quarta-feira, 17 de março de 2010

E o frio

Eu estive um tempo por aí escrevendo pelos cantos. Atrás de portas de banheiro, em guardanapos a serem jogados no lixo amassados dentro de cinzeiros, em tampos de cadeiras de faculdade. Hoje ouvi um som bonito, mas bonito e grande, tanto quanto você é. Era como um uivo que se desvela em mil lótus em fractais. Foi o que ouvi. Aí deu aquela doidinha de querer tentar escrever seu nome e no final querer morrer na praia. E ter uma dúvida: se é melhor secar desidratado, na praia, se é melhor afundar numa canoa, no meio do mar, se todo esse maremoto rodeando faria com que. E entrando dentro de mim, tomando cada ponta de mim, fazendo explodir cada célula de mim, entrando, tornando, revirando, chacoalhando. E o frio. E do fundo do mar deus retirou a rolha que segurava a água e escorregamos rumo a um abismo tão fundo. Tudo isso pra que eu pudesse escrever seu nome. Aliás, assim eu estaria gritando seu nome. E o nome de todos esses filhos-da-puta que nos rodeiam estariam mais ou menos que contido em cada uma das letras. Seria uma espécie de declamação do alfabeto em seqüência, dos tijolos do universo, dos ecos vagos dos astros, das luzes quase ocultas de pulsares. Cada recombinação, alexandrina, sob o oceano. Todos os gestos mais vãos de todas as mãos mais tesas de todas as buscas mais tontas concentrados num único, e meu, grito. 

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