domingo, 31 de março de 2013

berlim 94

suzy, foi simplesmente um estouro, era o que ele disse, apesar de eu não ter estado lá para ver, mas escute aqui a mamãe, sim, sim, amiga, um estouro!, naquela noite tomamos muita champanha, aline tinha trazido da casa dos tios, e ela havia pego as garrafas escondido, certa de que nem iam notar, porque eram muitas as garrafas, era comemoração de formatura, ou alguma coisa assim, da namorada de um primo, e a pobre menina era, na verdade, orfã, e super self-made girl, acredita?, sempre trabalhou desde cedo, dessas que te faz sentir inútil e super patricinha,
                                                  parágrafo, ponto,
                                                  paralelo,
                                                               meridiano,
e foi bem rápido que chegamos, na verdade, e estavam todos por lá, e tinha colocado umas coisas nas lâmpadas para dar um 'tchan' diferente no ambiente, sabe?, ficamos conversando banalidades e trivialidades por hora até que johnny interviu, ele ia começar um daqueles longos discursos sobre a vida, a existência, e tudo mais, sem esquecer de mencionar os peixes, e agradecer pelo excelente salmão da noite à anfitriã, e pedir desculpa por alterar um pouco o teor de nossa conversa, e dizer que, feliz ou infelizmente, sempre teríamos alguns momentos legais para nos recordar e etc, mas que na verdade mesmo a vida não era feita disso, que tínhamos que ter algo mais sólido do que nos orgulhar, e bater no peito, e dizer: olhe, veja, tem marcas de minhas digitais ali, olhe veja que fiz o pão que as pessoas comeram para levantar esse prédio, olhe veja que fiz sexo com um dos arquitetos e sem minhas curvas ele não teria chegado a isso, hahaha, olha, tá, não foi bem o que ele disse, claro, e eu sabia que tudo que alguém poderia tirar daquilo era se sentir abarrotado, que, na verdade, assim, verdadeira mesmo, te conto aqui agora: não
                                                                                não faria diferença mesmo. quem eu fui naquele tempo para dizer alguma coisa? eu não teria como ter pensado diferente. fica muito engraçado pensar sobre passado, nesses termos, ou seja em quais termos forem, seja nos termos que você estabelecer, que o grupo decidir, e etcetera, etceera. olha, quando pensarmos naquela viagem, ou em qualquer outra, que diabos podemos dizer de nossas escolhas? isso, isso é inefável. e ainda assim... vai ficar uma coisa qualquer engasgada. não, não vai. te garanto que não vai. o tempo passa e, quando você nem vê, você já não sente mais nada na garganta.
e, sim, você pode tomar isso de um jeito mal, ou de um jeito bom. é só uma opção sua.
                   entrei no carro.
                                         
                                               paris, 87, foi quando pintaram aquele quadro. e ele dizia alguma coisa sobre a relação dos dois. e é claro que -, não, não é tão claro assim, mas na verdade eu acho que ficou tristemente banal. precisava mesmo terem escrito esses trechos de músicas? e esse tom de vermelho, berrante assim. parecendo sangue de menstruação. ah... pois é, sabendo disso, acho que fica ainda mais óbvio. não, sim, eu sei que faz referência àquelas fotografias, e continua não sendo grande coisa. a impressão que dá é que eles juntaram as referências de um jeito assim, como quem junta todos os objetos que têm cada uma em suas casas ao ir morar juntos e colocam, todos juntos, ênfase no todos, ênfase no juntos, na sala de casa. e é uma bagaceira, viu? porque do lado da estátua grega você vê um jacaré empalhado.

