quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

milho pela sala

sentindo que as formas de gelo, e eu água, pra ser colocado na geladeira, tão me apertando por lados de cá e acolá que nem sei bem direito quais. fico pensando mundos a serem conquistados antes de sair do quarto. abrindo a porta, esqueci o nome da primeira cidade a começar, deixei o papel com o plano voar pela janela, perdi a toada de fazer o discurso pra mobilizar multidão. minha aldeia é tão pequena, mas o mundo é uma aldeia, o mundo não é maior que meu quarto. de qualquer forma, preciso cantar, que sou pássaro, eu acho. talvez eu dentro da gaiola, talvez uma hora só as penas, talvez eu gaiola, talvez imagem nenhuma, não é? explodir os limites disso, por dentro, fazendo big bang no meu intestino. ah!, textualidades e indizibilidades da vida!, ah corpo!, ah glória!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

alguém pra

alguém pra beber a vida juntos, pra dizer o que dos dias sobrou marcado no fundo e fez o coração arder colorido e confuso, pra tentar achar pra onde a cabeça foi não foi e pode ir como cabaça num jogo de bola,

alguém pra dizer do pôr-do-sol e de formas nas nuvens, e achar os tons de verde que mais raros, ametistas que se perderam em pó de estrela que da noite foi mas ficou, ficou assim com gosto de dó,

alguém pra tanto de simples-pungente que precisa se fazer

alguém pra mais

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

pro ibope

aí xuxa, essa parada de natal...

é como que um ritual pra neguinho repensar a vida, o ano, etc. pra dizer os eu-te-amo que nunca diz. tou puto com. adoro rituais, adoro novas chances. mas sei lá. tipo que a simbologia jesus cristo nascendo já me disse mais.

aaah... e é uma data fofa e lalalá. sim, a mim não tá me tocando mais.

é que talvez família é o que fode nisso tudo. e família muito me fode nisso tudo.

ah, mas que preguiça...

tenho tido preguiça de dizer. é sempre estranho estar viajando. preguiça até de falar. enfim, esse post chama: preguiça. (o bom é que tou de boa com isso, rs)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

ano-novo é sugestivo pra essas coisas

«Quantos seres sou eu para buscar sempre do outro ser que me habita as realidades das contradições? Quantas alegrias e dores meu corpo se abrindo como uma gigantesca couve-flor ofereceu ao outro ser que está secreto dentro de meu eu? Dentro de minha barriga mora um pássaro, dentro do meu peito, um leão. Este passeia pra lá e pra cá incessantemente. A ave grasna, esperneia e é sacrificada. O ovo continua a envolvê-la, como mortalha, mas já é o começo do outro pássaro que nasce imediatamente após a morte. Nem chega a haver intervalo. É o festim da vida e da morte entrelaçadas.» [Lygia Clark, 1967]
(fonte: http://jaguadarte.blogspot.com/2010/02/nem-chega-haver-intervalo.html)

como período de virada a vir. tou aqui em rio pomba e a vida aqui sempre passa nesse não-ritmo estranho. com a diferença que o que tem acontecido e o que tem sido e quem tem me dito e etc, tudo isso assim, me tem sido meio alheio.

tou ficando tempos e tempos na internet, indo parar de um lugar a outro. vale a pena clicar no link e ver a foto de lygia clark. tou me divertindo lendo mil coisas, pensando mais um monte. as imagens de lygia. de couve-flor, imagem esparramada, pra pássaro, que voa, leão que urra. a ave que morre, prefiro que com o pescoço torcido, como já fez minha avó um dia. as histórias que meus pais me contaram são hoje minha carne que eu fiz.

entre uma coisa e outra, é verdade, nem chega a haver intervalo volta e meia. existe aquela morte arrastada, morte UTI, morte sacana e filhadaputa. uma morte súbita parece mais atenciosa, se pensar assim. não dá tempo de dizer tchau, logo me ergo em protesto. é. não dá. quase nunca. tchau. e oi. hello goodbye you know you make us cry.

terminar com uma imagem tão minha que tão obscura que nem sei de onde ela saiu de dentro pra fora e que canos de meu corpo que ela escapou. o urso do cortázar pelas águas dos apartamentos fazendo barulhos nas tubulações e ocasionalmente acariciando os rostos. todos nós doemos muito, que gracinha que somos. lembro uma vez com uma amiga que falamos de ficar abraçados se fazendo carinho pelo resto da vida. vou estender e pedir uma erupção vulcânica que não vai vir. ia gostar dessa imagem dos dois eternos.

se me matarem agora, juro que morro feliz. o importante é isso. oi, ano que vem daqui a pouco mais de uma semana!

domingo, 19 de dezembro de 2010

Canta Pra Mim?

Que já que não podia ser, me deixo que minha cabeça me leve pelas barras de saias todas. Que as suas você não, e eu parado, sem mãos pro alto nem nada, digo, porque as cortei. Deixo-me de repente escorregado naquele olhar baixo, imagino e sou minha mão no meio daquelas pernas a conhecer um calor novo. Não que eu quisesse que fosse assim, mas a gente vai como pode, já que as suas eu não. Com tudo ridículo que é você, e eu ainda assim, mas deixo minha cabeça ir pra outros lugares que é só o que ela pode fazer. Naquela nuca, se eu segurar, textura que é toque, será que consigo imaginar o rosto se fechando em raiva, acho que sim, lembro assim que depois de uma bebida ou duas ou três e você mexendo-se mexida quase desengonçada, e com toda graça do mundo. Você que existe. Mas uma sombra, assim, e tudo bem, que de repente vai tudo embora, que não faz mais sentido algum mesmo. Devia ser o costume. De repente o calor de pernas novas, e eu sei bem que quero me deixar embalado, como se ela e minha cama juntos cantassem pra mim pra me pra ninar.

vi uma coruja hoje

cheguei em casa pensando nos muitos amores, e dormi quentinho.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

beijo frio em minha boca

janelas que abertas e todos os insetos dentro e depois você as fecha e nenhum sai e você os come todos vivos sentindo eles se mexerem enquanto morrem.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

camus sobre kafka

Da mesma forma, se Kafka quer exprimir o absurdo, é da coerência que ele se servirá. Conhece-se a ­história do louco que pescava numa banheira: um médico que tinha suas idéias sobre os tratamentos psiquiátricos lhe perguntava "se isso mordia" e recebeu a resposta rigorosa: "Mas claro que não, seu imbecil, pois se é uma banheira”. Essa história é do gênero barroco. Mas se capta aí, de maneira sensível, como o efeito absurdo está ligado a um excesso de lógica. O mundo de Kafka, na verdade, é um universo inexprimível em que o homem se dá ao luxo torturante de pescar em uma banheira sabendo que nada sairá dali.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

piscina de bolinha

um brinde a quem queima, um brinde a quem estoura, um brinde a quem flutua. um brinde a quem sequestra, um brinde a quem se deixa, um brinde a quem rouba, um brinde a quem mata. um brinde a quem espera, um brinde a quem enfia a mão, um brinde à puta, um brinde à santa, um brinde à santa puta. um brinde ao padre, um brinde ao alpinista, um brinde ao rufião. um brinde às bruxas, um brinde às donzelas, um brinde à sua mãe. um brinde a quem procura, um brinde a quem não acha, um brinde a quem quebra pernas, um brinde a quem derruba copos.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Meu rendez-vous

Algo ontem no que sobrou na boca do gosto da noite gosto de sol ficou assim. Algo como que essa coisa de saber que as verdades não se dizem, e que inverter os pés pode fazer sim, e verter e terver e toven toven toven na minha cara. Repetir algo muitas e muitas vezes até não fazer mais sentido algum. Ou até que se torne palavra travestida de si. Virada do avesso, debulhada, que a verdade que não é que também não é mentira. O gesto elenca o que vai pra cima do altar. Deus tem inveja, não tem? Não é pra menos. Que ontem ter feito os percursos com outros passos e fazer as palavras com outros olhos e ter lido cortázar e ter ficado meio cego naquela festa e ter escorregado com o sofá e ter lembrado pouco da minha chaga e ter falado de dores como se elas fossem não mais que palavras. Porra infinito poder criador do gesto! Porra elis regina entrando no meu ouvido! Porra eh-lá eh-lá eh-oh eh-eh.

