quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

bestas feras

eu poderia beber uma caixa de você, meu querido, e ainda estaria de pé
nesta copacabana ruidosa de ondas bestas feras
e andas que andemos de lado pra cá nos passeios
cerva alí, cerva acolá, quando vemos já estamos cá
botando a foder
e observar os pôres-de-sóis mais rajados, cheios de tons coloridos,
e encher de cons o ar, cada um a fazer toadas, das mais tocadas,
em tom de deboche e luar
uma caixa de você, e de pé
enquanto botávamos as cores nos ruídos das bestas feras afora
a nos rumos das bestas feras adentro
caminhando desejantes sempre sedentos inclementes
em meio a equipamentos de construção e construindo
e os beijos seus com máscaras com pássaros com dragões
com caveiras com uma de bode inclusive com folhas com
sem nunca ofuscar toda a luz da cidade e talvez um pequeno incidente na barra
uma caixa, você, de pé,
e é preciso estar abaixo, agora, é preciso estar abaixo disso,
pra perceber o quanto as bestas feras minhas se amarrava nas bestas feras tuas
querido, venha comigo,
e eu te levo pro lugar que eu durmo

os anéis de saturno

"Homem e terno e celular e carro caro se torna máquina alto executivo. Mulher e megafone e cartaz e tinta na cara se torna máquina feminista. Criança e espada de plástico e cavalo de brinquedo e máscara vira máquina super-herói"



fonte: https://arazaoinadequada.wordpress.com/2013/05/10/deleuze-maquinas-desejantes/

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

As Senhoras

A senhora de amarelo se senta
E comenta da elegância do jogo de pratos e talheres.
A senhora de roxo observa as flores,
E logo fala de seu jardim animadamente para todos os presentes.
A senhora de estampa floral sorri distraída:
Enquanto ouve seus convivas, pensa em sua amante secreta.
A senhora de coque dá mais uma garfada de seu coq au vin
Enquanto cantarola mentalmente uma cantiga esquecida e janta só.
A senhora de preto, a de azul, e uma outra de roxo riem animadamente
Forçando todos a perceberem seja lá o que só o riso faz perceber.
A senhora de cinza, a de laranja, e uma outra de azul derrubam uma garrafa
Forçando um garçom a deixar de atender mesas para limpar o chão.

(Seu segredo:
Uma caixinha de música.
Seu segredo:
Descobrir-se mulher aos 26 anos.
Seu segredo:
Sua cunhada.
Seu segredo:
Ama o silêncio.
Seu segredo:
Odeiam-se com todas as forças.
Seu segredo:
Nunca aprenderam de fato a beber.)

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

carta para a.p.

E como você está sentindo hoje, meu bem? - Nossa, estou saturníssima. Simplesmente saturníssima, querida. E você? - Estou ótima! Mas conte-me, o que a levou a essa nova modificação corporal? - Olha, eu quis elevar a coisa a outro nível, você tá me entendendo? Outras esferas da experiência. Por isso o terceiro seio. Minha namorada se amarrou. - É verdade também que você tem uma tattoo anal? - Sim, botei uma cor nos lábios do cu. São amarelos agora, de dois anos pra cá. Não canso de me modificar. Acho que esses são os novos processos de microempoderamentos cotidianos, tu me entende? Dizer: eu mando no meu corpo. - Incisiva como sempre.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

não sou ulisses, não sou ulisses

vem, vamos ficar altos
e aumenta o volume do som

eu não sou ulisses, eu não sou ulisses,

levanta do sofá num salto
cata o curaçau blue

sai pulando pela sala
fazendo caras e bocas

acende um cigarro, balança a cabeça,
mata o tédio, achei um jeito novo,

mary, oh mary!,
lendo burns

eu não sou ulisses, eu não sou ulisses,

vem, vamos ficar altos
e aumenta o volume do som

oito, março, doismileonze

uma narrativa de um só pode ser a narrativa de um louco ou de forma alguma hoje eu acho que não tenho nada a dizer mas é o que digo e o que você ouve que faz com que haja algo preenchendo silêncio e tudo turbilhão furacão vulcão função e estou louco

