domingo, 8 de junho de 2008

quase religiosamente

vontade de calar a boca pra sempre. o cansaço me toma como afundando na areia de frente ao mar, e vontade de não dizer nada por já ter dito demais tanta coisa que vai embora que o mar leva, e é realmente absurdo pensar que estou de volta e por lá estou, completamente surreal, como a água que desce pelo corpo levando embora partes de mim a cada vez, e já que assim eu não sou mais o mesmo de o momento atrás e quero tanto que isso vá embora com menos pesar, certamente quero, e que o olhar para as ondas que vão em vão, sentimento de sagrado, oração ao nada, seja simplemente tudo, e por saber da infinitude daquilo, de lá veio o que entendemos por ser, lá pelo início das coisas, esse mistério, esse fluxo do vento frio e o mar morno e as águas daqui são melhores e de madrugada é medonho, tudo é do negror do piche, e esse mar, sagrado, imenso, e que mostra com sapiência que lá há tanto tempo está e que as ondas simplesmente se movem, e a vontade de morrer na praia, o cansaço de ter que encontrar palavras no futuro e para este, e de ter que andar e saber que é tanta areia por agora e o mar longe longe, as ondas não poderão levar meu óculos nem muito menos minhas sílabas mal-articuladas, meus períodos e orações, deuses e lodo!, essa maré traiçoeira levando pra frente cínica, mas tragando na volta, as lentes que se foram, agora com algas ou em migalhas, e sentado à beira da praia só me sinto como sempre parece que me sinto: fazendo castelos, com o vento que escorre agora rumo a oeste, lá onde o sol morre, mas de onde o sol nasce também é de onde vem essas nuvens escuras, esse negrume sem luz e sem graça, eu preciso é do excesso de sal e da minha pele ardendo, até que eu evapore completamente, de êxtase, de arrebatamento.

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