segunda-feira, 2 de março de 2015

ciclone

ó grande amarrota-as-roupas-quando-passa!
indigno, inválido tu!
faz tudo tremer!
e o que não sai de mim como flecha
há de sair como experiência de foguete
voando por todos os lados
urros doces urros enjaulados
urros coisasnelesmesmados
sagração de verão também é sagração
o sistema jaz em colapso
não é fácil se prender em banheiros pra viver
ou perder a chave de casa
mas a gente se vira e rola
pra quais lados?
evita pensar
dizes que um turbante
naquele guri
faz dele um guru
dizes que uma pouca coisa
falta
e tudo continua a voar



sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Resistência

se eu visse uma revoada de patos,
assim penso,
estaria nos estados de allen,
ainda que eu não tenha lido isso, intuo,
Com o chalé de Berkeley,

mas estou
na sala do apartamento e sempre vejo a planta
crescendo selvagem e o crescimento
é um outro caminho para a morte e tropeço
Num sonho no qual tanto coço meus pés que
- ai de mim -
faço buracos

siriricas
paralelepípedos
jangadas
soluços

o doutor disse que eu não vou morrer:
basta tomar os remédios direitinho, bosta,
é tudo uma questão de controle.

que bonito seria voltar a andar,
a noite tem mais luz que o dia,
é tudo Maya, bloqueiam a via, as vistas

desses processos, dessas minutas,
Tomam o tempo rasgado por estiletes,
tesouras, escrever nas transversais e
Nas travessas
parar no meio e fazer trabalhos nobres.

a nobreza de quem diz a que veio
E por onde escoe
inclemente a enxurrada, palavras

que são nada,
Sabemos que é sem saída e persistir,
seja na Pérsia ou na Dalmácia,
pode soar como falácia,

Contudo
nas arrebentações do entrudo,
nos entre meios que se desnudam,
Um grito puro e longo se ouvirá.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

gracias, calderón

"Ah, centauro violento
que correste parelhas com o vento!"

as peças descabidas

sem cantiga de ninar,
sem boa noite,

a máscara da máscara,
uma, pintada em laca,
outra, com lantejoulas,
muito gelo seco no palco
com água, que não acabe
o show.

o estado islâmico,
a pm brasileira,
os pedidos de impeachment,
o boko haram,
os estados unidos,
mais um aumento da tarifa
do transporte coletivo.

o baile está tomado
querem ver você dançar,

do outro lado do mundo, você mora,
e sua casa tem baratas, e você estava de vestido,
você pegou
outro rapaz a noite inteirinha
e eu também me ocupei um pouco, que não sou tonta,

eu moro tão longe da praia,
é longe demais da praia,
nem posso catar conchinhas, mas

posso catar coquinho
em casa, queria lírios, queria
ser alguém, mas
não é não, repetem,
você não.

não sei se repetem dentro,
não sei se repetem fora,
não sei que voz é essa
que a cada noite
antes de dormir
se repete
me faz contar fracassos
e não ovelhas.

eu ainda como carne,
hoje está chovendo,
aqui estou falhando,
amanhã, às dez da manhã,
falho de novo.

me tomo pelo que sou com
o entortar da boca,
e nove em dez filmes me fazem chorar.

só que não estou vivo,
quem está vivo?, marchinha,

marcharão sobre nós.
nós,
as peças descabidas, as rebeldias vívidas,

escarradas, desencontradas das mães,
perdidas nos corredores
do grande supermercado-mundo, e de repente,
te colocam na prateleira
- inevitável, dizem -
e não dá pra respirar.

transborda!
faz bordados,
novos arranjos, quiçá rudes,
quiçá delicados,

novos arcanjos
no pálido céu,

e suas asas coloridas são faróis,
e são tantas as cores quanto de diverso se intui,
e são estandartes, bandeiras, fantasias, sonhos,
mais reais, e seremos nós a redesenhar esses versos.
esses outros versos dos outros tão sérios.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

As maçãs jamais quedam caladas

para evitar cair eu
me jogo, e de cada (ou de tantas)
imagens, palavras, sussurros, gritos,
eu encontro, e desencontro,
o cerne do meu silenciamento é a violência dos vivos.
o avesso do meu corpo está nas telas exposto.
as margens do desejo são móveis,
As maçãs jamais quedam caladas,
os espelhos não têm cara de estrada.
somente tu, e mais ninguém, e ainda assim 
Contínua feito ladainha ao reverso,
tecido gasto de mais de vinte anos, 
mais de vinténs, ninguéns, mínguas
enquanto desenrola, não cobre os pés,
e pelos furos os percevejos, prevejo,
se esbaldarão de tu, tu e mais ninguém,
gatos comerão as faces do desejo,
com gana, tal fosse sardinha, talvez
fiquem saciados. Que consolo!
Que glória!


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

que só

qualé seu requebrado,?
qualé seu remelexo,?
que cor faz seu gingado,
que sorte o patuá terá,?

numa noite todxs a nanarem:
- não serão estas,.
e não passarão xs militares,!
e não passarão xs caretas,!
e não passarão xs quadradxs,!

e rodopios descendentes
até o chão, que é chão de momo,!
que é chão de fúria,
que é chão de estrondos.

só espero que não
toque a ventania
que não se leve tudo
que não se pese tudo
que só

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

em retrowind

oi, cachorro,
tchau, cachorro,

o tempo indo e voltando em retrowind
abeto, betume, e tudo a ficar tão ruim

olhar fundo para uma cor
pensar fundo em uma cor
soprar fundo em uma cor
tudo em uma cor

o tempo indo e voltando em retrowind
abeto, betume, e alguns vasos da dinastia ming

o pé se ergue, a ré segue,
até metade do tanto, e nem invente pranto,
isso vai ter que servir, vai ter que servir

olhar reto para uma cor
abrir reto em uma cor
calar reto em uma cor
alguma coisa em uma cor

o tempo indo e voltando em retrowind
abeto, betume, e bugiganga xingling

sábado, 31 de janeiro de 2015

e ele é mudo

quando você tá descendo a tela,
e a tela não carrega,
como entrar num aposento
e ele devirar outro,

quais limites são tênues?,
há anos não ouço vozes.
são anos? parecem anos.
se parece, é.

definitivamente meus ouvidos
ficaram moucos, meus ouvidos,
eu não ouço mais e é tudo lento
e abaixo das peles, são outros.

na tela tem um monstro
formado por tudo e todos
e ele é mudo

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

valeu, ferlinghetti

That sensual phosphorescence
my youth delighted in
now lies almost behind me
like a land of dreams
wherein an angel
of hot sleep
dances like a diva
in strange veils
thru which desire
looks and cries