quarta-feira, 30 de novembro de 2016

grandes pra porra

"Somos contos contando contos, nada.",
diz Ricardo Reis, e se pensássemos
em universo grande e tempo longo
et al,
de fato, sequer lampejos, vagalumes,

e se não pensamos?
grandes pra porra

no céu luar

todo meu território
tomado por umidade
charcos pântanos & lamaçais
acima abaixo todo canto
algo viver se faz pulso pulso pulso
em cada bolha que se sobe
em cada mover
em cada lutar pelo sim de cada dia
moscas voando como metáforas
em torno de meu território úmido
dessas misturas de mistérios e se-darias
se-entregarias-todo-a-tempestades
de cada ser desse tempo-espaço que
a mim chamo
território meu ou território de mim
se-entregarias
força que se derruba no chão que
se abre jubiloso que se vira outras coisas
coaxares
muitos jeitos de andar de lado de andar pra trás
de andar muito
de atolar os pés mas ninguém anda toda
e qualquer bípede aqui no meu território
rasteja como um deus-serpente prenhe
fará ver a vida com milhões de possíveis
e faz buracos nas misturas e faz trajetos
tu do mover tu do viver tu do sem fundo e luar
no céu luar

o carro queimando podia tanto ser o Estado burguês

a esplanada explode
não passa na tevê
você vê a bomba de gás rasante
ela rouba seu ar por tal
sequencia de instantes tudo confuso você
corre você é só um corpo que corre e o Estado burguês
quer te devorar

quer chegar no fundo do seu tutano
e é principalmente o sangue dos mais
jovens
que eles sugam
o Estado burguês é o moinho do Cartola, espinho mesquinho,

tem tanta fumaça que você
nem sabe direito como achar a própria mão
nem o próprio pé mas vai

vai

vai

vai

vai

vai porra vai
que os cavalos tão vindo atrás e os fdp
tão com cassetetes na mão você
protege a nuca mas não adianta
os fdp são o Estado burguês no corpo
o corpo todo ódio
que seu gado tá tentando fugir
o cassetete veio você
cai quase levanta de súbito desfalece
segura pra não cagar na calça

de dor

de dor

de dor

marginal herói coisa assim o caralho
você só quer diminuir essa merda toda
você quer derrubar essa merda toda
você quer os cavalos livres
as fardas queimadas
e uma fogueira que ilumine as noites
e tire o sono o frio e tire a fome

as gentes fritando umas cenouras
em volta da fogueira em palitos
é isso que você quer

com hospital do lado e tal
e um trampando pelo outro e tal
é isso que você quer, não é?

é muito?


isso deveria ser o chão

só que o Estado burguês faz terremotos
constantes terremotos
o Estado burguês e sua máquina-terremotos
o Estado burguês latrina sumidouro catástrofe

você só queria que
o carro queimando podia tanto ser o Estado burguês
podia ser assim

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

e ele disse pra ela

e ele disse pra ela
ele disse pra ela
ele disse pra ela

ele pegou na mão dela olhou no olho e
ele disse pra ela
disse pra ela
ele ele disse pra ela

garota vem vamos pra outro canto despeja
toda sua bagagem em mim vamos fazer acontecer a gente até
pode tentar construir barragens e canais e até
castelos e com todos os nós a gente
ajunta os tecidos e faz nosso enxoval
junto com meus novelos e emaranhados
e de tanta coisa tanta fábrica tanto retalho bonito
vai parecer mais colorido que a mata
e mais bonito que o céu até

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A Ladainha do Moço

Ser gaivota
jaguar
naja

Tremer com brisas
marés
dunas

Ter sonecas
partos
festas

Abrir-se em cenas
sinas
rumos

Sempre intuir
seguir
chorar

Jamais ir
fechar
nem ser visto.


transcriação a partir de A Chave do Cofre, de Torquato Neto

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

sobre projetos

é fato
muitas ideias de diálogos serão levantados
mas poucos desses realmente se farão

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Artaud em O Teatro de Séraphin

"Para descrever o grito com que sonhei, para descrevê-lo com palavras vivas, com as palavras apropriadas e para, boca a boca e respiração contra respiração, fazê-lo passar não para o ouvido, mas para o peito do espectador."

terça-feira, 15 de novembro de 2016

crueldade, e é necessário doçura?

raramente começo pelo título. e raramente, nos últimos tempos, faço um texto como esse que vai a seguir. sigamos... com uma espécie de um desenho pra falar de algo que quer tentar transbordar. um projeto, ao menos. mas que seja pelo menos um projeto que possa não se sustentar. feito de fragmentos desencontrados, de sucata, daquilo que acharam que não tinha valor mas a gente revalora e reelabora. sigamos. os beats devem ter lido artaud. não faz sentido. aí tô ouvindo nyc ghosts and flowers, a música, e pensando no quanto parece que tem muita crueldade no sentido artaudiano aqui. as coisas desencontradas, as dificuldades, mas uma tentativa de gerar conexões com algo misterioso. é isso que a música diz? é isso que a música me diz no aqui agora dentro. eu não me reencontro, eu me desencontro. desencontrar podia ser algo como reencontrar, e vice-versa. o problema é que tudo que estou fazendo é tentar dizer com palavras, e era melhor que eu tentasse dizer com o corpo. era melhor. coisas. estou distante de sei lá o que. artaud faz pensar na necessidade de retomar um sentido religioso da vida e uma totalidade que a modernidade ocidental fodeu. parece muito atual, na medida que as religiões evangélicas colocam falsas saídas. não por qualquer juízo de valor metafísico, mas porque do ponto de vista prático elas mascaram relações reais e exacerbam aspectos extremamente problemáticos dos modos de vida que o capitalismo tem reforçado e constantemente reiterado e tem inscrito nos corpos. artaud fala de um teatro que promova transformações. e não é, certamente, isso que precisamos? para além do teatro. mas a vida é teatro. não. não é necessário doçura.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

vambora

escuta

   tem   um   caralho   de   um
belo universo
          logo ali 
pra gente


                                             construir


 vambora? vambora...




transcriação a partir de 'pity this busy monster, manunkind' de e.e.cummings

Pérolas aos porcos

O rapaz com a maleta, você, pede clemência,
a moça seminua - sou eu - lhe conta segredos.
As trilhas todas repletas de plástico
e as árvores secas da terra prometida.

E eu te conto que meu amor não sabe falar,
e que me preocupo - eu não consigo nem me aguentar.
E você me conta assim que na noite passada
você o ouviu gritar por longas horas com uma moça qualquer.

E você me conta dos feitiços que você tenta fazer,
e de como ninguém lhe ouve mesmo que você tente e tente,
e eu lhe conto que me sinto tão só, que não vem revolução alguma,
e que nenhuma criança vai nascer.

E eu deixei cartas em cada caixa de correio,
e você espalhou garrafas de vinho nas portas das casas,
enquanto eu coloquei bombons em belas embalagens junto,
entregamos o que cada um tinha, o seu, o meu.



transcriação a partir de Diamonds in the mine, do mestre Leonard Cohen