quinta-feira, 28 de maio de 2015

língua presa

i
enrodeio-me,
dou voltas em torno do
mesmo-mim,

que sequer mesmo,
que sequer mim,

que por vezes se quer,
que mais vezes qual quer,

ii
em roda
meus requerimentos por escrito,
e códigos de lei
que não as compreendo

iii
e me comprimo para caber
e, ainda assim, devasso,
esparramo espasmos
circularmente expoente

iv
cálculo preso
que sai rasgando

um uivo

tão somente tu é real,
dama eterna.

e teu toque tão somente
dores causa.

cousas que se dizem
pela televisão

& dizem as pessoas
por aí afora

não fazem diferença,
nem a menor,

quando estás aqui:
estou só

terça-feira, 26 de maio de 2015

as gentes que

i
as gentes
que correm pra achar os ecos
e tropeçam nas cordas estendidas
feitas das roupas velhas que teimamos
em não queimar, fazer

fogueira, bem, seria,
bem, melhor, bem,

se olha nas chamas
busca ver o próprio reflexo
busca ver o reflexo do outro e o seu reflexo
mas não vê nada

se olha nas chamas e vê
passado, futuro, irmãs, mães,
ou inventa que vê, que dá no mesmo.


ii
tentando
descobrir
o que beber
pra ajudar,

as vestes
de antes de antes de bem antes de ontem
não cabem mais, não adianta


iii
as gentes que
correm pra achar os toques
e derrapam no chão molhado
de sangue de lutas dos tempos todos, as lanças
não são de brinquedo, os laços prendem forte:

e fica no fundo da boca
o velho gosto de morte,


iv
as
gentes que só
querem carinho e sorte,
só, que querem nem que seja rebote,

caminham ao altar com porte,
encontram, um dia, um malote:
desvio nos caminhos, pinote:
é sempre perder de capote


v
...
vem, me dê a mão,
não, eu não dou não

segunda-feira, 25 de maio de 2015

versando o título de a.c. colla

"caminhante não
há caminho:
só rastros."


http://www.editoraperspectiva.com.br/index.php?apg=cat&npr=1007

tatsumi hijikata



“O que aconteceria se fosse possível colocar uma escada dentro do corpo para descer até o fundo?”



in: https://emac.ufg.br/up/269/o/TCC_Joeslaine.pdf
pg. 20

domingo, 24 de maio de 2015

sister, sister

si
nceridades, a menina, idades,
amenidades,
percursos, recursos, e o escuro de tudo

na noite preta
em que a lua, só on
tem mais nada

escapada
& perseguições, multi
plicidades, dões,
que não cantam tons nenh
uns mesmos, cada um

tem um,
nenh
um, mal qualquer, mal nenhum,

não sou tida
não me cante
esparrame sua mão em cor
po, pos, pós
sibilidades

(a serpente
no jardim?
amiga-irmã)

Te-ato

"Te ato" - "nome com múltiplas significações que vão desde 'te uno a mim' até 'te obrigo a unir-se a mim.'"

fonte: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/90609/248788.pdf?sequence=1&isAllowed=y
pg 107-108

referência:
pg 203 SILVA, Armando Sérgio. "A Viagem em Busca do 'Te-ato'". In: Oficina: do teatro ao te-ato. São Paulo: Perspectiva, 1981

prova da dor

"Faço a prova da dor como um médico que pinça o músculo para saber se está anestesiado. Eu pinço a minha memória. Talvez a dor morra antes da nossa própria morte. Faço a prova da dor e recordo as despedidas, uma diferente da outra. Às vezes, erguíamos a mão. Às vezes, nos abraçávamos."

trecho da peça Kassandra in process do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz
in: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/90609/248788.pdf?sequence=1&isAllowed=y
pg 72

quarta-feira, 20 de maio de 2015

meus pulmões não gostam de água

meus pulmões não gostam de água
meus pulmões
não gostam
de água
e ainda assim
empurro minha cabeça lago adentro

des languages latins

polissemia insuportável
me treme a mente
como poder ser peixe
se tenho mama?

lago adentro, lagoa,
quero lavar meus pulmões
tirar deles seu cheiro
e o resto de pó

não só, quero

entranhar novos meios, mundos,
veios,
e, perdida no afogar,
recantos, canções novas

que eu mesma farei para mim
para nadar profundamente
abissalmente
tocar o fundo de areia
e o fundo de carne viva, mente

a, sem afago, afogar

segunda-feira, 18 de maio de 2015

afinal, temos a arte porque

"Afinal, temos a arte porque o ser humano sempre busca novas formas para sua existência. E, por isso, com frequência, a defesa da arte em si já é um ato político. Pois o ser humano tem que ter o direito de expressar as suas experiências."

in: http://www.revistas.ufg.br/index.php/artce/article/view/34765/18311
pág 13