sábado, 16 de agosto de 2014

sussurrado

estranho tantos mares
porque eles não me dizem mais nada

e aqui nesse cantinho fico recolhido
mudo até passar

tem um cometa lá no céu
e meu celular não para de tocar

tudo tão veloz quanto um furacão
e eu sou uma vaca voadora

os remendos da roupa
arrebentaram todos de uma vez só

não sinto fome, não sinto frio,
não sinto sede, não sinto

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

fogueiras

ruínas tomam meu olhar inteiro
até o fundo da paisagem e além
e pássaros descem do céu
com voos rasantes e muita pompa

fogueiras acesas pra guiar
é melhor apagá-las

quando olho meu reflexo no lago
e vejo as águas turvas e me vem
aquela vontade de se jogar
com uma pedra amarrada na perna

e tento acender novamente
as fogueiras

ouço alguns barulhos engraçados
que lembram vozes e lembram segredos
e são pedacinhos de vidas recontados
que vão se enrolando nos anos

e viram luz
jogados às fogueiras

e me sento no chão e cavo
pra ver se encontro pedrinhas
ou se encontro facões
e não encontro nada

posso me jogar à fogueira
e queimar como uma bruxa

me vem em tentação vontade
de roubar seja lá o que eu puder
das lojas dessa avenida e do luar
dessa noite

que continua escura mesmo com
fogueiras com acesas

sexta-feira, 18 de julho de 2014

pra não saber ler

um dia qualquer, encontrou uma coisa
qualquer
numa rua qualquer

e fez uma coisa
qualquer,

qual não qual sim
qual tal,

derramou algo qualquer
num canto qualquer,
como qualquer um faz
mas qualquer não faria,

qualquer que foi
resultante lógica qualquer,

qualquer bobagem, sonho, delírio,
qualquer imagem

o pulsar-vida

o pulsar-vida se fez fome
engoliu meu nome

me deixou ladrando, o pulsar-vida
veio ladeando

foi e fez e comemorou a goleada,
o pulsar-vida quase nada

tá balbuciando cego
o pulsar-vida, cadê meu ego,

o pulsar-vida onde diabos foi parar
a trafegar a vaquejar a marejar

o pulsar-vida esquecido de simesmarias
entregue a avemarias

avesso a encontros
submisso, tonto, lento, ponto.

sábado, 24 de maio de 2014

toada detonada

parece que é cor de amarelo
parece que parece que
parece que é cor de amarelo

essa noite todos dançam caetano
menos eu

todos nanam depois, glauras,
menos eu,

cada um dançando suas neuras,
menos eu,

eu solitário em minha casa
com minha família
que faz com que me sinta acolhido
escondido
tampado

e estou um tanto quanto encardido

sapateado invertido
desalmado

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

eu tive que, e agora

eu tive que
jogar café nas minhas vestes
vezes vezes antes de entrevistas

de emprego,
eu tive que trocar letras palavras
e intuir que o sol continuaria sol e só
até sei lá quando

eu tive que
amanhecer, perder o sono, tomar banho de chuva
e esquecer de gripar,

eu tive que ficar rolando
capotado
da queda longa
a queda da ladeira
longa
a ladeira
a queda
crente que o santo tava

ajudando, eu tive que ficar
deitado
imóvel
esperando
achando que assim ia

e de alguma forma foi

eu tive que vencer
de capote às vezes
na bisca da vida
com parceiro, sem parceiro,
saber perder derreter todo
recompor, reajuntar eu tive que

eu tive que
entender
que eu tinha pernas
que elas poderiam até
ficar pro ar às vezes
mas no mais precisavam era seguir

eu tive que
captar
entranhar
receber
amaciar

eu tive que
e agora tenho que

pernas para que
quero

sábado, 18 de janeiro de 2014

catálogo de errrrrros

eu já
menti,
pros outros, pra mim, já me

matei, eu já
feri, eu já senti, já me

feri, já feri a outro
e me feri depois
pelo outro ferir,

eu já

adulterei,
já perjurei, já fiz,
deixei de fazer,
disse que ia, não fui,

eu já joguei
palavras ao vento, eu já o fiz,
e já o faço, já o fiz,

já o farei,
não fartei,

eu infartei,
revivi,
me reviveram,

reconheci,

eu já aqui
eu já aqui
eu já aqui

sutilezas no. 1

apresentei
o preparo

disseram que estava cru

coloquei mais chama

disseram ter ficado queimado

e depois disso, não teve mais
como ser
consertado

e silencia, estela

as vidas
paralelas

]as pessoas
que vivem
o que eu viveria

e eu vivo[

as vidas
para elas

a vida, nela, ela mesma,

a vida, estela, vou lhe contar,

a vida brilha, explode,

e silencia, estela,
e silencia.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

faz-se sim

há um entrelaçar
que é um entretecer

que deve ser clarear,
desemaranhar,

que o pente fino leve embora
lêndeas, piolhos, e demais sanguessugas,

há belos entrelaçares
entreteceres

emaranhares, simbioses,
e com mitose, e com meiose,
e com o sim,

faz-se luz, vida e luz
faz-se sim