sexta-feira, 26 de junho de 2009

Velocino de Ouro

Só escapando de qualquer coisa. E sem sucesso algum. Esforço mal-alinhado, fio que se enrola em nós, cegos cegos, coitados. Uma caixa-preta e nenhuma voz registrada. Como que por mistério! Que eu não ouça o que você diz mais, acho até válido. O problema é que não tenho ouvido as paredes. Todas as vozes ao meu redor, silenciando. Até o copo de vidro que cai no chão e se espatifa, está sem som. Alguma coisa deve estar estragada. Sei lá. O que é. Eu não consigo mais tremer como antes,

ele me disse. Eu comecei a falar. Era qualquer coisa. Mas fiquei na dúvida. Ele conseguiria me ouvir? Acho que uma música tocava. Perguntei se ele conseguia ouvir, ou se sentia, e quando eu toquei seu braço parecia que ele não estava lá. Mas por um momento, fiquei em dúvida. Talvez fosse eu que não estivesse. Fiquei pensando se faria alguma diferença. Quis tocar seus cabelos, passar a mão em seu rosto, beijar seus olhos. Eu não lhe disse, mas quis.

Tentei sair de lá, levantando, tateando as paredes. Minha visão cada vez mais embaçada, esbarrei no interruptor de luz e nunca mais o achei. Pensei até que ele poderia ter sido engolfado pela parede. Eu não ficaria surpreso. Aliás, nada como um bom pacote de presente, bem grande, com um laço bem vistoso. Eu não estava lhe dizendo nada, ele disse, enquanto ainda estávamos no escuro. Eu não estou procurando nada, ele me disse, enquanto ainda éramos só escuro. Não há nada que possa ser feito a respeito, só há esse escuro. Que talvez esmague, e eu encolhi-me no canto ouvindo. Só ouvindo. Eu achei que ouvia. Ele disse,

sabe se ouve? Tem certeza? Pode afirmar mesmo que não é só uma voz na sua cabeça? E eu já não mais sabia qualquer coisa a respeito... Que falta de respeito... Que torpeza... Eu nem o via. Me procure, meus olhos estão brilhando. Eu não via, eu disse que não via. Mas ele disse que eu era capaz. Que eu podia amar o desconhecido como só um demente amaria o abismo. Só as líbelulas sabem. De repente eu ouvi. Parecia um tiro. Senti, por alguns instantes, que era como se eu afogasse. Ou transbordasse. Rodeada de peixes coloridos soltando bolhas, abrindo e fechando a boca, olhando fixamente para mim. Eu vi seus olhos brilhando. Então eu toquei nele e ouvi alguma coisa. Vou tentar repetir. Toquei nele e ouvi alguma coisa. Pronto. Já repeti. Era qualquer coisa.

domingo, 14 de junho de 2009

Abaixa esse tom

Vai sua franqueza, e que se diga tudo, de possibilidades ou danos, diz-lhe num teste que ela ateste porque eu não posso mais querer. Chega, bem tarde, a realidade e que com ela não há mais, só há vileza, é só tristeza e a melancolia que não trai a mim. Mas se ela tornar, que coisa finda. Que coisa rota. Pois há muito mais a se afogar do que aquilo tudo que roubei, de minha boca, dentro dos meus rastros, os atrasos hão de ser milhões de rasgos, torturado assim tentado assim mascarado assim, ranhuras e hematomas e tormentos sem ter fim. Que é pra sobrar com esse tamanho de distância de mim a ti. É só o que quero.

terça-feira, 9 de junho de 2009

é, não é? é.

saudade disso. saudade disso do caralho. vontade de simplesmente gritar minha existência. como se fosse fazer diferença, e como se não fizessemos isso o tempo todo. um desses punctus, irrevogáveis e prenhes, porém absurdamente esteréis. e fadados a um toque de midas. midiático? hahahaha. ha ha. ha. não faz tanta diferença assim limar as mil possibilidades de arestas, para daí tirar a pedra angular. (e quando diabos me tornei tão bíblico?) e se é isso que estou tentando fazer, porque diabos estou aqui gritando minha existência? e embriaguem-se, o poeta diz. ah, digno demais citar falando "o poeta". chiquérrimo. acho um luxo. essa vontade de nocaute, que não me é nova, que nunca é tão diferente, mas nunca é exatamente a mesma, talvez me fizesse chegar a... sei lá onde. a lugar nenhum. e a beleza disso. beleza do caralho. saudade disso. enorme. sei lá do que. não importa tanto. aliás, até sei. qualquer coisa que mova. que mexa aos absurdos, que me deixe depois estatelado, no chão, falando ok ok ok ok ok. e que passa. que fantástico. que genial. que energúmeno! que grande imbecil você é! e é um grande cu. fedido. imundo. cabeludo. em barro. é, sem nenhum bloqueio de linguagem, é uma porra dum caralho que fede. que puta imagem escrota, sim. é só o que há agora. nada de tão novo. nada de tão. e é logo um depois de um antes. mas que talvez seja assim sempre. é uma questão de amor fati? sei lá. não li a porra do nietzsche. e foda-se novamente. todas as imagens se perfilando a minha frente, tipo aquela imagem, vá lá, do poeta? não, do literato (boqueta?, alguns diriam, e foda-se também) tcheco. sim, várias imagens, desfilando, em volta de uma piscina, e caindo, depois de tiros. vá lá, mais antropólogo... flechas? mais escatológico... cuspe? desnecessário... que bagunça.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Não Me Proteja, Eu Tenho Minha Sina

Não tem beleza nenhuma nisso, não tem beleza nenhuma em mim, mas o que há, se podermos fazer belas estátuas? Se não é essa uma das muitas formas de escapar ao tempo, mesmo que sejamos castelos de areia. Produção! Por favor! Uma metáfora menos batida aqui! Ok, que sejamos árvores secas se desfolhando aos poucos e copiosamente, emitindo silvos suaves sem salvação. Os cabelos se balançam, sem beleza nenhuma, eles se movem por conta própria, horrendos, e quem que olhe meus olhos? Não os olhem. Quem que olhe nos meus olhos, bem ao fundo deles? Sem remédio. Do pó viemos, à pedra iremos. E o que aconteceria caso eu olhasse meus olhos no espelho? E não é isso que acabei fazendo tantas e tantas vezes? E quem me salvou logo em seguida? Ou será que sou eu esse monte de cacos ao chão? E o que faz com que eles se reordenem e de que forma? Quem impele o que me impele, ou melhor, que me impede? E se somos nós, quem não seríamos? Pra ter a ilusão que a gente se refaz depois de um tempo, pra depois descobrir que a argamassa usada é a mesma, e o edifício tão frágil quanto. Produção! Vejo aqui uma metáfora enxertada! Produção! Vejo que aqui algo se insinua por meio de gritos. É necessário respirar, mas esse mármore em meus pulmões...