                                                                 paris, 93, paris paris, bolsa de jacaré eu andando por um canal não me lembro mais o quartier, sei que hoje lá eles têm um albergue, anos depois estive por lá, encontrei um canadense, nem te conto, mas bem, não é sobre isso essa história, não me lembro mais o que aconteceu em paris, 83, eu não me lembro mais.
seguimos pela mesma estrada. opa, não, eu sigo pela mesma estrada. eu posso dizer que estou mesma seguindo pela mesma estrada. e é a mesma estrada. eu achei que já estive em outras estradas, mas eu não estive. é a mesma estrada. eu reconheço o estilo das árvores a cor da terra, eu reconheço muita coisa por aqui, eu já fui e já voltei. no final do caminho tinha um espelho. aí voltei pro começo do caminho, porque não lembrava mais o que tinha. era um espelho também. hahaha, era um espelho também. posso jurar de pés juntos como era um espelho também!, haha, achei de um mal gosto terrível.
                               nossa, sim, eu gostei muito, achei verdadeiramente fantástico. achei de uma simplicidade contundente e até... não sei, dilacerante. mas de uma forma muito sutil, sabe? nossa, gosto tanto quando você vai tentar descrever uma coisa e as palavras meio que se escorregam pela boca, haha. você entrava, tinha um corredor, e você entrava pelo meio dele. no final, do lado direito, tinha uma cortina, uma pequena sala com um altar, tocando uma música meio oriental, e um espelho. e é uma sala fechada, escura. do outro lado, você volta, vai até o final, e encontra uma sala idêntica, o espelho, a moldura branca, e você simplesmente encontra a mesma coisa. achei que foi a melhor coisa que ela conseguiu fazer. dizem que era uma referência a uma viagem que ela fez. quer dizer, me expressei mal. que ela tirou isso de uma viagem que ela fez. ai, falando assim parece que-
                                                                                     não, de verdade, eu sinto muito. eu não sei bem como cheguei aqui, como cheguei a ser de fato isso que sou agora. eu verdadeiramente não estou feliz, e achei que estava fazendo as melhores escolhas. na verdade, eu quis achar que estava fazendo, mas eu não gastei muito tempo pensando nisso. até porque eu achava que se gastasse muito tempo pensando, ainda assim, não ia fazer diferença. você vê, não sei se vê, mas vê se entende, ou tenta entender, era um momento complicado, assim, para mim, um momento no qual parecia que todas as conclusões eram meio compulsórias, e eu poucas vezes, ou nunca soube, simplesmente, calar e me meditar. isso sempre me soou. a voz que me dizia alguma coisa sempre era eu, como quem se engana jogando a moeda pela quarta fez, insatisfeito com o resultado. ou quando você diz: depois do próximo carro azul que passar, eu ligo para ele. aí você espera mais sete carros azuis passarem. e aí você diz que é depois do próximo verde.
pois bem, de verdade,
eu não sei muito bem,
como eu cheguei aqui,
e eu sinto muito, de verdade, e eu queria que isso pudesse fazer diferença.
mas não faz.
nem a curto, nem a longo prazo, não faz nenhuma diferença. em barcelona, em 97, eu sonhei que nevava, e olhando pela janela era algo tão solene. era verão. o calor estava me cansando. e, nossa, haha, eu sonhei que nevava. os nomes ficaram perdidos pela narrativa. tente juntar a sílaba do início de cada parágrafo, se você conseguir voltar, distinguir o que é um parágrafo e o que é um enxerto, junte as sílabas, forme uma palavra, saber diferenciar quais são os sinais relevantes, quais são os arbitrários, qual o atalho, qual a cilada, saber dizer se tem uma mão de deus nisso tudo, ou só a sua, ou um conjugado de todas as mãos dos outros num imenso shiva-polvo, ou numa imensa kali-tubarão, com sua dança da vitória insana, eterna, fazendo tremer todos os mundos acima e abaixo.
                          tente juntar.
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com amor,

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

sentítulo

eu só preciso do meu sangue
do meu corpo sólido
e de minha alma firme

como mister shook ficando tímido
aos poucos desapareço
ao som de um trinado ameaçador

escadas e cadillac
uma casa para minhas garotas

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

De Lírios

Talvez
antes de tudo
eu tenha sido
massa de modelar.

Talvez
boneca de pano
de retalhos e espumefeita

espumante, Talvez marinha,
Afrodite, marginal,
sentada na beira do rio

colhi de lírios
para fazer,

Para Orlando, guirlandas,
Para Judite, palpites.
Para Hamurabi, lamentos,

unguentos, pobres
vocês, tão doentes,
Corto uma de minhas sete
cabeças
para beijá-la em cabeças outras.