(que amor é palavra? que amor que se faz sentir? que não ter objeto que faz meu dedo prosseguir? que não dizer? que não coisa? que quase coisa nenhuma?)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Como Um Tropeço

Entrei no elevador e a porta não se abriu. Era a segunda ou terceira vez que isso acontecia. Reclamei no comunicador e ninguém respondeu. Fiquei agoniado. Meu celular também não pegava. Quando a porta se abriu, você estava lá todo destroçado. Um braço estava pela metade ali pelo cotovelo, e pendente. O outro, inteiramente lacerado de fora a fora, pela veia onde as pessoas costumam se matar, fazendo ver o osso. Queria que você pudesse se ver. Os olhos sempre tão esbugalhados estavam completamente saltados das órbitas e pendentes. E eu estava com tanta fome que logo os arranquei. (Você sabe que não deveria ter se deitado comigo, irmão, pensei dizer) A perna esquerda tinha uma cratera que parecia tiro de escopeta. Eu não tive medo. Seu pinto, arrancado, e do furo jorrando sangue e pus. (Acho que porra também, mas esse adendo é desnecessário, acho.) Você sorria de forma sinistra, aquela boca que ocupava mais ainda sua cara porque sem nariz. Você ainda tinha alguns dentes, e sua gengiva tão roxa e inchada que parecia querer se soltar. Você tentou falar mas acho que a língua tinha sido cortada. Me pareceu. (Eu quis dizer shh shh shh darling, shh... hush hush hush, porque não adiantava falar, darling, mas estava achando tudo um pouco engraçado mas segurei o riso) Atrás de você tinha uma parede preta. (Acho que você estava dentro de uma caixa preta, e eu jamais vou entender o desastre portanto, mas fazer o que? Borboletas para isso. Matar e morrer, cada um mata aquilo que ama e laralá,) Você me estendeu uma mão, aquela do braço rasgado no meio, e ela tinha só um dedo só, e era justo o do meio. Você me queria um aperto de mão, e nem reclamou nem fez barulho quando arranquei seus olhos. Pensei assim que era muita segurança ou presunção ou qualquer coisa assim imaginar que eu estava ali na sua frente. Não sei se você ouvia minha respiração. (Eu estava me sentindo um pouco cansado já.) Sua orelha esquerda pendia derretida. A direita só tinha a metade inferior no lugar. No peito onde devia bater um coração obviamente tinha um buraco. (Não tinha como ser mais óbvio, não tinha mesmo.) (O que punge, arrebenta.) Na sua barriga eu via translúcido o intestino e tentei divisar o que você tinha tido por última refeição. Seu dedo do meio estava preto como se você tivesse levado choque. Percebi também que você cheirava à vômito, além do evidente cheiro de morte. (Das várias mortes que deve ter tido, uma delas certamente foi indigestão.) Metade da sua cabeça sem cabelos, uma mancha vermelha carneviva como se tivesse pegado fogo. Teve uma hora que você coçou a cabeça justo lá, com aquele dedo preto, coçou com tanta gana e fúria até sangrar. Você não tinha parado de sorrir, em momento algum. (Parecia que fazia um espetáculo.) Seus pés, os dois, eram uma massa disforme, parecendo uma papa de carne amassada e comprimida. (Eu sentia uma paz estranha. Ela era pesada, mas era borbulhante. Metal líquido se como fosse.) A porta do elevador fechou. Dei tchau tchau sem falar uma palavra, mas pensei tchau tchau. Aí voltei pra casa, tomei suco de maçã e liguei pra portaria reclamando da assistência técnica.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

otávio paz:

"A poesia é metamorfose, mudança, operação alquímica, e por isso confina com a magia, a religião e outras tentativas para transformar o homem e fazer “deste” ou “daquele” esse “outro” que é ele mesmo. O universo deixa de ser um vasto armazém de coisas heterogêneas. Astros, sapatos, lágrimas, locomotivas, salgueiros, mulheres, dicionários, tudo é uma imensa família, tudo se comunica e se transforma sem cessar, um mesmo sangue corre por todas as formas e o homem pode ser, por fim, o seu desejo: ele mesmo."

sábado, 4 de dezembro de 2010

meu samba

meu samba faz uma cadência que parece síncope. meu samba não despreza o lugar comum, porque ele diz de mais do comum que cegante, dilacerado. meu samba faz mexer. meu samba celebra tudo quanto há, o que deixou de ser, o que jamais será, o que ainda há de vir. meu samba abre os olhos de um tanto que entra luz demais e ofusca. meu samba acalenta pra dormir feito cantiga de ninar. meu samba vai pra nina, vai pra loa, vai pra cacá, vai pra susana, vai pra cléo. meu samba vai pro téo, vai pro aroeira, vai pro fred, vai pro adriano, vai pro dé. meu samba fala do mar por falar de tudo. meu samba fala de tudo por falar do mar. meu samba entende que sem história de pescador a gente não passa. meu samba entende que pra se mexer você não precisa de muito tambor. meu samba ainda assim se reserva ao direito de fazer uso de toda a bateria. meu samba faz ter pilha. meu samba é explosão. meu samba é coração. meu samba é furacão.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Numa Cadeira, Num Parque, Numa Cidade

Sei não se você lembra, mas eu sim. Decorei cada gesto. Sim. Seu olho piscando no meio daquele tanto de luz. O meu também e então a cena repartida em tantas mini-cenas.

É que. A promessa foi aquela, fazer o que? De voluntário, de tolo. Peço as correntes, ou eu mesmo as busco, as desenho, que feitas de ventos e lápis também. Também de vento, os lápis. É que. Desenhar os ares não é fácil, vou dizer. Contornar as nuvens também não. Ficar inventando história pra você dormir, sei não se você lembra, mas eu sim, ah eu sim. Ah! Eu sim. É que. Meu nome só vai ser esquecimento sete palmos abaixo da terra. Todas as ameaças que me fizeram, ouro que me juraram, pra que eu, uma vez que fosse. Uma vez que fosse eu, que fosse, eu dissesse de tudo impropérios. Mas algo desse terreno faz dele sagrado.

É... Há mais de mil'anos atrás, kayapós devem ter matado seu deus-vivo bem aqui. Ou celtas. Vem assim a mim que Morte e Vida, duas irmãs, incestuosas e siamesas e univitelinas. Gostam de confundir. Ninguém nunca sabe direito qual delas que está cantando. Qual que tá mexendo a cabeça em sinal de reprovação. Não sei você lembra dessas verdades, mas eu sim.

Também não sei se minha voz te deixa surdo, mas sim, eu falo.

Acho que se fosse pra ponderar um propósito, eu diria que não, que não façamos brincadeiras de criança. Não vamos definir assim que existe polícia-e-ladrão. Não vou dizer se tá quente ou se tá frio.

De cor, também tenho aqui cada posição do aposento. Poucas fotos, e descoradas, e cada ângulo que feito entre a estante e o abajur. Cada desenho da parede, cada vez que você deixou o cigarro cair do cinzeiro, cada copo esquecido perto do Neruda. Eu li sim, viu? Cada palavra está aqui repetindo na minha cabeça. Tipo música ruim que fica grudada. Inseto dentro se mexendo numa caixa de vidro.

E elas, as palavras, as loucas, as migalhas, Elas compõe essas outras, que não sei falar de outro modo que não seja por resposta. Tudo que você me falou tá aqui dito de volta. Tipo como um acidente de carro.

E faz pensar que cada uma dessas letras aqui, se recombinadas, pra fazenda do texto que conta tudo. Tecido com uma agulha que usa também meu couro. E a linha deve ser meu cabelo. Tudo tudo tudo em mil e novecentas letras. Contar do dia que minha mãe morreu e como fiquei mexido, porra, pra você me dizer depois que não sabia que minha mãe estava morta. Contar do leite na geladeira. Contar das vozes daquele coral naquela cidade velha de igrejas aos pedaços. Contar do olhar daquela velha naquele dia daquela chuva que você certamente vai dizer que foi com outra pesssa. Mas sabe, não sei. Não sei mesmo se você esqueceu. O que sei é, eu que sei tanta coisa, pra meio de tentar dizer que sigo. Mas sei de nada, que saber é coisa muita nos cantos de cá. Sei de alguém que soube tanto que se perdeu.

É que acho que o saber é uma espécie de afundamento. Como se a gente estivesse andando num papel e ele fosse dobrado bem na hora que se sabe. E você pode, assim, ficar amassado lá no entre. E nunca mais. E seu muco, se você for um inseto, fazer que fique grudado para sempre. Sei de gente que passou por isso. Não foi legal. Saber, saber mesmo, acho que ninguém quer.

Então é por isso que finjo que sei, pra seguir. Pois, senão, eu fico.

Então sei que o esquecimento é salvação, mas acho que jamais terei como se não souber trocar os sons de lugar. Renitência, remitência. Retenção, redenção. Beijo, queijo.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

analisando meu blog

1. 65% dos posts são algo como eu-odeio-o-mundo
2. 45% são algo como eu amo o mundo

e variantes. aí tem amo-meus-amigos, amo-viver, amo-dar-palas, amo-até-me-foder. tem também os oh-vida-de-merda ou oh-porque-acabou-o-doce-gostoso ou oh-nada-dá-certo. rs. ah, tem os reflexivos, mas eles também são do odeio e do amo. normalmente terminando com frases de efeito. he. meio babaca. rs

domingo, 28 de novembro de 2010

micrografante

depois com radiografia que pensei, por mostrar outra faceta do visível, pra além do recorrente. e por início foi a imagem de um balão de ar que cheio, explode. e isso filmado em câmera tão sensível, com muitos e muitos e infindos quadros por segundo. pensei que bonito. depois um balão de água. com um furo só, qual a imagem feita? outra: com vários furos simultâneos, em diferentes regiões. a água o esparramando.

sábado, 27 de novembro de 2010

livrai-nos

queria escrever algo sobre castillos humanos. a aba tá aí aberta. mas meus dedos tão podres.

dos ventos altos

abandonar o finalismo, e o fatalismo, e hedonismo, e mais todo e qualquer ismo. artaud me disse mais ou menos isso hoje de sua loucura com o peso de um vento que ninguém ainda entendeu. babel é mesmo um problemão, né? nossa. um tradutor automático, a tradução completa não existe, traidores todos nós, tradições, contornos, bolhas de sabão. alguém que me contou como elas explodem em câmera lenta. deve ser bonito pra caralho. todo mundo que já vi e já em mim esteve. tudo isso que foi. e o que é. é bonito. sem nada que ordene-encadeie além da vivência. vivência é uma palavra bonita. experiência também. e cadência. indecência. dormência. e por aí vai e coisa e tal.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

sem título

vasto mundo, raimundo, e todas essas coisas.

