sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

de vultos que surgem e ficam

um intertexto que não se diz como tal, já que tudo é dessa espécie de matéria, tudo que se pode dizer.

algo que brota do chão sem que eu veja e eu prefiro jurar que vi que lá está, ou ao menos jurar que eu soube que lá havia uma semente, ou ao menos jurar que eu soube que joguei água por ali, ou ao menos jurar que eu soube que derrubei adubo, ou ao menos jurar que eu soube desviar do local para que meus pés não impedissem o florescimento, ou ao menos jurar que eu soube evitar uma poda precoce, ou ao menos jurar que eu soube tirar júbilo do que era horrendo, ou ao menos jurar que eu soube ter algum controle sobre todo este processo que muitos preferem confessar e dizer que escapa das mãos. mas não das minhas, juro que não.

e então, alguns dias depois, afirmo saber derrubar álcool nas raízes, no caule, nas folhas, nas pétalas, nos frutos, nas sementes, afirmo saber. e afirmo derrubar. e afirmo atear fogo. mas não o faço, só afirmo.

depois, é só evitar olhar. tão simples. e claro, fica a tristeza da despedida, mesmo sabendo-se fictícia, tanto a tristeza como a despedida. se não fictícia, no mínimo inventada, como qualquer uma dessas coisas que a gente finge haver para esconder o que não se quer ver. e fica tão difícil afirmar que a palavra certo para o final é imperceptível: ou porque parece ser e não é, ou porque é mas não parece ser.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

daquela festinha que era pra ser cristã,

nada como tradições que se subvertem.

nada tão bom como tomar moet chandon numa banheira de hidromassagem brincando com a espuma nas águas.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

como ele diz: "para a realidade ter mais graça"

sempre espero o dia em que entrarei em minha casa, normalmente, olharei para cama, e lá estará uma velhinha magra e tranqüila me dando tchauzinho com um sorriso indefinível, algo como levemente insano ou levemente infantil.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

minha futura casa

dentro de aproximadamente 30m²:
eu, o carro da mari e um pônei, além de muita graminha pra ele pastar e ser feliz.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

é, sei lá, comer uns morangos

dos silvestres, não dos mofados.

pode ser uva também, com chocolate. ou morango com chocolate. gosto de felicidade, alguém me disse. que não se nomeie isso.


não que a opção não dependa do dia também. ou a vontade de nomear.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

ela disse que era uma metáfora

Saiu alardeando para todos os cantos que havia saído com os sapatos errados de casa. Com aquela chuva molhada, dizia assim mesmo, molhada, obviamente molhada, os pés ensopados marcando todos os caminhos que pisasse. Só que conseguia sorrir, à medida que o vento rodava pelo ar como se os irrigadores do jardim estivessem ligados e girando, formando redemoinhos.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

é, eu cheguei nesse estágio

Era como se quisesse escrever uma história de amor bonita e irônica, mas não tentaria por medo de falhar. O que é comum, aliás;

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

trecho de algo em processo

Vou te pedir só mais uma coisa, só mais uma coisa. Tente ver essa cena, vamos veja, é que somos como se dois corpos de areia, exatamente assim, não somente como se, não como se próximo disso, mas mesmo assim como se, nunca exatamente iguais, nunca exatamente transcritos, dois corpos de areia, vamos, veja, não vai estar muito distante da realidade. Agora veja o vento vindo, e imagine, ele vem por toda sua vida, imagine, sim? Imagine, porque é como se fosse mesmo, como se fosse mesmo. Cada grão que sai de nós também era parte de nós, talvez não deixe de ser, veja bem, talvez não deixa, como se uma gota que saiu de uma nuvem bem alta, mas no caso do grão, sabe-se lá o que vai ser dele depois, dificilmente será achado. E os grãos vão indo embora, ora mais rapidamente que outras horas, ora não, só veja a imagem deles indo, tão aos poucos, como quando se vive. Às vezes o vento leva um corpo assim, num átimo, de uma vez só. Noutras tudo vai sendo carregado tão lentamente como dizem que deve ser, como se diz como deve ser, dizem, mas sabe-se lá o que deve ser. Eu não sei, você não sabe. Mas o importante, meu caro, meu raro, é que assim se vai. E não se acha. E tudo finda. Bem simples.

domingo, 2 de dezembro de 2007

esclarecimento:

abaixo, totalmente e tortamente ficcional, não sei a quem foi escrito. aliás, foi escrito a alguém que não existe. e ainda bem que é assim, pois que já não é mais.

espero que jazz não seja óbvio

Esta talvez deveria começar como as coisas começam normalmente, com uma saudação. Mas não tenho pretensões saudáveis. Aliás, há tempos não penso muito bem sobre o que exatamente espero, mas seria agradável deitar a cabeça no seu peito e simplesmente ouvir os ruídos e sua voz baixa enquanto o quarto está escuro. Seria legal ver a fumaça saindo de nossas bocas, nossas bocas se tocando depois. Só que não é única e exclusivamente isso que te proponho. É uma daquelas coisas que talvez um dia você vai saber que existe. Aliás, eu poderia te mostrar algo que você ainda não sabe que existe. É interessante. Podemos dizer que você fez alguns progressos, não? Seu rosto está mudado. Toda sua conduta também, as coisas que você fala e deixa de falar, os lugares que frequenta, o tom, a possível polidez, as pessoas às quais você dirige a palavra. Eu sei que tenho a ver com isso, e mais uma vez, tenho intenções messiânicas, de ser um marco na sua vida. Talvez eu queira isso com todas as pessoas com as quais eu me proponho contruir algo firme. É provável. Será que te irritaria minhas vontades de eternização? Acho que não, acho que você entenderia. É tudo fraqueza, afinal, e as suas e as minhas se somariam e ficariam nojentas grudadas a paredes que jamais seriam pintadas novamente. Eu não quero te salvar de nada, eu acho, e ao mesmo tempo quero tanto. Ou morrer com você também, talvez, é que nunca acho que eu tenha concretizado e ao mesmo tempo eu sei que já e tudo se perde assim, numa frase, sem direção. E um simples enunciado seu mais uma vez turvou as águas. E eu sei que de alguma forma, já estou em suas entranhas. Concluindo, nem sei se te quero ou o que quero com você.

sábado, 1 de dezembro de 2007

sentado em sua cadeira,

olhando as coisas pela mesa. um calendário dos dias que você viveu, em branco, e os dias repletos de horas repletas de coisas ou vazias como nada aqui em volta é; um copo de vidro quebrado, como também já quebrei alguns seus, com fitinhas daquelas do bonfim, e se você faz promessas a santos talvez também acredite nisso; um parafuso solto, perfeitamente em seu lugar; as contas de seus outros dias, talvez complementando um roteiro do passado que eu poderia seguir; um número anotado num papel, anotações em italiano noutro, teoria política contemporânea ainda noutro; a caneta, o grampeador, o isqueiro, a luminária, aposento iluminado e não deixando nenhuma das idéias claras, e ficam coisas então pelo meio.

e isso tem uma beleza levemente inominável. ou bastante.