Por Isso Que

Você deitado na cama com os pés do lado da minha cara
E eu também deitado na cama
Tocando, cada um, no silêncio que havia dentro
Mas uma uma canção do lado de fora
Embalava
Fazendo, cada um, paisagens dentro da cabeça
Por assim: sós
E completamente inteiros

Nenhuma parte sua
Encostava em mim
E foi assim que procurei sua mão
Sem ver que o fazia

E a gente se propôs
Sei lá eu ou você com a idéia
De falar alto a primeira coisa que estivesse na cabeça
E na hora, os dois ficaram calados,
Ofegando

Sonhar tem mesmo dessas
     De não fugir fácil pela boca
Só se escorrendo escorregando
   Vindo de sei lá onde,
       E levando pra lá onde

Eu pensava em nuvens gordas num céu azul pra caramba
Você pensava numa grama verde de cegar os olhos,
A gente então disse

Mas nenhum de nós sabia se o outro dizia mesmo

Mas eu comentei que era um cenário bom pra um piquenique

E você disse que parecia muito uma cena de filme

E a música que tocava era Rocket Man do Elton John
E era uma tarde de agosto e fazia calor
E poderia ser que houvesse muita vida ainda pela frente
Mas nem parecia

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

as meninas mortas

há uma luz que nunca se apaga
no fundo
dos seus olhos que eram cor de mel
e já foram verdes, vermelhos, e negros como um poço fundo
de onde escala uma menina morta
pronta para tomar minha pele
e me fazer dançar minhas pegadas sem rumo
portanto, enquanto as palmas forem incessantes
pode-se dizer que viveremos
e se um dia cessarem de bater umas contra as outras
que batam então os pés no chão
que é pra fazer barulho e acordar o que jaz
e um exército de meninas mortas levantará
e marcharão elas todas flutuando com vestidos de cores pálidas
acima dos prédios acima das casas
e eu saberei que meu amor por você é morto, mas todos os outros amores serão vivos,
e eu saberei que meu amor por você é morto, e a lua um dia já foi viva
gritando no céu incompreensões de abandono e desgosto
& também incompreensões de buracos no asfalto e furos no estofado
& pratos & copos & talheres & telhados quebrados
um mundo repleto e todo, todo feito vidro
transparências quase prontas para a mostra
dessas meninas mortas que me são
tão caras
tão caras

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

de como audre lorde não podia escrever em prosa

"Em uma entrevista com Adrienne Rich [3], Lorde confessará que até a publicação de “Poetry Is Not a Luxury” (“Poesia não é um luxo”, sem tradução em português), um dos seus textos mais belos, de 1977, não havia conseguido escrever em prosa. “Não podia. Comunicar pensamentos profundos em blocos lineares, sólidos, era superior a mim. Via o pensamento como um processo misterioso, do qual desconfiava. Eu tinha visto muitos erros serem cometidos em seu nome e cheguei a decidir não respeitá-lo. Além disso, me dava medo, porque eu tinha chegado a conclusões sobre a minha vida e os meus sentimentos que desafiavam a razão. Não queria perdê-las, porque eram inquestionáveis e demasiado preciosas pra mim, eram minha vida. Porém, tampouco podia analisá-las, porque não produziam o tipo de sentido que me ensinaram a esperar dos processos de entendimento. Eram coisas que eu sabia, mas que não podia nomear”."

fonte: http://blogueirasfeministas.com/2014/08/a-irma-outsider-audre-lorde/

dancing with the moon

todo dia escrevia nomes na parede e todo dia no fim do dia pintava a parede com uma cor diferente de modo que os nomes não se registravam, eram novos nomes a cada dia que ela tirava de uma caixinha na qual tinha registrado muitos nomes, personagens principalmente, e escrever seus nomes era uma forma de negar que eles pudessem ser esquecidos, e pintar a parede depois era uma forma de fazer com que fossem esquecidos, e o poder do lembrar e do esquecer era como o acender de um holofote forte no meio do palco. e, por óbvio, apagá-lo. a vida não tem cortinas, nem holofotes, mas ninguém está pensando na vida.