ted bundy quoted

 "I have known people who...radiate vulnerability. Their facial expressions say 'I am afraid of you.' These people invite abuse... By expecting to be hurt, do they subtly encourage it?"

um pedaço

assisti o vídeo do senador Budd Dwyer cometendo suicídio. impressionante.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

tonterias

nunca ninguém vai poder me dar o que eu quereria, e ainda assim eu queria você comigo. de repente pelos olhos.

o que faço baudelaire nos dizer de fotografias

o efêmero e o transitório e então portanto o detalhe, e principalmente o que maquia. os rostos são mais ou menos como os mesmos, elemento base fixa. é como dizer da cera que compõe nossos corpos que se derretem aos poucos, acesos nós, ao sair do ventre. do escuro para compor alguma luz. se cairmos na tapeçaria, às vezes um incêndio.

o brinco da moça que você está agora é igual o que ela usava quando ela se casou?, e ela e em que medida? seria a orelha da moça equivalente à cera e o brinco a ela mesma se até mesmo a orelha cresceu? então é isso? a orelha está derretendo. tá. entendi.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Os móveis da sala

Da glória, do desconforto, do vazio, sei delimitar alguns dos gestos, sei até como gostam que lhes seja dada a comida na boca, e como se eles se movessem no papel carbono e a pressão adequada fosse feita. Mas no silêncio, eu só consigo tocar a angústia em suas partes íntimas. Ela fica caladinha, imóvel, suando muito e suando frio. Angústia, eu penso, você é mesmo uma vadia.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

De escrita cansada

Vamos por essas tempestades que elas são mais mornas. Fazer cada um desses cantos soarem em cada precipício? Penso que também umas linhas gerais, maceradas e deglutidas. Ah mas essas infinitas dores espalhadas que comoveram até as almas mais cansadas e secas! Ah mas se chove! E se somos de essas coisas que derretem... Mas vamos que o tempo não tarda. Interrompendo cada canto. Eu queria seus cabelos no chão. Você merece tão mais. Vamos procurar por aí alguma coisa pra você? E para nós, eu busco as juncos todos, eu lambo os líquens, eu arraso essas terras que estão pedindo clemência. Ninguém está aguentando mais, cara. Ninguém mesmo. O velho problema de se encostar. Saia de perto, por favor. Não é possível que seja assim. Meus bloqueios, queridos e caros, me constrangem que chega o rubor me sobe. Enquanto que eu pensava em mudar o mundo você queria sua mãe. Enquanto que me pedia afeto você cruzava os dedos. Enquanto que a gente segue os passos, pulando pra que as linhas não nos cortem, por essas calçadas velhas. Todo mundo já pisou aqui e nós também. Terrenozinho mais velho e cansado do mundo. Enquanto que eu te dizia qualquer coisa você me dizia porra nenhuma de volta. Enquanto que eu falava pra gente ir você dizia que nunca mais ia sair do lugar. Enquanto eu te explicava que as coisas são assim você dizia que não queria e que não adiantava e não ia não. Quantas vezes que não quis lhe enfiar uma paulada na cabeça. Quantas vezes que não precisei tomar longas duchas geladas, e na época do racionamento de água foi ainda mais complicado. Preferi pedir aos céus, tentar divisar os mares, e já que eu profetizei isso tudo, agora aqui tento glossolaliar. E a verdade grande e estúpida é agora nada mais sai. Estancado assim, portas lacradas com tábuas e também as janelas, eis que antes os ventos invadiam essa casa sem cessar levando tudo pelos ares. Imaginei que nesse dia eu encontraria nós dois à frente da praia, e que brincaríamos com a areia como já fiz tantas vezes nos meus sonhos lá meninos. Ou aqui, mas trancado dentro do quarto, no escuro sem fim de mundos, de castigo e precisando olhar na parede e veja só o que diabos você fez! O que se pede de tanto que nada se oferece nem se entrega assim, se não como explicaremos que nenhuma dessas flores tem pétalas! Nem imaginei tanta coisa assim, mas muito mais que nós, tolos, imundos, com as cabeças voltadas para o céu contando nuvens. Nesse dia nublado é tudo uma coisa só e eu e nós e mundos. Pelo reflexo do espelho a gente encara o lado de lá, diz que imaginam que é a contra-face das coisas, e que todo esse ódio é só amor maculado. Mas não. Esse ódio é como o líquido do carvalho. Se lhe der um gole, você aceitaria? Posso machucar você? Posso te esmurrar e deixar os olhos roxos? Você está precisando de uma cor nessa carinha pálida sua... Não basta que você pense que tocou naquilo. Não basta que diga que não é possível alcançar também. É, eu diria que não há suficiência. Estou aqui pedindo rogando. E praguejo na contra-face. A beleza disso nem vai pelas palavras bonitas, ou a ordenação elegante. Porra de beleza nenhuma.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

olho

O olho é o caminho da eternidade. É o fazedor de mundos, o sorvedor de fundos, o delineador de mandos, o tormentador de bandas. É o lugar do retorno, do vão, por onde o vasto se escorrega, espelhando o derrubar que o mundo faz da saída do velho pro novo. Naquelas terras de ouros que a gente toca e viram pólvora. Naquele tempo em que ainda chovia fogo do céu. O olho tem a beleza da serpente que morde a ponta de seu rabo, e tem o toque doce do gosto estranho dos infinitos. Como um mar é, ainda que no fim do fundo da fenda nem. Lá embaixo onde os peixes suportam os pesos e as dores. Lá em cima onde os anjos não acham mais suas casas, ventos que prometem uns nunca-mais baixinhos em suas vozes. Do olho parte o retomar. Pro olho parte o renegar. Com ele que a pedra vista faz as outras de antes todas brotarem sacanas e risonhas. O cascalho dizendo a pirâmide de si. A taça de vidro dizendo as praias de mares que mortos. As carnes da vulva da garota com carbono de Osíris do Nilo.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A Garrafa Quebrou, e Eu Vou Cantar Meu Rock'n'roll

Fiquei rindo igual um idiota da última carta sua que recebi, que ela me chegou como pancada soco no estômago e tudo mais junto, e tive que segurar pra não vomitar o almoço, é claro, e era comida chinesa, e ela chegou num dia horrivelmente quente, que me fez pensar também no método chinês de transferir foco de dor, então eu ri pra não cair no chão, certamente.

Eu não consegui me mexer direito por instantes. Meu braço colado pelo ombro no tronco mas querendo voar tipo foguete.

Aí pensei que você teria errado o remetente. Que a carta era pra outro, só podia ser. Ou que você tinha me confundido com outra, só podia ser. Tanta coisa que só podia ser que não você me falando todas aquelas merdas, só podia ser.

Que vejo é você olhando pro passado e vendo tudo torto. Desfigurado. As árvores se dobrando entorpecidas onduladas. As nuvens fazendo formatos perfeitos de caras de quadros renascentistas no céu azul. O carro de dois anos atrás numa cena que aconteceu ano passado. Deve ser uma paródia.

Ouço sua voz em noites por aí.. Você oferece dotes, indistintamente. Que bela caridade! Que valor reluz de sua voz assim? E nada assim que saia. Olhava nos seus olhos e me via, mas fico pensando o que é que eu tanto pude ver. Tocava nos seus cabelos e cortei os meus. Não ouvia suas palavras, pois calado você por tanto eu, e em que lugares que fui ou fomos? O que é que foi e anos depois essa carta chegando. Não tinha data, mas vou supor que foi escrita em outra era. Um tempo de castelos e princesas e dragões.

Como tenho dito por aí, a todos, em cada bar esquina latrina, não fodi e ainda me fodo. E você me fode assim, que deve ser muito bacana falar essas coisas por papel. Perco a oportunidade de deixar seu olho roxo. No final é só poesia, e eu só sei fazê-la marcando peles. A bebida acabou, agora adianta falar de sua covardia. Porque embriagado você batalha. Faz assim: procura sua armadura de papelão no armário, vai, e vai pra luta que te quero com espada reluzente de papel alumínio a seguir. Longe de mim, mas que eu veja rastro de luz pelo caminho, pra eu saber que é pra lá que não vou. Cansei de te matar, porra. Cansei de derramar porra por você. Na minha cabeça, tantos e tantos enterros, e orgias com zumbis. Fantasmas trepam. Mas é cremado é o que vejo mais divertido. Na cinza das horas, porra nenhuma, sem perfume, cheiro incômodo, amor algum. Jogando depois as cinzas pelo vaso sanitário.

Não há nada a dizer, a fazer, a querer. E é por isso que essa carta não é pra mim. Se antes fosse, azar: antes fosse.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

cansaço

leio e releio, leio e releio, é mais do mesmo e não é mesmo,
uma garrafa que se quebra nas pedras.

tudo se mistura, tudo passa,
vai tudo descarga abaixo por fim.

domingo, 14 de novembro de 2010

de 12 de agosto de 1904, e de toda história de humanidades

Todo esse pesar teu, pequeno, de todos os desafios dos sapatos gastos. Se teu calcanhar assim, esfolado, e precisas andar. Se tuas mãos, quase em carne-viva, e precisa dar forma aos gestos
e fazer das luvas os encaixes.

