quarta-feira, 27 de agosto de 2008

tentativa de resposta a alguém (e a mim)

"Then looking upwards
I strain my eyes and try
To tell the difference between shooting stars and satellites
From the passenger seat as you are driving me home.

"do they collide?"
I ask and you smile.
With my feet on the dash
The world doesn't matter.

When you feel embarrassed then i'll be your pride
When you need directions then i'll be the guide
For all time.
For all time."

terça-feira, 26 de agosto de 2008

de dois momentos loser atemporais, mas nem por isso constantes

da percepção da ficção de uma impotência:
antigamente eu cantaria ''take me out tonight'' e soaria cem por cento verdadeiro.
hoje tenho um carro e o incômodo permanece.


e já que eu ando meio nacionalista:
"Quando de noite me der / Vontade de me matar", como diz bandeira, só que eu desfiz qualquer pasárgada por hoje, eu só respiro e rio desse niilismozinho xinfrim de fim de noite.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

e caronte nos disse

a realidade que nos é circundante é um texto que é escrito e apagado incessantemente e descontroladamente em alguma (grande ou pequena?) medida.

a consciência de que lemos esse texto e o acessamos das mais diferentes formas por meio do que entendemos por linguagem faz pensar que o que é coerção é também possibilidade de ação, e a seguir, criação. escrevemos o texto também, assim como o lemos, co - cons ti tu ti va men te.

tanto por cópia, como por leitura, como ladrões por vezes, dessas palavras que foram dadas, desses significados que me postos a mão, tijolos (possibilidade de construção e possibilidade de arma), desse caminho contra o qual se luta e ao qual rendemos bençãos.

e isso faz pensar em ulisses e seu auto-controle quanto ao canto das sereias, mesmo que eu tenha lido mal a odisséia. é uma jornada, há um direcionamento, destino se faz na polissemia, tanto por onde se vai, como para onde se vai. a consciência da historicidade, da casualidade e da causalidade que são compostas pelas exatas mesmas letras.

ser à deriva e ser a deriva. a possibilidade de entendimento. o paradoxo que funda e afunda.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

"alegria de rico"

já que isso é uma contraposição à "alegria de pobre", vá lá:
não conseguir comprar o tocqueville, mas um bom de um virginia woolf há muito procurado. conseguir comprar o foucault e de quebra achar um sacher-masoch. perder um papel importante, mas ainda assim cumprir com algumas das responsabilidades. tomar um milk shake ruim, mas abastecer o carro a um preço razoável e ainda ganhar uma lavagem de pintura das boas.

besteirinhas bobas, mas que dão uma alegria também das bobas. tem sido importante.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

sem deixar entrar luz em casa

um dia vens,
me abraça, me enlaça, me arrasta, me arrasa,
e depois,
seu toque,
consegue mudar as cores do crepúsculo,
deixando tudo mais cinza,
mas sem perder o carmim,
que derrama, silente e incessante, óleo pelo asfalto,
à espera de um acidente de carro,
que com suas luzes, como fogos de artifício,
como um chamariz,
esclareça os caminhos e proponha uma
dança,
só que louca dança sem cadência,
decadência, deca dance,
com anéis jogados pelo chão,
misturados,
junto aos dedos decepados,
já que o que está cravado na pele,
dizem,
o que está profundamente cravado na pele,
persistem em dizer,
não se remove com água e sabão,
e acaba por exigir das cartas um parecer,
qualquer coisa com extremismo,
uma solução incisiva, quem sabe,
pois que podemos encontrar um bufão ou uma dama ou uma espada,
ou mesmo escritos fajutos, tentativas de traduzir nada,
e montando aviões, arremessando em direção à sua
alta torre de marfim sacrossanta,
meu medo é, veja,
que meu gesto faça cair por terra
o esboço desse castelo
(ou o castelo desse esboço, ou pior:
o esboço encastelado,
eterno desenrolar do espelho sobre si mesmo)

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

de rotas de fuga

podia ser verdade. podia ter verdade. podia haver a beleza de fins de tarde na grama, olhando as sombras que as árvores fazem nos carros, brincando de vertigem, se irritando com mosquitos. podia ser um cigarro se apagando aos pouquinhos, quase como um choro baixo. podia ser uma madrugada menos voraz, um sono mais clemente, um cinzeiro que me cause menos vontade de dizer coisas bonitas que eu não sei mais com que letra começam. podia ser mais fácil, repetindo, podia ser mais fácil. podia haver mais esforço. podia não haver o sono, ou mesmo a vontade de dormir, e que tudo fosse daquelas densidades, parecidas com a imagem de um tumor se espalhando pelo corpo. podia ser menos estranho pensar nos dias que virão. podia ser menos estranho pensar nos dias que se foram. podia haver mais doçura, ou que a acidez e o amargor fossem mais constantes, algo de menos fluido do que esse todo rodeante, circundante, vibrando, incomunicável, imenso, etéreo, fictício. podia ser menos adolescente, menos quase-vinte-anos, menos vacina-contra-rubeóla-só-após-domingo. podia haver entedimento, sem pouca luz, uma certa tomada de rédeas, ou uma brincadeira com conta-gotas. podia até haver mais tarô. podia ser que fosse brincadeira, antes que tudo virasse um jogo, antes que a estação das chuvas viesse sem que tivesse comprado um guarda-chuva. podia ser outra parede a minha frente, outras em volta, outro piso, outro teto. podia ser medalhas de ouro após esfolar os joelhos. podia ser uma consciência menos de enlaçe e mais de assombro.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

