quinta-feira, 28 de maio de 2009

em volta da fogueira

às vezes é preciso tocar o fogo, sentir que sua pele pulsa, que os reflexos de se encolher no canto existem e, ainda mais importante, lutar contra eles, ver como as próprias amarras são tolas, ou nos constituem, mas não importa, por vezes é preciso sentir-se vivo assim, e ver aquela beleza toda mesmo sabendo que queima, é admitir que a bomba de hiroshima deu uma foto belíssima, é não negar a morte mas não negar a beleza em seu inverso, o absurdo estético do que é moralmente degradante, o que não significa se degradar, o que não significa aplaudir, as necessárias operações analíticas que empreendemos para viver, a percepção de que tudo se mistura e não é o mesmo quando se mistura, é saber que é melhor ver a explosão que é bonita mesmo que queime, é saber que se queimar significa ter novas cicatrizes, e que são histórias, e que por vezes deixarão a pele muito menos sensível, mas é o que somos e pelo que passamos desde sempre, é belo, é isso

terça-feira, 26 de maio de 2009

minha vida, a piada

Minha vida, a piada, constititui fundamentalmente de um épico, encenado em palco, com números de atos indefinidos, com momentos em que o diretor cênico toma as vezes de iluminador, e provavelmente erra o enfoque de cor que seria necessário para o momento, e quando o ator principal está com dor de barriga ele é substituído às pressas por um coadjuvante, que fala suas falas quase numa mistura com as dele próprio, sem absoluta coerência, para irritação do iluminador, ou melhor do diretor cênico, que tenta escrever cenas mas por vezes escreve projetos de poesia, com frases existenciais colocadas em locais equivocados, fazendo com que, infelizmente, pesos cômico sempre se torne constitutivos de possíveis momentos tensos, drama e intensidade, ou que ao contrário, mas não menos pior que isso, que uma das atrizes coadjuvantes tenha um colapso nervoso no meio da encenação do pouco, podendo chegar ao meio do palco e começar e latir como um cão raivoso, e nesse entremeio é bem possível que a cortina tenha caído equivocadamente umas duas vezes, fundamentalmente um problema de timing, arranjo e técnica. e as frases longas são uma constante, nas quais, principalmente, qualquer idéia inicial de um periódo, qualquer protótipo de plano é rapidamente deixado de lado imerso nos trâmites dos instantes e das moscas. e quando o diretor, e também o ator principal ao mesmo tempo, estão ainda tentando se arranjar um com o outro e em relação aos outros, e disputando o papel da batuta de regência, o público começa a entrar, meio aturdido, e em pouco tempo pede o dinheiro de volta. e quando os atores respondem, e também o diretor, e o iluminador, e o contra-regra, e a figurinista, respondem em uníssono que a peça era entrada franca, que nada disso fazia sentido, e que estavam no meio do espetáculo, muitos da platéia já teriam se retirado, e todo o palco insistindo que ficassem, que fariam um chá com alguns bolinhos, que serviriam um cubano a cada cavalheiro e entregariam um delicado amor-perfeito a cada dama, a platéia já estaria conversando entre si, entendiada. de repente alguém entenderia, e começaria a rir.

domingo, 24 de maio de 2009

pessoa é minha pomba-gira (com ecos de kafka nos murmúrios)

a vida (com as marcas, os grilhões e os turbilhões) pequena, pequena, mínima perante a possibilidade de poder depois cantá-la às musas e à pátria (ou vê-la grafada na pele).

quinta-feira, 7 de maio de 2009

profissão de fé

existem muitos objetos no mundo, muitas canções, muitos filmes, muitas pinturas, muitas muitas coisas, tentativa de catálogo seriam completamente absurdas (não que o esforço não pudesse ser bonito). nossa existência limita as nossas experiências também. também, não somos totalidade, somos como que agregados, como que peças ajuntadas, corpos que podem ser delineados. sendo assim, não é tão estranho que um e outro gostem de um mesmo, digamos, objeto numa mesma fotografia de arbus.
quer dizer, de certo modo pode causar uma boa dose de estranhamento, mas não chega a ser um completo absurdo. mas e quando suas marcas registradas recebem muitos nomes? e quando diferentes pessoas reparam nos mesmos sinais em sua pele, ou no mesmo, e lhe dão diferentes nomes ou lhe dizem gostar deles com intensidade? e se, pior ainda, usam as mesmas palavras? e se lhes acontece de o de ontem lhe cantar a mesma música que o de hoje agora lhe canta e quer que seja a música de vocês? e quando o que era para ser o compartilhamente dialógico torna-se uma poligamia confusa?
minha confissão é ter uma promiscuidade limitada. essas certas coisas com as quais não me acostumo. é como fosse anti-natural que o mundo comporte tanta possibilidade de que as coisas se percam e se confundam. é como se fosse necessário alguma eternização e intangibilidade.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

poesiazinha tosquinha

enquanto tormentas, temporais e tempura,
enquanto copos de água quase vazios,
ou borbulhantes ferventes escaldando a mão e gatos,
ou gélidos ardentes,
enquanto golem de si mesmo,
atormentado pela impossibilidade ante a realidade,
e a religião, e a fé, e as crenças,
e a tentativa de se ligar com algo que transcendente e perene,
e que reluza dourado e que dê vida eterna,
como que a eterna busca pela pedra filosofal alquímica,
e na aridez de um solo que se escava
encontramos petróleo,
e de repente o poço em chamas.

(e se me dirão que a fumaça é também alguma coisa,
e as cinzas,
e o malcheiro,
eu não negaria, eu não negaria)

(e se me dirão que o poço está lá, intacto,
eu diria que ele não mata sede alguma)

(e se dirão que o brilho da lua tão alta essa noite,
poderia nos deixar altos,
eu não sei o que diria exceto que
dor)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

explicando meus exercícios

tentativa atual de alguma coisa que se funda e remonta a outra(s). não que sempre não tenha sido. o lance do espelho que reflete sempre ao inverso. e a depender da circunstância, quem sabe a realidade criada (que pode ser em alguma escala mesmo que ficticiamente sentida) enquanto um parque de diversões, logo estaríamos num salão de espelhos nos vendo alongados, achatados, minimizados. enfim, distorcidos e inalcançáveis. enfim uma derrota que é ascensão.