Tudo quanto é erro e negativo, pequeno, de todos os dias de cinza dor. Se então vem uma noite tão profunda, escura, e não tens lume, e se não sabes dela tirar os dons de uma manta que seja defesa contra os ventos,
deixa então que os ventos sejam seus dons.

Que negativo é cor-oposta, pequeno,
em tudo quanto é olho como presença-sombra.

É preciso amar como a irmãos todos os inimigos, sem que isso seja piegas.
Pois a si mesmo, mais ainda, com o deus de dentro.

O inferno, os outros, você,
Lúcifer dos caminhos.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

para o que não são, ou são impedidos de ser

"Situações cotidianas, comuns, agregam valor às pulsões (trieb, em Freud) pondo à tona e atônitas conclusões da conditio fragmentária da existência humana e, não raro, subumana de personagens-bolhas, que existem na vida real para justificar, via de regra, o que não são, não serão, ou que foram impedidos de ser."

raskolnikov, símbolo-mater de todos nós. digo mater assim, por que ele pariu, não simplesmente semeou. e pra fugir do falocentrismo e tal e coisa.

é sim. napoleão era o signo guia do mesmo. com o sentimento de que a vida era à sua frente uma moça a ser tomada. e dá-lhe tomar a europa!, também uma dama. e foi pela possibilidade de ser maior que a vida que rask' matou. ora, e quem de nós nessa vida que nos impele sempre a mais não quer ser maior que a mesma? a humanidade tão luciferiana. o capitalismo é altamente luciferiano. e tiro no pé, é claro, porque dirão os existencialistas franceses que não temos escapatória: somos livres e ponto, mas e ae? que fazer com a tal liberdade, ninguém ainda soube.

já que é só dentro da vida que somos. e a vida, porra, não é liberdade. não é mesmo.

é só porque vivemos numa época de celebridades instantâneas. só porque vivemos numa época de possibilidade de mudança social. só porque não há rigor sobre o que é ser gênio. porque mais um tanto de coisa fluida. por isso tudo que é essa merda toda.

leverkühn eu entendo tão bem ao formular a necessidade de um sistema de composição. brother, esse leverkühn. ainda brincando com o mann, não deixo de me achar um diletante: não me arrisco a propor nada, tenho preguiça coisaetal, me falta a disciplina e o feeling da missão que me impele, ou da possibilidade, coisaetal. mas leverkühn é brother.

me sinto acalentado por esse edifício de história que me esmaga, e me sento.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Barbarizar é pensar contra a racionalidade burguesa

"Pasolini, em sua obra e em sua vida, é marcado por esse desejo primitivo, alucinado, violento e pragmático pela realidade. E é nesse amor tornado encontro com a realidade que ele descobre a alienação do mundo. A realidade, ao contrário do que prega nossa cultura racional, é sacra, misteriosa e ambígua; de modo algum é natural. A alienação começa justamente quando se começa a ver a realidade como algo natural. O cinema, de certo modo, se desapega da tentativa de mediar abstratamente a realidade, reintroduz o homem numa dimensão sacra, misteriosa e bárbara do mundo. Assim, para falar brevemente, Pasolini não é um decadente. O barbarismo pasoliniano é uma atitude genuinamente filosófica. Barbarizar é pensar contra a racionalidade da sociedade burguesa. O cinema é uma arma não em favor da cultura, mas contra ela.

Pode soar estranha aos nossos ouvidos a conclusão tirada por esse grande intelectual: temos pouco a fazer, a não ser nos revoltar, e isso é tudo. É isso que intuímos, afinal, quando acompanhamos o desespero de Medeia, que se mata e mata os próprios filhos por sentir na pele sua incompatibilidade com o mundo estabelecido; ou ainda quando vemos o soldadinho fascista de Salò, que, ao tentar resistir, amando justamente uma vítima como ele, uma garota negra, é surpreendido pelos superiores e levanta o braço esquerdo, mesmo sabendo que vai morrer."

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

a partir do sonho que ela me contou eu fui isso aqui

na roda gigante um monte de gente se jogando. junguianamente isso é uma loucura. vai saber como foi de onde veio. outro dia eu falava sobre roda gigante. eram todos gigantes, de tipo dois e meio de altura, e ela baixa. se jogavam e a cabeça espatifava no chão. muito sangue e o cérebro em migalhas. a casca-crânio completamente esfacelada. umas até se esfarinharam.

a imagem de um carro me veio pouco depois. amassado. um belo acidente. the long and winding road, rolaria uma moça que vai dormindo aos poucos, se pá porque tomou muitas pílulas e quer morrer. e o carro vai batendo de leve no meio fio. depois capota.

ou a imagem de uma batida de carro filmada em câmera lenta.

ou um engavetamento. ele ouviu a música do carro dentro do carro, o carro vai rápido e ele está longe longe em outra estação.

o sangue das cabeças no chão é de uma virgindade indevassada. é de um território desconhecido.

é como os flamboyant que tão gritando e pulsando vitalidade nesse cotidiano. essa cidade meio que muito cinza, mas bela por suas formas fixas estáveis uma ordenação tão nossa exata que chega assusta, não é? esse vermelho pintando as coisas. dando energia. pra seguir. que parar faz morrer.

nós somos esses coágulos de dias envelhecidos devorados com pedaços arrancados que se pá tudo junto em volta misturado com a poeira e com o cimento. esses coágulos.

somos também aqueles monstros que dançam de roda.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

a aids mental da contemporaneidade, como ela disse

tenho esse peso de eras, mas são só poucos anos. sinto que é uma babaquice, mas mais uma real. a dúvida é o que é e o que não é. li a história do molequinho que realizou um sonho, apertou a medalha na mão e disse que lembraria sempre que precisasse de coragem. e quase comecei a chorar. eu tinha comida na boca, meus pais estavam perto, foi ridículo, engoli o choro e depois o resto. e tem o que não engoli. tem o medo de estar à beira. tem a vontade de estar de um jeito só numa coisa e seguir mais reto. e o sentimento de que não faz diferença. com esses aditivos na frente do pc em goiânia e como não me sentir de novo no mesmo patamar? tenho o carro agora. tenho mãos e meios. grandes bosta. vou indo na inércia e de repente uma hora pega no tranco. sei lá. ou se pá fico parado na estrada por horas esperando o guincho. não queria, contudo, ninguém ali comigo. não quero ser peso, mas me tirem daqui! hahahaha. nem consigo achar que é tudo uma grande piada, porque tem começo e meio mas nem tem final. a gente tem dessas, né? as coisas tem suas estruturazinhas. a ordem e encadeamento delas pra gerar reações. os cansaços são tantos e as palavras mais um monte. cansaço demais. os pesos.
o meu até maior. mas ele nunca foi só meu, nunca nunquinha. e sempre foi.

(contextualizando: primeiro de novembro, pós anpocs que foi o caos na vida, antes de acordar com um pé bom dia desses)

notinha do jogo da amarelinha, do capítulo nono

klee é história. mondrian é atemporalidade. klee exige cumplicidade. mondrian exige inocência. logo o éden é impessoal? klee nos coloca o inferno, um caos colorido. leverkühn, me parece, assinaria embaixo dessas impressões. contudo, pensar outros jogos de intercâmbio pelo simples movimento de dançar.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

nesse dia dos mortos

ainda preciso estar no méxico. esse mistério de vida-e-morte. o que ninguém sabe que vem depois. uns esperam que nada. outros esperam que paraíso. podia existir um deus pra cada fé, e o nenhum, para os sem fé. acho que a consciência acaba. e se finda, o que resta? lá no méxico eles saem pelas ruas festejando. é colorido e as caveiras sorriem. talvez seja melhor do lado de lá. já tenho todos meus avós embaixo da terra. tenho duas primas que agora me recordo bem. daqui um tempo terei tanta mais gente. ou eu antes, e gente chorando a se lembrar. ainda sou partidário de ver minhas cinzas junto com fogos de artifício. plath se tornou profissional em morrer. o dia dos mortos pode dizer algo sobre as mortes cotidianas? aqueles que matamos para que não mais nos incomodem. teve um tempo que a referência era a fantasma, a ossada, a zumbi, e etc. de vez em quando alguém pode puxar nosso pé à noite, não é? que assassinatos que carregamos nas mãos. seja dos eu's possíveis, seja das vidas a virem. será que alguém mata sozinho? sei dizer que estou vivo. é algo que me parece. meus dedos mexendo nas teclas. hoje as coisas estão com mais cara de óbvias. os mortos adubam a terra, não é? mas dizem que também eles a sujam. sei lá porque que tudo nosso é sujo assim. num mistério de fim dos tempos tudo se mistura e tudo é uma coisa só. e todo mundo veio do mesmo lugar. já comentei antes, mas eis que muito bela essa cosmologia moderna. o que é que já morreu de ontem pra hoje? e de tantos anos atrás. as memórias e pá. das coisas que a gente não lembra, o que é que fica lá fundo mexendo pauzinhos? dentro de nós continentes trabalham com seus espiões e suas passeatas? caveiras sorridentes de açúcar e chocolate, a gente come as memórias dos mortos e das guerras até, é preciso talvez celebrar cada dor e cada falta porque são algo como movimento. nesse clima de antropofagia que nos legamos, tupinambás.

