme de minha vida seria uma espécie de Oito e Meio ou Nine, com a diferença que teria algum título esdrúxulo como Trinta-e-Sete. Não faz mal. Não faz mal mesmo. Quantas vezes eu precisaria repetir que a casa está uma zona. E que as coisas vão se arrumando aos poucos. E o medo de, subitamente, começar a talhar frases que são feitas de bile e de pus. A substância dessas coisas está no cigarro que eu acabo de fumar. Ele termina, eu vou de uma página a outra de qualquer coisa, o som grita e eu penso também em outra coisa qualquer. Isso não é tédio, mas isso é alguma coisa de desconforto, como se eu estivesse dormido em cima de meu braço em termos existenciais. E cá estou, usando-o, me doendo, doando e etc. Meu tom é sempre o mesmo, e aos poucos vou me sentindo um pouco babaca. A cena daquela garota, com seus sei lá quantos anos, já uma jovem, logo em breve perdendo dentes aí pelos cantos - muito em breve - amanhã mesmo - ou na hora seguinte, fica na minha cabeça pela ternura que se pode dispensar a qualquer coisa. E os ferimentos ardem essa noite em contato com o edredom, e a noite é tão fria e o vento uiva sem dormir nunca. E eu permaneço acordado e em cima da mesa estão pedaços de minha vida. Eu poderia ter dito destroços, ou espólios, ou migalhas. Mas não são. E é mais uma grande verdade que estou com medo de virar uma estátua aqui agora, e dos possíveis passos em falso, e que no dia seguinte não faça sol e ainda assim nos obriguem a ir à praia para que celebremos. No fim de tudo, é o terror que toca meu rosto quando estou deitado na cama à noite com o sono dos dias e o desespero dos alucinados. Sem nunca voltar pra casa.