(Modelo, de avião, de montar,
juntei, todas, as peças,
fora, de lugar)

E pra vós!,
Desfio
setenta vezes sete
Desafios,
bem sei que.

Meu cérebro
deve ter
algum
desalinho,

óleo gasto,
parafuso solto,
sutura frouxa, meu cérebro,

Meu cérebro
tem alguma
alquimia torta.
Mas ela é minha.
Só minha.

sábado, 26 de janeiro de 2013

men hunt on

toca um jazz em
manhattan e corro pelas ruas persigo
caralhos negros volitantes,

os traçados são desencontros são
desencontros coloridos para alegrar o patuá

nosso de cada dia, nos dai hoje,
as moças são bonitas são loiras negras amarelas azuis,
elas devem ser de marte elas falam coisas que não compreendo
elas cantam em línguas elas são deusas por aqui as moças

e suas bocetas mágicas
enchem o mundo de filhos um dia
menos as estéreis, que essas ficam bem mas não vão parir.

todas elas, todas elas podem te matar e não é verdade
não é verdade que elas tem inveja de caralhos, eu que
persigo caralhos pelas ruas de manhattan e agora eles são pequenos
e amarelos,

eu não sou um aborígene, não sei qual é minha tribo,
eles vão me fazer melhor, mais completo,
eu sou aquele moleque obcecado que só sabe fazer desenhos de caralhos pulsando,

os traçados são rejuntes de azulejos,
tem um prédio mais ao fundo da imagem e estou vestido
com as roupas de meus ancestrais,
eles tinham tribo, serão mesmo os meus ancestrais?
eu não sei bem qual é minha tribo.

tudo passa muito veloz.
tem uma mulher com cabeça de cabra.
as mulheres são seres belos que uma vez por mês
podem pintar minha cara com seu sangue.

eu sou uma coisa tão branca agora,
eu sou tipo um não, só que um não nem é tão branco,
então eu sou um não muito branco.

e você pode pintar minha cara com seu sangue, judite,
você não precisa cortar minha cabeça fora.
mas se você quiser, bem, não serei eu que vou reclamar
a minha própria cabeça, numa tijela, saia amarela,
sol azul lindo brilhante

tudo girava muito rápido
tudo girava muuuuuito rápido
leia, novamente, mas mais lento:
tuuudo giraaavaa muuuuuito ráaaapido,
e agora, normal,
mas eu nunca soube meu nome, jazz,
eu nunca soube meu nome, jazz.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

celebração

e montei no cavalo
e ele se esfacelou no chão
era de porcelana, pobre cavalo rico,
pobre cavalo chinês,

e eu era pesado,
tão tanto bigorna, bocado inflado,
e repleto de vestes, mantas,
sobretudos só eram quatro,

tive que jogar
peça a peça
por aí afora

e outro cavalo
ainda assim
virou caquinho,
que era?

vi que minha pele
sobrava
caía frouxa
parecendo resto,

esfaquinhei tudo, fiquei carne viva,
tão vermelho, tão artista,
e ainda me havia excesso
tombando em bolsas,

tive que
esvaziá-las
com mangueira e bomba
e ainda assim mais um

cavalo
se quebrou

lixei-me todo fora
e me vi todo branco
osso

e assim me coube o trono
e saí voado
pois que a todo caminho chegamos-te,
morte,


a seguir,
ouso dizer, sol
suor, tempestade,
dançarei.


e até lá me movo.
corro cego, órbita vazia,
e meu dente sorri, satisfeito,
da mesma cor
que
eu.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

tom de leitura

"Para atacá-las no devido tom, sabia encontrar o acento cordial que lhes preexiste e que as ditou, mas que as palavras não indicam: graças a ele, amortecia de passagem toda rudeza nos tempos dos verbos, dava ao imperfeito e ao pretérito perfeito a doçura que há na bondade, a melancolia que há na ternura, encaminhava a frase que ia findando para aquela que ia começar, ora acelerando, ora retardando a marcha das sílabas, para fazê-las entrar, embora diferissem de quantidade, num ritmo uniforme, e insuflava àquela prosa tão comum uma espécie de vida sentimental e contínua."