domingo, 31 de outubro de 2010

Dessas coisas de carnes

Lembro de seu corpo e do meu, muito tremendamente muito suados, em minha cama. Estava meio insuportável, mas eu fingia me dizer que aquele seu jeito de olhar e aquele seu jeito de sorrir encantados compensava. Parecia fácil fácil que você inventava histórias secretas. Só que o tempo todo era eu que falho. Seu suor e o meu estavam misturados, se de repente uma hora nossa pele se grudasse e nunca mais conseguíssemos nos mover. Não podíamos pensar em projetos de futuro, e éramos só medos e tesões e vontades. Só que aprendi que cisnes refletem elefantes, e também não fodi, e me fodi menos. Sei lá porque, se de repente fiz com que minha pele se tornasse mais dura. E se não tenho mais suor, o que de mim sai e se mistura? E se não sei mais chorar, mesmo quando chove, mesmo quando estou embaixo do chuveiro. E abaixo, o ralo, entupido, muito cabelo. Fracos que somos deixando que tudo vá assim. Você me disse que a gente nunca se comunicava, ou foi você que me disse que tinha agora aprendido a balbuciar? E eu, sei lá porque, fiz com que o toque não toca ressoasse muito mais distante e fundo. Mas se é que isso faz ser maior. É uma paixão e é um holocausto. Já pensei em te enviar cartas. Será que consigo seu endereço? Será que apareço à sua janela e faço uma espécie de uma serenata com meu violoncelo? Essas cantigas não poderiam ser tristes. O tempo faz a gente esquecer dos gostos das bocas. É como um idioma que a gente deixa de usar. Mas se volta assim, do nada, de repente ele vem inteiro de uma vez. Eu poderia fazer uma marca na pele pra você, Deus meu. Pra você, Deus de mim. Se o mundo é mesmo assim, cada povo com seu Deus, cada eu, os Deuses de bebês sem touca sem cabeça berrando cedinho que querem colos e mães, caindo no chão, machucando, crescendo tortos, buscando sempre. Somos. Pelos furos da escadaria, os cobongós desse lugar, poderia ver se quisessem nossos corpos. Por antes disso, te persegui num canto, esbarrei em você em outro, quis tanto que pudéssemos ter nosso refúgio mas e agora o que resta? Sequer lembro de seu nome. Não sei onde você mora. Jamais poderia lembrar do início. Sei que fiz uns filmes para você de meus gestos. Mas nem sei se sei ou se só intuo com a carne. Aquele desenho que fiz e guardei, e que ele seria o mapa que me levaria a você, um tesouro um arco-íris um segredo, tem tantas manchas que fico pensando se acertei na caneta bic no papel de doce da padaria da esquina. Dessa cidade sem esquinas, por óbvio. Será que foi em outra, eu penso. Um sonho distante, às vezes, pois ontem eu acordei e não sabia direito se tinha ligado para você ou para ele, ou até para mim mesmo, pois tenho confundido os números de telefone. E se esqueci meu nome e saí de casa para ir ao açougue, e quando vi fazia um passeio com ETs, que entravam dentro de minha carne me fazendo ser isso que aqui agora, tão diferente, falando em outras línguas, dizendo ao mundo que sei lá nem é assim, fazendo o mundo ser você que se existiu foi em sonho, mas lembro que seu suor misturou com o meu, lembro que você parou de fumar e eu não, lembro que de alguma forma eu fiz tantos retalhos com nossos quadros que nem sei mais. É, se sonhei. Se agora rio. Se outro e outro e outro e mais um monte. Se um ribeirão. Se árvores. Se são nomes, que são carnes. Picanha, acem, paleta, cupim, patinho, maminha. Se eu estava num açougue. Se vi um pedaço de carne. Se imaginei a cabeça da vaca. Se ela ruminou. Se eu fui aquela vaca. Se agora sagrado ou profano. Se não adianta que tanto de caetano. Se só importa o que é colagem. Se a história de olho está no meio de um festival. Se eu ia te procurar em cada cu. Se iríamos para aquele lugar gelado e branco. Se quero segurar em minhas mãos tudo isso e explodir. Se temos todos pêlos pois somos mamíferos, e o leite de mim nem o seu ou o meu nós conhecemos. Se nosso leito não pôde tanto ser. Se a sua carne feito líquida se sagrada mas não vinho e ainda assim pintou minha pele. Se eu podia derreter naquele momento, e não havia suor. Se árvores. Que são desenhos. Não adianta. Se tanto. Se tanto. Se. 

domingo, 24 de outubro de 2010

Desentregas

Essas mãos, que são só as que vê, sem marcas, com linhas que cruzadas diriam que o caminho da vida e do amor são os mesmos, elas nunca mataram ninguém. Olhe meus dedos gordos, que de vez em quando brincam de bordado, e verá muito claramente que eles nunca se arriscaram por caminhos íngremes. Se toda eu tenho gosto de leite de rosas, como diz, se meus olhos lacrimejam à luz de luares quando são terças as feiras. Esses braços meus são tão quanto, pouquíssimo afeitos às lidas, nunca carregaram corpos em guerras. Nas épocas de terra arrasada, me trancaram em casa, e em baixo de cobertas sonhei com mundos devastados. Quando você percebe de relance em mim a expressão que faço quando derrubo vinho na toalha da mesa, sabe essa? Se mirasse o fundo dos meus olhos veria. Se tivesse pouca luz, veria ainda melhor que: dentro de mim: a seguir. Um tropel de dores que choram os lamentos de nunca terem sido. Choram baixinho, mas gostariam tanto de poder arrancar seus cabelos e uns dos outros. Só que suas mãos não têm dedos. As penas em suas costas, como restos de anjos abatidos. Imaginando um mundo para que possam devorar e fazer jorrar vulcões. Mas tudo bem, que o fundo dos meus olhos, isso nem meu é, quanto mais poderia ser seu.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

os saudosos tópicos

1) vontade de escrever sem parar. não quero floodar o twitter. lembrei que posso postar frases aleatórias e desconexas por aqui. posso fazer o que quiser, né? HEHEHEHE

rs

-

2) pessoa me fodendo. tá sendo curioso andar com o álvaro de campos na bolsa. e ocasionalmente pegar e ler. e reler. poesia é tanto pra ser relido, fico pensando. já li tabacaria na vida, sei lá, mais de dez vezes. aí reli e me peguei em imagens que nunca antes. foi curiosão. bem bacana. ex:
"Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;"

especialmente a parte dos escravos. do conquistar o mundo antes de levantar da cama eu me lembrava bem. pessoa tem ideias, e elas sempre me foderam grandão. mas o que mais me pega agora são as imagens. eu não me identifico mais como já me identifiquei, talvez poética puerilmente um dia, talvez pelo sonho de se identificar e não pelo fato de ser, talvez pq sei lá. acho que aos dezoito-dezenovo eu me divertia mais imaginando do que sendo. hoje me sinto mais sendo do que imaginando, e minhas palavras são muitos menores que as coisas no geral.

claro que vezenquando ainda me deixo envolver na confusão desses tamanhos. é divertido isso tudo. uma boa de uma volta de roda-gigante.

-

3) fulerage

-

4) o ir, o foi, o voltar, o nunca mais.

-

5) vontade de fazer tudo ao mesmo tempo. de ler montes. de pensar tantos. de conversas monstros. de beber bicas. de comê-los, todos. tantas vontades, poucas horas no dia.

-

6) Apostila, do álvaro de campos pessoa, trecho matador foderoso

"Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,  
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha, 
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras, 
O pião do garoto, que vai a parar, 
E estremece, no mesmo movimento que o da terra, 
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,  
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino."

-

7) Transatlaticism do death cab. i need you so much closer.

-

8) serras elétricas, lanças-chamas, machadinhas, martelos prateados.

-

9) tratar com leviandade já me fez bem. ok. relembrado. bacana.

-

10)
"re-ligare é uma sutura de linhas firmes.
re-cordis é uma agulha sem fio alinhavando o vazio na pele da memória."


11) um dia depois, surtação no estágio. e beatles. e Because tá me dizendo que tudo se encaminha para a beleza. e que é bonito pra porra e se esparrama. e tou inundado.


12) comecei isso num dia, terminei no outro. nesse momento sou exaustão física completa. a realidade tem dessas. noite passada foi legal. hoje o dia foi um cu. c'est la vie. semana que vem é loucura. beijos

terça-feira, 19 de outubro de 2010

manteneções

será que essas imagens sustentam seu lastro? o ourobouros, o labirintos, o homem nas andas... midas é mais velho, máscaras são constantes, sísifo, prometeu, gregos, de repente um fantasma oriental recém surgido, tântalo, ouro de tolo...

