quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

catorze

às vezes
se quer
perguntar
e não se pergunta

nem é que não se ousa
é só que não se cabe

dentre sete pulseiras
que posso
imaginar que

por ventura
por pertença
a seu braço

fico com catorze

cataventos, moinhos
movimentos circulares
sem sair do lugar

- nós nunca saímos do lugar
- em que lugares nós fomos?
- lugares logos legos ligas

eu não gosto de como isso fica
eu tenho
minha idade meu segredo minha promessa
eu tenho esse poeminho

é uma espécie
de um nada
um coisa nada

fico assim
meio
que ilhada

me pergunta
se estou
revoltada

(estou domada)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

às verossimilhanças

tornada vosso leme,
tortuosas tapeçarias,
redenção jamais

desconfio de destinos
com os fios traço pulsos e ânsias
desistência, derrelição, que feitas
aos inversos, aos ferozes, às verossimilhanças
o prato feito, a vela acesa, a espera de todos

dias longos, dias vento, dizes sequer um nome
dizes algumas coisas dizes o que for desnecessário
dizes latrinas dizes cantigas dizes um versário todo
até que acabe apague fique só
eu

(a dizer, por óbvio)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

sonhei que

meses menos dias mais semanas
você mente eu minto
já tenho dezoito
dezembro sou de sagitário

pedras árvores voam livres
cansadas de fazer paisagem
pesam nervos pesam fitas
corta - doces e esquisitas

ontem sonhei que
me dobrava em dois
pela porta
e entrava

ontem sonhei que entrada

semanas menos meses mais dias
seguro o pedal
meu pé não alcança
e o pneu  estoura

touros búfalos correm livres
num descampado pisam antes
ainda camélias carmelitas
se põem em prece se põem aflitas

ontem sonhei que
me equilibrava em barras
beira de piscina
e caía

ontem sonhei que desequilíbrio

dias menos semanas mais meses
dedilho dez dedos
minha mão sou eu
sua pele sou eu

gazelas gaivotas mover livres
pela garoa charcos lama
ainda cristais fritas
anéis borboletas gritas

ontem sonhei que
me jogava em alvos
postos na parede
e furava

ontem sonhei que jornada

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

eu não me comporto


eu não me comporto
isso não me comporta
conforto é coisa pra sofá

vida-life de pedras e paus
finais de caminhos, versos em despropósito
descabimentos, calça caindo quando corro

estou de cueca, mais uma vez, não,
não estou pronto pra trepar, quem dera,
sinto coisas nas tripas pregas, piadas

quão gozadas, quanto espírito!,
o meu corpo é só deriva
nesse mar infindo de chorume

de lava, cada coisa que toca consome,
jamais me casarei, e digo mais, pois que
trombetas se ouvirão, só pra anunciar

minha miniatura de apocalipse
em cores extravagantes
e repleta de glitter

eu não me comporto
isso não me comporta
conforto é coisa pra sofá

eu estou deitadinho nessa cama de pregos
os prazos presentes,
os pretextos cheirando a carcaças

eu estou deitadinho e quase flutuo
mentira, eu afundo, minha carne
deveria rir, alguém diz, mas

eu estou deitadinho e conforto
conforto
conforto é coisa pra sofá

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

vai estar tudo bem

com dez mil e dois
batalhões à frente de casa
e eu abro a porta e dou um olá
um alô
um oizinho

eu estou de vestido de noiva
manchado de sangue

eu não matei meu amor
eu cortei um pescoço de um porco
eu tentava fazer uma feijoada
eu costurei na minha pele as orelhas
eu queria me tornar um ser adverso
eu buscava fazer uma mistura com segredos e sonhos
eu não esqueci nenhum dos temperos de minhas bisas
eu fazia de mim uma hecatombe em pé

os batalhões me olhavam com fome
eu que deveria fornecer-lhes comidas
eu não tinha porcos o suficiente
e nem feijões

eu ainda vou subir aos céus
vestido de noiva
sapato de salto se prendendo nos galhos
sustentação elevação canção
e vou desposar um gigante
ou uma giganta
ou coisa gigantesca

tudo porque
não me matei o meu amor
eu não matei o meu amor
não matei eu não matei