minha lástima

meu cansaço, minha lástima,
é de tão cansado que ao começar a se dizer,
vai meio que lento de início e então acelera tanto
quase sem fôlego a ponto de que se fosse preciso fazer com que tudo fosse conciso não se conseguiria e é uma repetição verborrágica de faltas de sentido e setas de orientação e mapas queimados no meio e qualquer dessas coisas meio que com um quê de um soco, minha lástima,

e de tão cansado que se segue,
eu me perco,
e ao contar uma história de cavalos,
ou cavalgadas,
ou cavalhadas,
saio de cascos ou cowboys ou pirenopólis
para amendoins e manguezais,
ou mesmo para lugar algum ou coisa, minha lástima,

e é então uma lástima que eu não saiba lhe dar um nome,
mesmo que eu quisesse,
porque, veja bem, minha lástima,
eu não quero,
imagine esse não em itálico,
bem enfático,
levemente cortante,

mas não por ser lâmina, não para roubar seu sangue, minha lástima,
mesmo que seria necessário jogá-lo ao chão para que desse chão,
tão acinzentado e fosco, pobrezinho,
mesmo que pouca, fosse a fertilidade,
mesmo que ainda que,
e já fiz o suficiente, minha lástima, de concessões, é o que você diria,
se existisse, sentada no sofá amarelo à minha frente,
que se assemelha levemente, que seja dito bem de passagem, como no cruzamento de duas avenidas,
a um que está na casa de um tio,
e que mesmo que eu só tenha tido a oportunidade de vê-lo uma vez ou duas,
está fixo na minha cabeça e cortando, portanto,
e o não não era enfático, exatamente enfático, minha lástima,
mas incisivo,
uma chuva de ouro por sob sua cabeça
e mel e flores e perfumes e bençãos e
aqui estaria nosso éden, minha lástima,
é que tudo seria perfeito, minha lástima.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

de qualquer bobagem com fumaça e restos

chegava a ser muito patético, aquilo tudo, você numa cadeira de balanço ou alguma espécie de coisa parecida e eu, esparramado pela cama. e eu lhe perguntava se os pensamentos faziam linhas ao mesmo tempo que, de olhos fechados, nos via como leões e como crianças que brincavam em algum país distante e inóspito. nem um pouco tropical, em contradição com a música que tocava, que você pediu que tirasse pois ela lhe retirava do bem de si. e eu, ali na cama, pensando sobre como queria simplesmente lhe convencer e não lhe entender, e eu era todo expectativas projetadas e um gosto quase de fel e uma vontade de rir descontroladamente que raras vezes se materializava numa espécie de suspiro. e uma vontade de fugir do sono por medo da morte, esta mais presente, esta reptícia, meio sibilante, quase que eu sentia seu resfolegar no meu cangote enquanto eu queria que os vestidos pelo chão fossem outros que não os que jaziam e antes disso eu quebrara um copo e eu era o copo quebrado e todas as minhas vontades alvejadas e não mais almejadas e toda a necessidade de dizer meio que fi can do par ti da em pe da ços

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

i'm alive

eu choro com filmes, e reconheço que estou vivo, e é quase um leve embebecimento, e um esquecimento das mazelas, ou não exatamente, mas como se também elas reforçassem e explodissem tal sensação, como centenas, não, milhares de bombas ao mesmo também,

e é simplesmente esplendoroso estar vivo, magnífico, do mais absurdo êxtase, e é mais ou menos isso, mas mais longo que isso, e resvala, por vezes, no amor que salva,

quase de forma irremediável, e na necessidade da comunicação, da construção de coerência também, por mais que esta não seja nem de perto, nem de longe, nem de distância alguma, a negação da incoerência geral das coisas, acontece que,

por vezes, o incompreensível não é tão dilacerante, e é como se ele se tornasse então tão repleto em si, tão vasto em sua incomensurabilidade, e uma beleza que esmagaria se captada, e a idéia de plenitude tomando todas as coisas de sopetão, jogando-as ao chão, pisando nelas, fazendo jorrar por todos os poros, soberana, majestosa, ilibável, e isso é se sentir vivo, nem de perto se cortar para ver o sangue escorrer, é, enfim, como sentir que apesar de, apesar de nada fazer sentido é tudo. é tudo. é tudo,

e a consciência da morte é indissociável dessa consciência de vida, uma fica como que uma marcação perfeita da outra, o compasso oposto, aquilo que dá beleza a outra, que faz com que um não pareça tanto um caminho estranho e sem vagalume ou vago luzir qualquer, e isso, nada disso faz querer viver mais, ou querer viver menos, ou com mais força ou menos, pura e simplesmente faz,

é como olhar para a mesma coisa factralizando-a a cada vez, e em cada imperfeição nada há de asqueroso, ou como se o próprio terror das coisas torpes, desse surgisse a possibilidade de algo que supera, perpassa, transborda,

o significado diluido e o urro do significante.