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

com os sonhos

em A Origem, os sonhos tem sua característica de labirintos. se nos envolvemos tanto neles, quer sejam pesadelos, e o contato com o de fora se torna tão distante que ninguém se encosta. com Waking Life lembramos da moça, dizendo de forma tolamente ingênua e irritada, e pensando que é tão simples que seja diferente: as pessoas se esbarram e fica tudo por isso mesmo. dá pra fazer diferente, eu acho. mas que preguiça.

a à favor do real, eu já disse, e penso pensar, e quero seguir:

se no sonho ou na imaginação, só é o jogo do eu-com-o-eu. sem possibilidades de aprendizados e ganhos, se numa vida só com o si. qual o progresso? porque o mundo de si só se altera no contato. e é claro que não existe o ser que, sem se esbarrar tenha vivido. e podemos lembrar do que a gente esbarrou antes, e é claro que no nosso sonho também existem as idéias que fazemos dos outros. só que eles só existe ação baseado no que a gente já conhece, no que a gente pode imaginar. no sonho, se existe surpresa, é só uma "falsa" surpresa. só o outro que pode nos surpreender verdadeiramente, porque ele tem o que não temos.

e é uma beleza dentro de si fazer suas belas quimeras. tava pensando agorinha em como seria o dia ideal. sol e muitas nuvens no céu. elas ocasionalmente o tampariam. uma claridade não ofuscante, um calor agradável, muita sombra pra dar folga. nem sei se isso seria bom pras plantações. no dia que faço aqui no texto e é meu, ou na minha cabeça, beleza. uma beleza que só.

nos dias que fazemos nos contatos, contudo, é que vamos a outros lugares e só assim. porque não somos feitos no eu-com-o-eu, mas no nós-com-nós.


ps: pensem sonhos como quaisquer labirintos. podem ser os pesadelos. as ruas sem saída de si. a contraface do desespero profundo é a idéia de um mundo ideal que não existe.

o insuportável de hoje

1. labirintismos.
2. a vida, como ela é.
3. eu, com meu amargor.
4. meu carro estragado.
5. esse vago incômodo que quer se gritar, mas acha que nem é o caso.
6. minha vontade de apanhador no campo de centeio.
7. o conforto de minha casa.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

the love you take the love you make

fazia um bom tempo que não parava pra ouvir beatles. ontem no carro com mari ouvi Cio da Terra. tou precisando pegar músicas de mpb e do chico com a tati. quero palco azul. quero mais de elis, que com o cais de milton me fez navegar lindamente. quero tão mais e em fluxo. momentos de tranquilidade e calmaria. cada momento é um momento. momentos de intensidade sentados comigo mesmo. compartilhamentos. as velhas profissões de fé. ouvindo beatles e lembrando das camadas de história que já tem. beatles tem cara de meu 2005, e é da década de 60. a gente marca as coisas com nossas digitais. é legal isso tudo.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

de vista

hoje vi gente sendo guiada vendada andando por aqui por perto, com aquelas muletas de orientação e tal.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Ana disse um monte de coisa assim

assim se de assombro me tomas
e sinto o toque e é frio
e por dentro me leva em paredes e por paisagens
e pastos de vacas que
suas bocas mexem e ruminam
e remoem e depois
elas sorriem para mim
e o sol está se derramando e enfim cai sobre a terra se escondendo
e eu não estou enxergando mais nada e portanto
acaba que no escuro me encontro procurando fósforos e
sei bem dos riscos, já que estamos no galpão de combustível,
eu, meu papel, minhas rimas, minhas mãos,
e isso que me toma e faz calor e frio
e aos poucos o escuro começa a me dizer umas coisas
e eu digo um tanto outras em resposta que
nunca fui de ouvir calada 
e sempre disseram que
se eu não tivesse ouvidos bons eu
jamais pegaria as notas e tons portanto
eu me decidi a largar mão do que fosse
que colocassem na minha e deixar ir esquecendo assim
qualquer coisa como horizonte distante e maré
ou até mesmo o voo que passa por aqui por cima
e é de pássaro ou avião
ou até mesmo o peixe que lá no fundo se mexe
e dizem que ele sabe fazer desaparecer
e ontem à noite eu quis sumir, mas foi só uma vez,
e não pensei com força porque tive medo mas é que
quando penso alguma coisa ela acaba acontecendo
assim como agora está aqui mostrado meu pensamento como acontecido
e é por ser fato que a gente tropeça nele mesmo ou em nós,
nesse assombro, meu corpo arrepiado, pareceu ou pareci que de repente caí ou caía
em cima de um espelho e inteiro
ele se quebrou em um tanto quantos muitos pedacinhos
e uma vez me diz que eu preciso contá-los todos
e depois remendá-los todos
e depois numa hora dessas sei lá
que venha um vento forte
e está calor e está frio
e ladainho por aqui e pelos cantos
e redemoinho lá no fundo do campo
e por dentro sou paredes paisagens tudo cor bege mas
de repente uma aurora como que li uma vez que rola e
minhas finas, minhas coxas, minhas pernas, minhas lenhas,
que nem sei mais andar que me digam minha mão
que coloca a língua na minha, minha mão,
e faz por mim esse trajeto, irmanada,
e é assim que como que me trai?, é mesmo?
é assim que escorregamos nessa lama
e está novamente escuro
e de vez em quando fica claro
e escuro
e claro
e escuro
e é que a luz está oscilando e todo mundo foi pra cidade
e solidão é o único nome
e ele deixa.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

verdes-olhos

estive, por muitas linhas tortas, em muitos trechos, ainda escrevendo pra você por aqui o tempo todo, pessoa bonita demais que existe.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Durezas

Pedra que a gente joga pro alto volta.
Pedra que a gente joga longe, 
só se em algum lugar ela quique.
O tempo já é, e já é tempo,
o tempo era, o tempo foi.

Quem outro é o sol abaixo
dourado em poças d'água.
Longa chuva que veio não,
que nem sei como ali estão.

Queremos distância. 
É calor.

Segurando caros cada sonho 
só com pontas de dedos 
pra se quebrarem não,
nem por estabanamento
nem por desatenção.

Ei vejam, Mas quando bêbados,
acabamos por sem nem ver,
ou se pá até mesmo por querer,
Por chutá-los bem assim.

(e de vidro soprado durante tanto)
(e modelados com carinho cuidado e esmero tanto)

E nem são sonhos, pois faltou creme.
E nem são senhas, pois sobrou crime.

E nem são nada, sequer sanha,
nem qualquer manha, nem algoquer querer,
nem por querer, nem por sem, nem por bem, nem por mal.
Nem é.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Quanto ao futuro

Antes de sair de casa coloquei os sapatos vermelhos, deixei toda a louça suja na pia e quis que fosse de dias mas era só a do almoço, joguei tanta quanto era roupa na cama sabendo que já ia escolher aquele tubinho preto, isso era tão estar vestida de minha armadura, deixei as plantas sem aguar e o peixe sem comida, uns três ou quatro livros abertos que peguei pra inspirar e penetrar mas que ficaram assim então como que num ritual deixando o ar da casa ainda mais carregado, a tevê ligada num filme mudo de terror alemão e antigo, pausada na cena em que o monstro aparece se erguendo da sombra, monstro-rasgo, monstro-devorador, monstro monstro que passa como que atropelando, minha cabeça na linha do trem, deixei o controle remoto e o telefone celular dentro da geladeira, do lado de uma panela com macarrão que eu já deveria ter jogado fora há mais de semana. Mas em vão, e sabendo que não, pois que, É só nua que posso enfrentar qualquer lança que venha me atravessar ou qualquer esbarro de cavalaria que queira me jogar no chão junto com bomba de gás lacrimogêneo e eu seria pisoteada enquanto choro. E é quando me jogo assim naquela sala escura e sinto todas aquelas mãos me tomando, e são tantas as texturas, imagino quem não é caminhoneiro quem não é a faxineira da repartição em que trabalho quem não é aquele deputado filhadaputa que roubou um tanto no último governo e ninguém se lembra quem não é assassino quem não é mendigo quem não passa fome quem não paga sempre as contas dos bares pros amigos. Imagino que toque não vai me enfiar por dentro que mão que não vai me puxar pelas ancas que urro que não vai arrancar tufos de meu cabelo que boca que não vai tomar pedaço de minha carne da coxa que cuspe que não vai derreter meus seios que porra que não vai me dar setenta e sete filhos de uma vez só.

domingo, 3 de outubro de 2010

não é mesmo?

"_Não é mesmo, querida? - disse Laurie."


e é só isso que Laurie tem a dizer à sua irmã quando esta descobre que a vida é um pouco mais. que a vida vai um pouco além. e tem seus mistérios, e suas rasteiros. k mansfield me parece fazer a voz do mesmo. então a ela, que chamo carinhosamente de kathy, admiro por esse cinismo-crueldade resignado. 

é que há a consciência da coisa-toda, a grande coisa-toda, essa que esmaga, que dá rasteiras, e sapateia em cima de você vontades sonhos desejos segredinhos-de-menino. é sim. a coisa-toda sapateia sem ver. ela não sabe o que faz, porque ela não é guiada. é um trem desgovernado que aparece do nada, do meio de uma neblina, de farol apagado. e se você perde uma perna, de nada adianta, a solução é usar muletas e seguir. 

e pra isso tudo só cabe um Não é mesmo?. algo parecido com um amargor sim, e ironia, mas é que sei lá. todos e todas têm as suas milhares de mortes cotidianas, umas mais pesadas que outro, e vamos no talento de brincar de lázaro. a troco de migalhas, na real, e um mísero rastro de noite branca pode encher um coração.

é uma coisa no mínimo curiosa essa consciência. você pode gritar não-não-não umas setenta vezes sete pra sua perna amputada. você pode pensar em enfiar bala na cabeça. mas se não faz, você segue. com esperança até, vá lá, de outros tombos. e que possamos lamber as cicatrizes alheias. não tem lá muita saída. dói pensar em morrer sozinho. mas ninguém nunca morre com a gente. compaixão alivia, mas ninguém carrega ninguém. nem deveria.