No Caminho de Swann, Proust.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

feliz aniversário,

feliz aniversário,
seu belo monte de merda
que à sanha de se equilibrar
sempre precisa de uma terceira

perna, feliz aniversário sua devassa!,
sua necessitada corrosiva
de mãos muitas que te preencham,
te enlacem, devoradora de

cabeças e sonhos, feliz aniversário
dragão líbelula, quis tanto encher
o céu inteiro de fugazes luzes celofanes
com arco-íris e toda a paleta,
mas só ficou no preto e branco, zero

a zero, feliz
aniversário, demente alado
que voou por todos as quinas
desse quarto torto
dessa cada toda,

feliz aniversário, você que em vós
ressoas, rumo a frente, eu rio,
mas você levanta, persegue
- altivo porém - o seu fim, feliz aniversário

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

o ciclo infinito (ou A Luta é Uma Respiração)

Estamos no Strelka quando ele me diz isso, um espaço bonito que fica diante da catedral do Cristo Salvador, a cena do crime. "Lembro de que nadava naquela piscina, quando criança. Minha sensação é de que em mais 70 anos a piscina estará de volta. E viveremos esse ciclo infinito de destruir igrejas e recriá-las".


http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1132912-putin-vai-mesmo-enfrentar-o-pussy-riot.shtml

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

instanciamo-nos

instanciamo-nos
no enquanto-quando e ao fundo
do cenário
ouve bem a voz que se cala

que suspira
pois é assim que se sabe dizer

instanciamo-nos
no enquanto-quem e ao mundo
do errário
sente o toque que assino em tua

perna
trêmula, trêmula é tua carne e a minha é fome,

instanciamo-nos
no enquanto-como e à banda
deixo meu desafino
deixo meus desencaixes

que ao fundo do errário do mundo letra nenhuma
segurou e osso qualquer bandeou,
estalou, e vi você de costas e em minhas mãos
tinha um pouco do seu cabelo

e perfume barato,
instanciamo-nos e não adianta ter tido
você ou palavras bonitas além

e no adianto do tempo só vi minhas as insônias,
e teus os gozos em lençóis de vinho que não
meus, que outros instantes que tentarei fazer de olhos
fechados, escrevendo nu

e
deixando
meu suor escorrer no enquanto-agora
por absolutamente
instante-ninguém.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

fogos de artifício em uma noite de abril


eu estava interessado nas conseqüências
eu estava interessado nos fatos que se isolam
nas coisas que mentem porque tinham sono
e então preguiça de contar a história inteira

eu mirava atento aquele azulejo trincado
aquele pássaro trinando
aquele disco furado

eu retomava o ponto de onde havia parado
seu olho quando fitando a garota que vinha
do lado oposto da rua, e nós na sacada do segundo andar,
e você segurando uma garrafa de vinho

tão firme
para que ela nunca caísse,

e te jurei amor eterno
pela cegueira que temos nessas horas
pois que as chamas do tempo sempre estão
por demais distantes e somos tão somente o que somos,

e eu lembro dessa história rindo,
pois que chorar hoje soaria amargo
como uma cotovelada na boca do estômago,

eu estava interessado nas linhas
que formaram um nó
interessado nas gotas que juntas e inclementes
caíram do céu violentas em forma de toró
eu estava interessado em você

e no mistério de cada ruga
que teu rosto formava máscara
ao se colocar em riso

tão completo,
tão repleto,
tão rasteiro

que caí no chão e estou rolando
há sete gerações, como saga como plaga como
recompensa
por haver

devassado
o fundo
do que nunca havia antes sido
visto,

"ah,
para,
nada antes foi visto/vivido,
a não ser que pela primeira vez!"

e não é disso
mesmo
que estou falando?
e não é do tropeço
do reconhecer
que posso falar?

e não é do fazer ofegante
com palavras?



"me conta um segredo?"
"tento."
"tem mesmo um pote de ouro no final?"