(meu amor fugiu de mimmmmmmm,
meu cabalo me deixoooooooou,
chorei pelo meu cabalo, chorei pelo meu amor)

mas meu cabalo
oh o meu cabalo
balor do meu cabalo
saiu correndo beloz cabalo

eu ainda vou subir aos céus
vestido de noiva
vou cair dos céus
sapato de salto
vou me misturar aos porcos
orelhas costuradas pela pele toda
se dá pra ouvir

sinais sinais sinais sinetes
explosões
e se minha atenção aumenta
e também
eu sei ler eu sei de cor
me faço feijoada completa
me dou aos

dez
miledois batalhões

e comem e fazem
uma guerra confusa
e comem e fazem
farras de espadas e espadas e espadas
e espadas e bainhas e espadas
e bainhas e bainhas e bainhas
e bainhas e espadas e bainhas
e comem e fazem
vitórias pódios troféus
e comem e fazem
medalhas pra quem goze mais

eu estarei escorrendo

vai estar tudo bem

tudo bem, porque eu estarei escorrendo
então vai estar tudo bem

fone, casa

para onde vão longos
os emails imaginários cada palavra
selecionada com esmero dentro

de minha cabeça, se perdem
em rotas que levam

a outros países,

e
se
alguém
grava a mensagem que você
pode querer que eu ouça

a cada noite
mas

hoje não consigo ouvir nada
porque nada chegou
e se não tenho rede conexão
se não há toque
se não me apoio
se dói de tanto

se não há toque
se rogo por abdução
se não me apoio
e nem a lua
se dói de tanto
che cosa vuoi de più

nada chegou

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

do anjo do foyer de max ernst

cada parte do corpo de uma cor, de um jeito
e um grito, um urro

cada parte do corpo um tecido
uma desforma
uma textura
um possível
um desacontecido
um quase
um querer
um tom

ainda que se veja mãos
se veja pés
então se toca
se anda
que fique em pé
talvez nunca riste

e urre
e grite

e a boca dentada é meio osso
meio pássaro meio dino
essas parecenças parentescos

e um pé solado espinhos
outro é uma bota

e dele parece querer sair outro
querer sair outro dele

outro que mão e dente
portanto agarra toca leva pra dentro
devora

e a buceta que em flor sai como que devora

eu não sei o que fazer com isso.

experiências. coisas que acontecem com alguém. uma experiência e um acontecimento não são a mesma coisa, são? eu não sei. me parecem sinônimos. se não existem sinônimos perfeitos, isso poderia ser um assunto filosófico. teórico. "but i digress". queria falar sobre lembranças. e também sobre desejos. e um sentimento de não se sentir suficiente em si. como se fosse cadência de ir pra além. pra terceira margem. ao se recordar de algo, com o "souvenir", fica aquele interrogar-se a fundo das coisas: estive lá, estou aqui. e lá eu era tão alguma coisa naquele momento. aqui vivo. vivo tão outras coisas também. outros acontecimentos, outras experiências. um acontecimento não ensina, e se ele ensina, ele se torna experiência. toda experiência ensina algo, ou diz algo. tem acontecimento que não diz? faz diferença tentar tatear a diferença? diferença, diferença, e a onça, e se for sã. está muito calor. eu vou ler isso no futuro. eu não vou lembrar do calor que fazia. em alguns anos provavelmente. eu não vou lembrar de nada que sentia nesse momento. eu não vou saber que eu pensava sobre a ingenuidade do que se vive por uma primeira vez, coisa que pensei ao assistir um episódio de gilmore girls e pensar nessa fase da vida da rory e do jess, de final de ensino médio e antes de faculdade. uma fase da vida que já tão distante. eu não vou lembrar dessas emoções, provavelmente, nem se reler, e se eu lembrar, o "souvenir" vai estar frio. mesmo se estiver muito claro e calor no dia. ou que seja uma noite assim, meia noite e um, no momento que as teclas vão tocando meus dedos nesse aqui agora. será que eu vou lembrar de que lembrei daquela paixão intensa, e daquele momento em que eu imaginava que seria possível que cada uma das coisas ao redor seria manchada pelo amor? belas manchas veriam todos. gritar amor por aí, sem rumo. inferno, eu quero chorar, e eu estou vivo. eu não sei o que fazer com isso.