é, é mesmo. amargor ocasional, doçura ocasional, de ocaso, de despertar, o mundo segue, o tempo não para, larilá querida e vamoquevamo. (prefiro dizer que digo isso num suspiro irônico)

(escrito ali por pouco menos que um mês atrás)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

E seu nome começava com M de medo

Teve aquele momento em que você amarrou a gravata na maçaneta da porta, e disse que aquilo era uma pergunta. A porta não era nem minha, nem sua, nem de ninguém, como poderia uma porta ser possuída se ela vai um dia para o paraíso das portas após todos os donos de todas as casas já terem dela feito uso e ela, enfim, for parar no aterro municipal - misturada - casca de ovo - banana - cartas velhas - lâmpadas quebradas - fraldas usadas. A gravata serve pra sei lá o que. É enfeite? É pra simbolicamente proteger os nossos pescoços? É pra lembrar que todos corremos os riscos das forcas? O que diabos é uma gravata? Quem as usam são os homens, mas vírgula, o que diabos é um homem? Mas mulheres também podem, se queiram, usar suas gravatas, de repente no carnaval, até fora, vez em quando cria impacto, a depender de contexto, eu fiz essa longa digressão mesmo... Mesmo mesmo, pra dizer que... Ninguém pode saber exatamente quais são os segredos da criação. Mesmo que a gente os conte, tem algo dessa arte que se perde. E é por essas e outras que deus olha tudo caladinho caladinho imóvel e tolo e ri.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

auto-retrato

aquele bando de inseto, se mexendo quase que junto, como um organismo só quase junto, mas com as diferentes regiões que se movimentam braços pernas pelos pintos seios em direção àquela luz. e recuando, também quase que do mesmo modo, à medida que o calor intenso demais pode fazer virar casca seca.

cosme e damião

no dia de cosme e damião, com língua de sogra na boca, porque tudo e tudo e absolutamente tudo é brincadeira

aviso ao eu navegante

botei títulos depois. beijos. maneira de autoralizar-ficcionalizar-subverter-amassar-trepar-com

rotas

vou te procurar em todos os cus

batalhando

você é tão lindo que eu queria tanto enfiar um olho no seu cu

no cemitério?

esteja doendo, mesmo que um pouquinho que seja, mesmo à distância

sábado, 25 de setembro de 2010

jogue

eu vestia vermelho, fui fogo na noite, e ela era só e tão somente muito muito preta.



mesmo com as luzes da festa.

retirado de

 seilá quando se morre. e é a qualquer momento.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

seria farsi?

é como se pelo meu corpo desabrochassem infinitas flores, numa imagem meio bem cortázar, porque ele está entrando em mim desse jeito. como se cada frase tivesse sua e aquela delicadeza de dizer. e esse dizer é um floreio também, e parece uma apresentação delicada de esgrima, coreografia, como arte marcial que é dança e luta. uma determinada percussão ecoa ao fundo, pelo fone de ouvido, e no carro eu com tapas no volante. as portas abertas desses dias quentes. leve-nos, ladrão vento, nós que somos essas flores que fazem tapetes que falam.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

a vida é tão louca!

blog privado, blog público e twitter se confundindo nas funções. rs. funny. foda-se

el desdichado, el hierofante

desnaturalizar como meio de pegar os pontinhos pequenos e mostrar seu elemento desordenador

sabe que quem sabe nunca (ou: sob o signo do cão)

quando é que de repente vou te recriar em minha lira? vamos ver. tamos aí na expectativa.

em alto e bom

eu me revolto contra as respostas definitivas e finais e reafirmo a vontade de sorver os bons goles de muito do há-de-vir e de cada instante

tremulações retinhas

ei, tem alguém aí? vc tá escondido? é isso?


medos. pff. rir na cara do perigo.

prefiro não temer naufragar. prefiro naufragar se pá.


reafirmo minha profissão de fé, he.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

nota pública

escrever uma carta a partir dos pequenos fragmentos que são entrevistos contando como é do lado de cá

terça-feira, 21 de setembro de 2010

restos rastros rotos são com erres e nem são erros

estou me rodeando desse tanto de coisa aqui em volta pra depois ter história pra contar. pra fazer novos enredos e tapeçarias. com os pombos correios conseguiu reduzir o exército do inimigo quase inteiro, mas restou um. a beleza de um resta um. mas quem sabe minhas mensagens não façam o mesmo. vou preencher cada linha possível, vou costurar incessantemente, assim acho o fio de saída, assim acabo com o frio no mundo, assim eu... também napoleão, ou madre teresa, e risível. falta uma camiseta que eu possa pintar um jogo da velha que vá dar velha. é tanta coisa pra viver, e esse vento fazendo os moinhos girar, mesmo que nessa rede deitado aqui, e não estou como um peixe oh não, não é senão momentâneo anteparo, uma pausa, um hiato, dá-me forças, dá me luz. me rodeando desse tanto de coisa e com elas dizendo mais um monte para sei lá o que. e mesmo assim, que incrível!

na sacada

chãaaaaao imundo, dizae, vc também é uma metáfora? BRINKS

no vão

medo das metáforas, medo das identificações, medo dos desrumos e deslugares onde posso ir parar

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

riscando

que hora que pode cair da cama? tem que dar errado até domingo. se não, fodeu.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

De Porres

Encontrei o amor de verão numa noite de inverno fria e seca. O álcool deixava as coisas enxarcadas, é claro, e a secura não era da alma, senão da relva. Na medida, contudo, que alma e relva poderiam se equivaler, e a paisagem externa e circundante sendo nada menos que símbolos num sonho-pesadelo, prefiro fazer a ressalva. Você manchou meu casaco de alguma coisa, não sei se cachaça ou porra. Penso que do tecido desceu pra pele, impregnando, e nada de água e sabão pra ajudar. Penso que reclamei, mas nem consigo me recordar se era cachaça ou porra, quanto mais se reclamei ou não. Talvez eu tenha murmurado. É, talvez. O teto da barraca era verde como a relva, que não era verde contudo, era amarelada. Parecia que estávamos virados de cabeça pro chão, loucos admirados com a vastidão de um mundo em minúcias. Coisas como o número de pintas no corpo entraram na pauta do assunto, e meticulosamente passamos por cada, como numa reunião ou análise. Penso que estávamos bêbados, não sei foi você, eu ou outra pessoa que sujou de fato o casaco, mas fica como se a noite estivesse abaixo de minha pele. Estávamos na verdade muito bêbados. O casaco grudou na minha pele por completo, e me sufocou até que eu quisesse me atirar de um abismo. A queda livre sempre me atraiu tão doce. Cantando, meio sereia. Uma noite de inverno fria e seca. O amor de verão. Eu jamais vi seus olhos. Estava escuro, amanheceu em algum momento, mas ainda estava muito escuro. Estava escuro pra caralho.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O Artesão

A cada dia que te componho, deito pensando em refazer, quando imagino o maremoto a vir. Isso quando não já o sinto intuído em cada pêlo que, eriçado, pensa tentar escapar vazado pelos poros. Como se fossem balas de canhão-de-circo, imagine. Meus trechos, suicidas como peixes de aquário. Vez dessas acho que li, ou lembrei de uma velha história de avó, que não podemos tampá-lo, o aquário, sob pena de matá-lo sufocado. Pobre é meu mim, que jamais sequer um peixe, menos ainda aquário, sentindo arrepios, dificuldade de respirar, e intuindo maremotos.

Noite passada, vou dizer porque se eu não disser me escapa, e eu limito para que isso não se dissolva, pensei em te envolver de ataduras e rosas. Pensei nos espinhos, duais, a ferir pra dentro e pra fora, e que se eu te abraçasse só poderia ser por engano, igual ou quase a cortar o dedo por acidente em folha de papel.

Retrasada, ou há umas três semanas, vai que o sonho foi o mesmo e nem sei dizer, assim tampouco onde estão as meias com que pensei em calçar seus pés antes de lhe botar coturnos. Nem parece mas é terno, meu terreno. Nesse e somente nesse agora. Como se me abraçasse veludo e vinho. Meu mapa de minha cabeça, por cada fresta que entre a pólvora, um percurso de fios entrelaçados criando explosões sucessivas. Depois me digo baixinho que fogos de artifício são sucessos. E se der errado, coloquei-lhe ali bem-bem uma boa armadura, de prata e ametista incrustada, e passei essência de violeta em volta de sua nuca. Dizem que dá sorte pras tormentas. E que sempre lá vem elas, a gente também ouve, com os pássaros.

Acordei daqui há um mês louco de vontade de te ver nu, mas devo lhe dizer que mal consegui enxergar coisa alguma, porque ou seu corpo piscava sem cessar em tudo quanto seria cor, ou ele se escurecia tanto que só câmara-escura. Só que eu não achava o por-onde, entende? E se eu lhe perguntasse o pelo-quê?

Justo dizer que, a cada vez, além das necessidades, mais ainda talvez, me diziam os ímpetos de testes. O que eu dissesse o faria uma obra a cada dia, naquela base de cera pálida. Sem face. Já lhe desenhei piedades de madres, como também fúrias de genocidas. Só queria saber, inocente, o que lhe caía melhor na cara. Que tom que, em seus olhos, ficaria mais brilhante. Que o gesto de sua boca, conjugado com a flexão de sua testa, e tudo que emaranhado como que num concerto, pudesse fazer cegar. Dessa inocência que disseca sapos.

Aquele dia de noite de vento incessante, balançando as janelas, todo o movimento do mundo à espreita, e antes do amanhecer pulei da cama, inundado por uma idéia fixa. Mirei o nascer do sol durante tanto tempo, tentando roubar com os olhos todos aqueles tons, e a luz derramando-se pelas coisas tentando lavá-las. Saí então: semanas pelos bosques: a colher flores e galhos: para compor pigmentos. Fiz vestes que tentassem fazer justiça aos bons presságios, azuis alaranjados avermelhados amarelados avioletados e todos os mais tons possíveis. Parecia um pássaro do paraíso.

Fim de tarde, dia exaustivo, atulhei sua boca, que a fiz com um buraco, com feno e um pouco de cimento e areia.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

testamentando

acho que quero que minhas cinzas sejam jogadas pelo céu presas a fogos de artifício, misturadas na pólvora e no colorido.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

há uns quinze minutos atrás

sonhei com você. sua cabeça saía do vaso sanitário. e eu precisava mijar toda hora, mas você sempre ficava abaixada nessas horas. teve um momento em que você ficou puta, porque quando eu dava descarga você teve que ficar abaixada, pela sei lá, terceira vez. eu pedi desculpas, mas eu não tinha outra opção.

domingo, 12 de setembro de 2010

impressão

como se no fundo da página houvesse alguma coisa escrita numa letra secreta. só se enxerga se se joga um líquido. mas não tem como saber direito qual. aí se tenta as várias opções possíveis. desinfetante, molho de tomate, suco de maracujá, chorume. não se sabe dizer se funcionou ou não.

como se no fundo do alçapão houvesse o monstro. ele é uma fera ancestral, urra. está regenerando e sendo amputado todo dia santo e santo dia, e todo dia é santo por ali. seu braço, atado em tiras de couro quando ele ainda dorme, assim que brotou novamente. e ele ressurge como um grito, o braço, como uma explosão, e dói um absurdo. e as tiras de couro o envolvem, sozinhas. e ele aguarda, sempre com toda impaciência, pensando se talvez a lâmina não vai cair hoje. mas ela sempre cai, e ele não pode saber quando. e é isso. pobre monstro.

sábado, 11 de setembro de 2010

pra hoje

sair do labirinto, me jogar no mundo

we are all in this together

nem sei se ainda consigo brincar do mesmo jeito, assim. dessas coisas de antes. há uma mania recente de fechar chaves. aliás, eu consigo brincar sim. não é do mesmo jeito. nem é nunca é. rs. eu tou tentando fazer uma coisa que nem é o que necessariamente tou acostumado a fazer recentemente. porque fica insinuando em mim esse tom de salvação. e meus nojos não conseguem ser plenos. e pro fogo, eu me coloco, me imolo, se pá sem ver, às vezes vendo, oferecendo as costas pra chibata sorrindo. se toda a comunidade quer o meu sangue, vamos lá, deixa ele escorrer na terra e, de repente, vai que aquelas flores mortas renascem? vai que? esse meu talentozinho pra caricaturas, se eu fosse versado no desenho, me levava longe. ainda vou, se pá, sei lá. o que tenho agora é esse monte de palavra, elas se chocam, elas se abraçam, se irmanam, se pegam forte uma com a outra, se pá até se fodem, e deixam vezenquando o rastro de muita zona pela casa. pernas pro ar.  lividez é uma palavra bonita, me ocorre agora. lívido, de ódio, de prazer, de sei lá o que. também gosto de guarda-chuva, da palavra, da noção. tem os tais dos ipês amarelos, e tem também as árvores secas, e tem uma pá de coisas gostosas. mas vamos ao rol dos tons amargos. alguém disse lá que o doce não seria tão doce sem o amargo. e quem é que quer, afinal, saturar as papilas gustativas? estive pensando. palavras. estou pensando. hahaha. o que diabos é um pensamento enquanto a gente escreve. as coisas vão se montando. é bom que sei lá. eu sinto assim mesmo. indo onde pode ir. palavras. tem uma aí de dizer que flutuações de humor bruscas assim. um clima desses. nossa. ora chuva-tempestade, ora sol-escaldante, que cristão que aguenta? sei lá. real que não sei. deixa quieto esse não saber. deixa ele de boa. e nem falei dos tais dos nojos, mas eles estão aí. deixa eles também. só deixa.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

botânica

os ipês amarelos têm salvado minha vida.

complementando "limpidez"

lembrei do apanhador no campo de centeio. que sonhava em eternamente apanhar todo mundo que fosse cair. puta que pariu! é fodido demais. é bonito demais.

limpidez

eu queria, nesse exato instante, poder sugar a água do peito de todo mundo que estivesse afogando.

de um momento

sentimento bom que diz que eu conseguiria ir como rolo compressor. consciência boa de saber que sentimento é sentimento.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

andas que nos elevem

acordou-me hoje uma vontade de que, hoje por hoje, as roupas estivessem todas espalhadas, e que eu jamais achasse aquela conta a ser paga no meio de garrafas e bitucas, e o telefone dentro da geladeira, os livros todos abertos em cima da cama, a pia vazando e a paz de não ter nada no lugar, nada.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Andarejando

Caio, penso que nunca poderei lhe agradecer o suficiente: por seus olhos claros de mel, pela poesia que você me deixou nos dias, e pelos ossos quebrados. Se é que não sejam a mesma coisa. Se não usei naqueles dias  uma tala no braço por seus olhares. Mais provável que tenha sido numa daquelas brigas, que eram brincadeiras de lutinha. Era engraçado. Até caí da cama. Como mulher, penso que sou frágil, mas achava que era forte. Você me veio com nada nas mãos e brinquei de Bethânia, seu posseiro, seu tolo. Eu não sabia o que era sentir sede antes de te conhecer, aí aprendi que misturar rum, gim e uma pitada de tabasco poderiam funcionar bem. Seus dentes tinham cor de tabaco, e você me dizia que Eu me viro, te firo, eu reviro, te respiro, e eu ficava algo como derretendo. Nunca fizemos aquela viagem, a não ser em minha cabeça, e ainda imagino minhas pernas para fora do carro enquanto você cantarolava alguma coisa, porque o som estava estragado. Eu só conseguia olhar nos seus olhos mesmo quando você não via mais nada, e era seu olhar que espalhava uma poesia pelo meu dia. Hoje sei que ela é silente, nos seus tempos, verborrágica. Eu nunca consegui entender como você conseguia arrumar tanta coisa para falar, Caio. Não imagino que haja tanto no mundo, se não em sua cabeça. E agora na minha, à medida que sua, à medida que só minha, à medida que indo embora nos seus caminhos de sei lá onde. Será que você praticou balonismo? Será que foi à Compostela? Eu não espero um postal. Bem Caio, tive outros homens, tive outras mulheres, encontrei um pouco de mim e de você em todos, e acho que esse é a grande chave. Deixo um beijo pra você, que quem sabe leia essa carta um dia? Deixei com sua mãe porque penso que, se as coisas são como a gente imagina que são, um dia você volte a amá-la. O amor salva viu, Caio? Prometo-juro.

domingo, 5 de setembro de 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Com Uma Brisa de Verão

Estou de vigília, Sara. Se a gente dormir tudo acaba, Sara. É que amanhã o dia vai ser o mais cinzento, menina minha. Se ao menos eu puder manter meus olhos abertos e meu foco aceso, para você e para nós, brincando de esteio e âncora nesse fim de mundo. Você me diz baixinho, meio que lamento misturado de oração, falando pra quase ninguém ouvir você não corresse o risco de ofender, mas cê sabe né, que assim, bem assim, não se coloca nem se afirma, não põe o pé em cima das coisas, e se aninha por entre uma de minhas curvas pedindo festinha "Ana-ana-ana, que é que será de nós, ana-ana-ana?", e eu nem lhe digo nada, só te olho, e não sei se te censuro, se julgo, se acalmo, se aclamo, sei que te olho, e ao te olhar assim parece que pela minha retina você, atravessada, entrou pra dentro de mim.

Passa pela minha cabeça assim, Sara, bem de relance, e me tento a repetir seu nome, gestos, lábios, testes, restos, que na vida passada fui fiel cavaleiro de uma dama nobre. Nesses muitos jogos de cena estou aqui reproduzida como que saída do mesmo molde. Penso que meu cabelo é um pouco mais curto, e os olhos mais escuros, e é pra tentar segurar, diz em mim o lobo mal, ao menos um pouco, desse tanto de coisa que invade a gente e deixa caído aí estatelado e cego. E como que eu posso te guiar cega, Sara? Fingindo que eu enxergo?

Sara, e não olha agora não, mas ouve aí o tanto que as janelas estão tremendo. Não abre os olhos seus nunca mais não, Sara, pra que? Que é que mais você quer? As coisas todas fora de ordem, parecendo fim de festa? Nem me pergunte se acho bonito, Sara, esse tanto de balão estourado caído no chão e restos de casadinho pela metade. Sabe muito bem que nunca te falaria, né? Sabe sim. Coloca as mãos no meu rosto e tenta adivinhar que cara que estou fazendo pra você. Só assim que posso te mostrar o mundo, anjo meu.

Amanhã vai ser um dia muito muito complicado, minha menina, o mais sombrio e atormentado dia de nós. Dorme aí e não acorda mais não, fico aqui velando seu sono, deixo um beijo em cima de cada um dos seus olhos, e a gente deixa o esquecimento varrer qualquer coisa de nós duas que ficar pra trás.